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Estados Unidos precisam do nascimento de um terceiro partido

Confira o artigo do colunista do jornal 'The New York Times' Thomas L. Friedman traduzido pela 'Folha de S. Paulo'

Estados Unidos precisam do nascimento de um terceiro partido
O presidente Barack Obama não foi um fracasso inútil, diz autor

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Um amigo que é militar norte-americano me enviou um e-mail na semana passada com uma citação do livro do historiador Lewis Mumford “A Condição de Homem”, sobre o desenvolvimento da civilização. Mumford descrevia o declínio de Roma: “Todos desejavam segurança: ninguém aceitava a responsabilidade. O que faltava claramente, muito antes que as invasões bárbaras tivessem feito seu trabalho, muito antes que os deslocamentos econômicos se intensificassem, era um impulso interno. A vida em Roma era uma imitação da vida: uma simples manutenção. ‘Segurança’ era a palavra-chave –como se a vida conhecesse outra estabilidade que não fosse através da constante mudança, ou qualquer forma de segurança que não incluísse uma constante disposição a assumir riscos”.

Era um desses trechos da história que ressoam com tal força no presente que causam calafrios –demasiadamente próximo para ser confortável.

Eu acabo de passar uma semana no vale do Silício, conversando com tecnólogos da Apple, Twitter, LinkedIn, Intel, Cisco e SRI, e posso definitivamente relatar que essa região não perdeu seu “impulso interno”. Mas em conversas aqui e em outros lugares eu continuo me surpreendendo com o nível de decepção com Washington, DC, e nosso sistema bipartidário – tanto que estou pronto a arriscar uma previsão: a não ser que haja uma transformação dos partidos Democrata e Republicano, haverá um sério candidato de um terceiro partido em 2012, com um sério movimento político por trás dele ou dela – que definitivamente será grande o bastante para causar um impacto no resultado da eleição.

Há uma revolução fermentando no país, e não apenas à direita, mas no centro radical. Conheço pelo menos dois grupos sérios, um na costa leste e um na costa oeste, que estão desenvolvendo “terceiros partidos” para contestar nosso estagnado duopólio bipartidário que tem presidido nossa nação em seu declínio constante e incremental.

O presidente Barack Obama não foi um fracasso inútil. Ele tem algumas conquistas reais. Aprovou uma expansão do seguro-saúde e uma expansão da regulamentação financeira, estabilizou a economia, iniciou uma reforma da educação nacional e conduziu uma guerra dura e inteligente contra a Al Qaeda.

Mas existe outro ângulo sobre os últimos dois anos: um presidente que ganhou um mandato político abrangente, impulsionado por um movimento jovem e enérgico e com o controle da Câmara e do Senado – tanto poder quanto qualquer presidente poderia esperar em tempos de paz -, só foi capaz de aprovar uma expansão do seguro-saúde que é um amálgama nada ideal de compromissos tortuosos, que ninguém tem certeza se funcionará ou se poderemos pagar (e não trata dos problemas do custo ou da qualidade), um estímulo limitado que não aliviou o desemprego ou reparou nossa infraestrutura e um projeto de regulamentação financeira que ainda precisa ser interpretado pelos reguladores porque ninguém conseguiu concordar sobre dispositivos cruciais. Além disso, Obama teve de abandonar totalmente um projeto de clima-energia, e se os republicanos recuperarem a Câmara talvez não tenhamos uma lei de energia até 2013.

Obama provavelmente fez o melhor que pôde, e é isso que interessa. O melhor que nossos atuais dois partidos podem produzir hoje – no rastro da pior crise existencial de nossa economia e do meio ambiente em um século – é aquém do ideal, mesmo quando um partido tinha uma enorme maioria. Aquém do ideal serve para tempos comuns, mas estes não são tempos comuns. Precisamos parar de esperar pelo Super-Homem e começar a construir um superconsenso para fazer as coisas superdifíceis que temos de fazer agora. Razoavelmente bom, hoje, não chega perto de bom o suficiente.

“Basicamente temos dois partidos falidos, falindo o país”, disse o cientista político Larry Diamond, da Universidade Stanford. De fato, nosso sistema bipartidário está fossilizado; faltam-lhe integridade e criatividade e qualquer sentido de coragem ou aspiração elevada para enfrentar nossos problemas. Simplesmente não seremos capazes de fazer as coisas que precisamos fazer como país para seguir adiante “com todos os interesses especiais que se acumularam ao redor desses dois partidos”, acrescentou Diamond. “Eles não podem mais pensar no bem público geral e em longo prazo porque ambos os partidos estão presos em cálculos de curto prazo e soma zero”, em que os ganhos de cada um são considerados perdas do outro.

Temos de rasgar esse duopólio bipartidário e fazer que ele seja contestado por um terceiro partido sério, que fale sobre reforma da educação sem se preocupar em ofender sindicatos; reforma financeira sem se preocupar em perder doações de Wall Street; reduções de impostos para empresas para estimular empregos, sem se preocupar em ofender a extrema-esquerda; reforma da energia e do clima sem temer ofender a extrema-direita e os democratas dos estados do carvão; e uma reforma da saúde adequada, sem se preocupar em ofender as seguradoras e as empresas farmacêuticas.

“Se a concorrência é boa para nossa economia, por que não é boa para nossa política?”, pergunta Diamond.

Precisamos de um terceiro partido no palco do próximo debate presidencial para olhar os americanos nos olhos e dizer: “Estes dois partidos estão mentindo para vocês. Eles não podem lhes dizer a verdade porque ambos estão presos em décadas de interesses especiais. Eu não vou lhes dizer o que vocês querem escutar. Vou lhes dizer o que vocês precisam escutar se quiserem ser os líderes mundiais, e não os novos romanos”.

Fontes:
The New Yor Times - Third Party Rising

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