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França busca redefinir seu papel na África

Sarkozy defende não-intervenção nas ex-colônias, mas na prática, comportamento francês apresenta contradições

França busca redefinir seu papel na África
Sarkozy e Ben Ali, que teve o governo dissolvido após protestos populares (Fonte: AP)

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Pego de surpresa pela “revolução de jasmim” na Tunísia, o governo da França fez o que os franceses fazem de melhor: criou uma teoria para se explicar. A França não estava apenas um passo atrás dos eventos, mas, ao contrário dos Estados Unidos, deixou de condenar a violenta resposta do regime aos manifestantes. E dias antes do vôo do presidente tunisiano, Zine el-Abidine Ben Ali, a ministra das Relações Exteriores da França, Michèle Alliot-Marie, atrapalhadamente ofereceu o know-how das forças de segurança francesas à sua antiga colônia, para evitar que as vidas dos manifestantes fossem colocadas em risco.

Segundo o governo, a doutrina que explica todo esse comportamento é “o princípio da não-interferência”. Por décadas após suas colônias na África declararem independência, membros do governo francês, chefes do setor petrolífero e soldados se misturaram nos bastidores, dando suporte a muitos líderes de reputação duvidosa durante muito tempo. Uma rede de contatos, conhecida como Françafrique, ligava vários líderes africanos e altas quantias de petrodólares a partidos políticos franceses e presidentes da esquerda e da direita. Quando foi eleito presidente em 2007, Nicolas Sarkozy prometeu se livrar dessas “redes de eras ultrapassadas”, e substituí-las por laços maduros e bilaterais, livres do paternalismo pós-colonial.

De certa forma, a França já virou essa página. Sarkozy inaugurou uma nova base militar em Abu Dhabi, onde a França não tem ligações coloniais, e devolveu ao Senegal uma de suas três bases permanentes na África (o país ainda mantém bases no Gabão e no Djibuti). Sarkozy renovou acordos bilaterais de defesa, e levou líderes para fora do mundo francófono. Desde que Osama bin Laden incluiu a França em seus alvos de ações terroristas por sua proibição à burca, o presidente francês tem se concentrado particularmente no contraterrorismo.

Mas a nova abordagem francesa pode ser realmente chamada de “não-interferência”? “A França costumava intervir para existir internacionalmente”, diz Dominique Moïsi, do Instituto Francês de Relações Internacionais. “Vemos agora uma reversão dessa atitude, mas ela acontece de maneira caótica, senão contraditória”. Como Sarkozy declarou, o princípio da não-interferência às vezes colide com outro importante princípio que ele atribui à democracia francesa: o de apoiar a liberdade e a democracia.

Isso pode ser observado em eventos recentes em três ex-colônias francesas: Costa do Marfim, Tunísia e Níger. Quando Laurent Gbagbo se recusou a deixar a presidência da Costa do Marfim, Sarkozy o ameaçou com sanções. Sua ação estava em sintonia com o consenso internacional, mas foi, ainda assim, encarada como imperiosa. “A Costa do Marfim não é uma subprefeitura francesa”, protestou um ministro marfinense. O ultimato de Sarkozy já ultrapassou seu prazo, sem nenhum efeito. A França tem centenas de soldados no país em uma operação de paz, que se viram envolvidos em sangrentos tiroteios anos atrás, um cenário que ninguém quer repetir. Mas será o país capaz de se manter fora do conflito, atuando com a União Africana – que agora media o impasse – e defendendo o uso da força para que Gbagbo seja removido?

Se os franceses estão inevitavelmente envolvidos na Costa do Marfim, eles, por outro lado, foram criticados por sua omissão quanto à Tunísia. “Escandaloso”, “vergonhoso” e “ignóbil” foram alguns dos adjetivos mais suaves usados recentemente pelo Partido Socialista, de oposição (embora, quando tenham passado pelo poder, os socialistas tenham sido tão íntimos com Ben Ali quanto o governo atual). A blogosfera francesa desenterrou evidências da cumplicidade franco-tunisiana para o “Mural da Vergonha de Ben Ali” exibido no Facebook. Quando Sarkozy e sua esposa, Carla Bruni, visitaram diplomaticamente o país, em 2008, o presidente anunciou que “a liberdade tunisiana estava progredindo”.

Na realidade, a França não apoiava o regime tunisiano mais do que qualquer outro governo que o via como uma barreira contra o islamismo. Mas seus laços com o país são mais complexos: pelo menos 600 mil tunisianos vivem na França, incluindo vários exilados políticos, e a França é o maior parceiro econômico do país africano. Vários políticos franceses nasceram ou têm casas na Tunísia. Essa confusão de laços íntimos também explica a confusão francesa. Apesar de ter demorado a se pronunciar, a França se apressou em recusar o pedido de asilo de Ben Ali.

Um terceiro, e bem diferente, caso envolve a recente execução de dois franceses sequestrados em um restaurante em Níger, por pistoleiros ligados à al-Qaeda do Magreb Islâmico (AQIM). Enquanto o exército local procurava os sequestradores pelo deserto, forças especiais francesas foram convocadas e realizaram um ataque de helicóptero. Vários membros da AQIM morreram no tiroteio. Em outra parte do Sahel, cinco franceses ainda são mantidos reféns, e outro foi morto pela AQIM em 2010.

Obviamente, combater o terrorismo e os sequestros no Sahel é um outro tipo de intervenção. Mas isso também reflete como a França tenta redefinir seu papel na África. Em 2010, declarou que o pagamento de resgates e a negociação com sequestradores do Sahel “não eram uma estratégia” para a França. Ao invés disso, a França ajudaria qualquer país que requisitasse ajuda para perseguir a AQIM. “Essa foi uma grande mudança estratégica”, diz François Heisbourg, da Fundação para Pesquisa Estratégica. As forças especiais que a França lotou no Sahel explicam como os sequestradores do Níger foram rastreados tão rapidamente. Em resumo: a França quer princípios precisos para sua nova diplomacia na África; a realidade, no entanto, é bem menos clara.

Leia mais:

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Fontes:
Economist - France and Africa: Ties across the Mediterranean

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