Início » Sem categoria » Julian Assange responde perguntas de internautas
WikiLeaks

Julian Assange responde perguntas de internautas

Confira a íntegra da entrevista dada pelo fundador da Wikileaks aos leitores do jornal inglês 'The Guardian' nesta sexta-feira, 3

Julian Assange responde perguntas de internautas
Julian Assange, o fundador do WikiLeaks, está foragido (Fonte: Guardian)

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

Embora esteja foragido, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, respondeu, nesta sexta-feira, 3, perguntas de leitores do jornal inglês The Guardian sobre a divulgação de mais de 250 mil documentos diplomáticos dos Estados Unidos. Confira a íntegra da entrevista:

Leitor: Você tem passaporte australiano. Deseja retornar ao seu país, ou isso agora está fora de questão,  já que corre o risco de ser preso assim que aterrissar, por ter vazado documentos relacionados a diplomatas e políticos australianos?
Assange: Sou cidadão australiano e sinto muita falta do meu país. No entanto, nas últimas semanas, a primeira-ministra australiana, Julia Gillard, e o procurador-geral, Robert BcClelland, deixaram bem claro que o meu retorno não só é impossível, como também estão trabalhando ativamente para ajudar o governo norte-americano em suas ofensivas contra mim e meu grupo. Isso põe em dúvida o que significa ser um cidadão australiano — isso significa alguma coisa? Ou será que estamos todos sendo tratados como David Hicks (apelidado de ‘talibã australiano’, David Hicks foi preso pelos EUA em dezembro de 2001 no Afeganistão, onde teria combatido junto com os talibãs após se converter ao Islã) na primeira oportunidade apenas para que os políticos e diplomatas australianos possam ser convidados para as melhores festas na embaixada norte-americana?

Leitor: Você acha que mudou as relações internacionais? E se você considerar todo o crédito que está recebendo, não acha que a sua fonte também deveria receber alguns elogios seus?
Julian Assange: Nos últimos quatro anos, um dos nossos objetivos tem sido tratar como celebridades as fontes que se arriscam para divulgar matérias jornalísticas sem as quais os jornalistas não seriam ninguém. Se as alegações do Pentágono forem realmente verdadeiras, e o jovem soldado — Bradley Manning — está por trás de algumas das nossas  recentes divulgações, então ele é, sem dúvida, um herói sem igual.

Leitor: Você divulgou ou pretende divulgar documentos com os nomes de informantes afegãos ou de outras nacionalidades? Você está disposto a censurar alguns nomes que podem pôr pessoas em perigo de represálias? A propósito, acho que a história te absolverá. Parabéns!
Julian Assange: O WikiLeaks publica documentos há quatro anos. Durante esse período, não houve nenhuma alegação confiável, nem mesmo de organizações como o Pentágono, de que uma única pessoa teria sido prejudicada por causa de nossas atividades. Isso é verdade, apesar de muitas tentativas de manipulação e distorção dos fatos, que tentaram levar pessoas a conclusões não condizentes com a verdade. Não acreditamos que isso vá mudar.

Leitor:  O Departamento de Estado tenta descobrir se você é jornalista ou não. Você é jornalista? Quanto a divulgação de informações que algumas pessoas não querem que venham a público, faz diferença se você é jornalista ou não?
Julian Assange: Fui coautor do meu primeiro livro baseado em fatos reais quando tinha 25 anos. Desde aquela época, tenho me envolvido na produção de documentários, jornais, programas de televisão e conteúdo Web. No entanto, é desnecessário discutir se sou jornalista, ou o por quê de nossos funcionários deixarem misteriosamente de ser considerados jornalistas quando começam a escrever para nós. Embora eu ainda escreva, pesquise e apure,  minha função agora é principalmente a de um editor-chefe, que coordena e dirige outros jornalistas.

Leitor: Você já recebeu algum documento sobre vida extraterrestre ou OVNIs?
Julian Assange: Muitas pessoas esquisitas nos enviam emails sobre OVNIs ou de como descobriram que são o anti-Cristo  ao conversarem com suas esposas em festas de jardim. Entretanto, esses documentos nunca cumpriram duas das nossas regras de publicação:
1)      Não publicamos documentos escritos por quem os enviou
2)      Publicamos apenas documentos originais

Porém, é importante frisar que em alguns documentos ainda não divulgados no nosso arquivo existem referências a OVNIs.

Leitor: O que aconteceu com todos os outros documentos que estavam no Wikileaks antes dessa nova série ser vazada? Você vai colocá-los online de novo em algum momento?
Julian Assange: Muitos ainda estão disponíveis no site mirror.wikileaks.info e o resto vai voltar logo, assim que pudermos resolver alguns problemas técnicos. Desde abril deste ano, a nossa agenda de publicação não tem sido ditada por nós, mas por obstáculos criados por elementos abusivos dentro do governo dos Estados Unidos. Mas pode ter certeza  que estou profundamente desapontado pelo fato de que o resultado de três anos e meio do meu trabalho e do trabalho de outros não está mais  disponível para o grande público.

Leitor: Você esperava esse tipo de repercussão mundial? Você teme pela sua segurança?
Julian Assange: Eu sempre acreditei que o conceito por trás do Wikileaks iria desempenhar um importante papel global e, até certo ponto, já em 2007, quando o site influenciou o resultado das eleições gerais no Quênia, ficou claro que estávamos fazendo isso. Eu pensei que levaria dois anos em vez de quatro até que o site fosse reconhecido como tendo este papel importante, por isso ainda estamos um pouco atrasados e temos muito mais trabalho a fazer. As ameaças contra nossas vidas são de conhecimento geral. No entanto,  estamos tomando as precauções adequadas na medida do possível, especialmente quando se trata de ameaças vindas de uma superpotência.

