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Juízes e bandeirinhas: pressão começa antes de entrar no campo

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A Copa do Mundo começa no dia 9 de junho. Além dos jogadores, estrelas do espetáculo, entram em cena outros atores de igual importância, cujo comportamento – e, diga-se de passagem, salários – fica menos revelado pelos flashes da mídia ou pelo assédio dos fãs. São os árbitros e auxiliares, mas conhecidos pelo cidadão comum como juízes e bandeirinhas. Mas a pressão psicológica que eles sofrem é, às vezes, ainda maior que a dos craques em campo, porque cabe a eles a função de decidir o que está certo e o que está errado.

Segundo Arnaldo César Coelho, primeiro árbitro sul-americano a apitar uma partida final da Copa do Mundo (em 1982, na Espanha), a Fifa (Federação Internacional de Futebol) proíbe totalmente o contato ou a presença de familiares, torcedores, dirigentes de clube e seleções e patrocinadores no local da concentração e preparação. Os hotéis onde ficam concentrados os árbitros normalmente estão localizados distante das badalações. E, em qualquer passeio, até mesmo para comprar uma simples lembrança, são acompanhados por um membro da Fifa. Quer dizer, poder, acho até que pode ser possível uma fugidinha, mas é melhor evitar, conta Arnaldo César Coelho.

De acordo com o costume de cada país, o árbitro pode ficar confinado de 8 a 30 dias, em um centro de treinamento, antes da primeira partida, explica Carlos Elias Pimentel, presidente da Comissão de Árbitros da Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj). Isto porque, complementa Mauro Boselli, especialista em marketing esportivo e professor da Univercidade, todos esperam a perfeição por parte do juiz e o ditado popular (seguido, tudo indica, à risca neste caso) afirma que é mais fácil comprar um árbitro do que os 22 jogadores, brinca, apesar de até hoje, talvez por causa deste cuidado, não se ter prova concreta de um caso de corrupção na Copa do Mundo, envolvendo estes profissionais. Há muitos anos não se houve falar nisso, em qualquer hipótese, e olha que trabalhei nas Copas de 78 e 82, afirma Arnaldo.

Arnaldo César Coelho, vaidoso, não admite que esse conjunto de fatores represente uma forma específica de pressão psicológica para o árbitro. Vejo tudo isso como uma atividade normal. Foi legal, em 82, trabalhar na final da Copa, apesar da grande responsabilidade, disse.

Mas Carlos Elias Pimentel destaca que a pressão vem de todos os lados, em todos os momentos em que o juiz de futebol atua, seja nos campeonatos estaduais, brasileiro e principalmente em um evento tão importante com o mundial de futebol.

Para Mauro Boselli, a pressão psicológica existe, sim, e os números falam por si. Nunca vi ninguém ter a coragem de declarar pressão psicológica, alfinetou. Estima-se que a partida final, quando se conhecerá os vencedor, deverá ser assistida por aproximadamente três bilhões de pessoas. O espetáculo é o evento mais assistido da história da humanidade e patrocinado por grandes empresas multinacionais, interessadas nos lucros certos.

A maior rede de televisão brasileira pagou, apenas pelo direito de transmissão, cerca de R$ 700 milhões. Há muito dinheiro envolvido. A cada fase que uma seleção se classifica (são quatro fases) ganha um presente de US$ 4 milhões da Fifa. E enquanto um jogador como Ronaldinho Gaúcho tem um salário de 8,5 milhões de euros por ano (na verdade 24 milhões de euros anuais, incluído o direito de imagem), um árbitro da Fifa vai receber por cada jogo pouco menos de US$ 1 mil. Cada um dos 23 juízes que apitarão as 64 partidas vai ganhar US$ 40 mil por um mês à disposição da Fifa. Esse valor dobrou em relação a 2002. As comparações são inevitáveis e é claro que o árbitro precisa de uma estrutura psicológica grande e firme para merecer, como vem merecendo, a confiança de todos nós, ironiza Mauro Boselli.

Alguns fatos pitorescos, no entanto, que ocorreram no passado (e talvez nada impeça que continuem acontecendo) no cenário futebolístico, comprovam a pressão psicológica e sócio-econômica porque passam os juízes. Boselli conta um deles que aconteceu em 1982, durante o jogo entre França e Kwait: o juiz marcou um impedimento considerado duvidoso a favor da França. Um dos poderosos sheiks da federação de futebol do Kwait desceu até o gramado, chamou o juiz, falou no ouvido dele gesticulando com irritação. Em seguida, o árbitro retornou cabisbaixo ao jogo e anulou o gol contra o país anfitrião.

Outra peripécia, mais antiga, ocorreu em 1966, na Inglaterra, em uma partida entre a seleção inglesa e a alemã. Houve um gol suspeito, mas não existia, à época, a repetição do lance. Só 20 anos depois, os técnicos no assunto, analisando o que aconteceu em câmara lenta, descobriram que a bola bateu na trave e na linha, mas não entrou no gol, narrou Boselli, para explicar que, quando ocorre um equívoco desta natureza, não há punição imediata. A Fifa deixa para analisar o caso meses depois, quando os ânimos já estão menos exaltados.

Há fatos engraçados também. Boselli lembra que Arnaldo César Coelho fez questão de guardar a bola da final que apitou entre Itália e Alemanha. Hoje em dia ele conta rindo. A rigor, não poderia fazer isso. As bolas pertencem à Fifa, assinalou o especialista em marketing esportivo. Na hipótese de o juiz agir de má fé, disse, será execrado, primeiramente, e depois pode até ser expulso da Fifa. Mas isso é raro, admite Carlos Elias Pimentel. Quando um juiz apita mal, fica fora por um período. Apenas isso, falou.

E como é feita a escolha dos árbitros que vão à Copa do Mundo para evitar quaisquer tipos de desobediência às ordens da Federação? Alguns juízes e ex-juízes que não quiseram se identificar afirmaram que a seleção é, principalmente, política. Quem tem mais espírito negociador e bom padrinho fica. Pimentel garante que o critério é apenas técnico. Não sei desse negócio de política. Um juiz começa a carreira por volta dos 18 anos e se aposenta (sem vencimentos, porque está é apenas uma atividade esportiva) aos 40 ou 45 anos, de acordo com a regra de cada federação. Neste período, faz vários cursos e muito exercício físico. Trabalha por amor, não tem por quê se envolver em coisas alheias ao seu trabalho, insistiu Pimentel.

Fontes:
O Estado de S. Paulo - Máfia do Apito: Juiz nega bloqueio de bens de envolvidos

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1 Opinião

  1. marion monteiro disse:

    A matéria foi oportuna, pertinente, bem redigida e a repórter retratou fielmente as declarações do ex-juiz
    Marion Monteiro- assessora de imprensa de Arnaldo Cezar Coelho

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