Leitor: Sou um ex-diplomata britânico. No âmbito das minhas funções, ajudei a coordenar ações multilaterais contra um regime brutal nos Balcãs, a impor sanções contra um Estado que ameaçava limpeza étnica e a negociar um programa de alívio da dívida de uma nação empobrecida. Nada disso teria sido possível sem a garantia de que correspondências confidenciais não seriam divulgadas, conforme  as leis do Reino Unido e de muitos outros Estados liberais e democráticos. Uma embaixada que não pode transmitir mensagens de volta a Londres com segurança é uma embaixada inoperante. A diplomacia não funciona sem discrição e proteção de fontes. Isso se aplica ao Reino Unido e às Nações Unidas, tanto quanto aos EUA. Com a publicação deste enorme volume de correspondências, o Wikileaks não está revelando casos específicos de injustiças, mas minando todo o processo diplomático. Se você pode publicar documentos dos EUA, então você pode publicar documentos do Reino Unido e e-mails das Nações Unidas. Minha pergunta é: por que não deveríamos te responsabilizar quando  uma crise internacional ocorrer porque diplomatas não conseguem mais trabalhar?
Julian Assange: Se você cortar essa vasta carta editorial até chegar à pergunta específica que quer saber, eu ficaria feliz em lhe dar a minha atenção.

Leitor: Você pode explicar por que alguns nomes estão censurados em alguns dos documentos divulgados? Nomes importantes foram revelados, enquanto outros aparecem apenas como XXXXXXX.
Julian Assange: Os documentos divulgados correspondem a reportagens divulgadas por nossos parceiros na mídia e por nós mesmos. Eles têm sido redigidos por jornalistas trabalhando nas matérias, já que essas pessoas conhecem bem o material. As alterações são revisadas por pelo menos um outro jornalista ou editor, e nós comparamos textos redigidos com amostras fornecidas por outras organizações para garantir que o processo está funcionando.

Leitor:Embora devam ser irritantes, os ciberataques que o WikiLeaks tem sofrido servem de propaganda para você (te dá credibilidade), assim como ser expulso da Amazon. Você concorda? Isso foi uma estratégia?
Julian Assange: Desde 2007 temos deliberadamente colocado alguns dos nossos servidores em jurisdições que não respeitam a liberdade de expressão para tentar separar a retórica da verdade. A Amazon foi um desses casos. 

Leitor: Você começou algo que ninguém pode parar. É o início de um novo mundo. Lembre-se que o povo te apoia. Você vazou algum documento sobre O Acordo Comercial Anticontrafação (ACTA)?
Julian Assange: Sim, temos documentos sobre o Acordo Comercial Anticontrafação, uma espécie de cavalo de Troia dos acordos comerciais criado para atender grandes empresas norte-americanas envolvidas em questões de direitos autorais e patentes. Na verdade, o WikiLeaks foi o primeiro site a chamar a atenção do público para o ACTA.

Leitor: Tom Flanagan, ex-assessor do premier canadense disse recentemente: “Acho que Assange devia ser assassinado… Obama devia contratar alguém…não ficaria triste se Assange desaparecesse”. O que acha disso? 
 Julian Assange: O senhor Flanagan e outros que fazem declarações semelhantes deviam ser acusados de incitamento à prática de homicídio

Leitor: Por que você achou necessário “dar um rosto ao Wikileaks”? Você não acha que seria melhor se a organização fosse anônima?
 Julian Assange: É uma pergunta interessante. Inicialmente  me esforcei bastante para que a organização não tivesse rosto, porque eu não queria que egos influenciassem nossas atividades.  Isso seguia a tradição dos matemáticos franceses anônimos que escreviam sob o pseudônimo coletivo, “Os Bourbaki”. No entanto, isto rapidamente gerou uma curiosidade tremenda sobre quem éramos e pessoas apareceram fingindo ser o WikiLeaks. No fim, alguém teve que se responsabilizar perante o público, e só alguém que está disposto a ser corajoso publicamente pode pedir que fontes assumam riscos pelo bem maior. Nesse processo, eu me tornei o pára-raios. Recebo ataques indevidos em todos os aspectos da minha vida, mas também ganho crédito indevido, numa espécie de efeito que se equilibra. 

Leitor: É possível vencer esse jogo em que você está envolvido? Até quando você vai conseguir brincar de pique-e-esconde com as potências enquanto os prestadores de serviços são direta ou indiretamente controlados por governos ou pelo menos vulneráveis a pressões, como a Amazon? Existe um segundo grupo de ativistas que poderá continuar a sua campanha?
Julian Assange: Nossos documentos foram enviados  para mais de 100 mil pessoas em formato criptografado. Se alguma coisa acontecer comigo, partes chave destes documentos serão divulgadas automaticamente. Os documentos também estão nas mãos de diversos meios de comunicação. A história vencerá. O mundo será alçado para um lugar melhor. Sobreviveremos? Isso depende de você.

Fontes:
The Guardian - Julian Assange answers your questions

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

1 Opinião

  1. Carla disse:

    Show de bola!!!!!!
    Não acompanhei toda a história e estou pesquisando para saber do que se trata o escândalo Wikileaks…

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *