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Liberando, reportando ou despejando?

'O WikiLeaks é uma organização importante, que está fazendo algo necessário ao mundo. Mas precisa impor algumas linhas éticas claras e públicas sobre o que é e o que faz'. Por M.S*

Liberando, reportando ou despejando?
'WikiLeaks precisa de um conselho de análise ética' (Fonte: Economist)

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Eu acho que é melhor para nós ter uma instituição na qual fontes podem submeter, de maneira anônima, informações importantes, que serão verificadas e publicadas caso sejam verdadeiras. Eu certamente não acho que Julian Assange deva ser processado por fazer isso (seu suposto comportamento pessoal é um assunto distinto e irrelevante). Mas eu acho que o recente “despejo” de documentos diplomáticos é basicamente uma escolha editorial questionável. Acho que o formato de “despejo de documentos” é uma tentativa de fugir da própria ideia de que a organização está tomando decisões editoriais, para colocá-la como um mero intermediário neutro para informação “vazada”. Mas não acho que isso funcione. E acho que está claro que a instituição do WikiLeaks precisa reconhecer que está fazendo decisões editoriais, e que essas decisões precisam ocorrer de maneira ao menos tão transparente quanto o WikiLeaks gostaria que instituições corporativas e governamentais fossem. Basicamente, acho que o WikiLeaks precisa de um conselho de análise ética.

Antes de me aprofundar neste assunto, deixe-me ressaltar algumas preocupações flutuando hoje acerca do WikiLeaks. Matthew Yglesias acerta o ponto principal ao afirmar que, quando Peter King, representante de Nova York, sugere de maneira absurda que o WikiLeaks seja considerado uma “organização terrorista”, ele está demonstrando que esta situação pode potencialmente prejudicar proteções à liberdade de imprensa: “atualmente, a regra é que é ilegal ser a pessoa com acesso legal a informações secretas e que a repassa para outros, mas, uma vez que você recebe a informação, você é livre para fazer o que quiser com ela.” Se Assange for processado ou colocado em uma lista de inimigos extra-legais por fazer o mesmo que o New York Times fez com os Pentagon Papers, estaremos com problemas.

Enquanto isso, Kevin Drum ressalta que, embora ele tenha instintivamente achado o “despejo” de documentos diplomáticos problemático, ele não teve tantas dúvidas em relação ao despejo iminente de comunicações internas de um grande banco. Isto o preocupa em relação a seus próprios instintos: o que justifica a mudança de postura? Alguém poderia facilmente argumentar que os mercados seriam, teoricamente, mais eficientes caso todos tivessem acesso a informações perfeitas, enquanto tal regra não se aplica para relações internacionais. Mas eu estou interessado em ver como Drum reflete sobre este assunto.
Referindo-me ao texto de um colega, acho que começaria com este exemplo de fragmento valioso do “despejo” do documento:

“Em relação aos documentos disponibilizados pelo WikiLeaks, a ACLU informa que o governo Bush ‘pressionou a Alemanha a não processar agentes da CIA responsáveis pelo sequestro, rendição extraordinário e tortura do alemão Khaled El-Masri’, um suspeito de terrorismo abandonado na Albânia depois que a CIA determinou que havia capturado um ninguém. Eu considero sequestro e tortura crimes sérios, e acho interessante que os Estados Unidos tenham pressionado governos estrangeiros para garantir cumplicidade no acobertamento do abuso de seus agentes.”

Eu também acho isso importante. Não é nem um pouco surpreendente. E provavelmente não mudará a postura de ninguém: pessoas que acham que a CIA deveria estar fazendo esse tipo de coisa ficarão felizes que os Estados Unidos tenham apoiado seus agentes, enquanto pessoas como meu colega e eu, que acham isso um escândalo, ficarão raivosos com o fato de que o governo norte-americano está tentando enfraquecer o estado de direito. Ainda assim, é muito importante ter base documental mostrando que a pressão diplomática ocorreu. Estou feliz que este documento esteja descoberto.

Minha objeção, novamente, é à ideia de liberar este tipo de material por atacado, em vez de por varejo. Coloquemos assim: alguns documentos diplomáticos de embaixadas dos Estados Unidos terão dito respeito a intervenções americanas em benefício de dissidentes em países autoritários. A liberação de tais documentos iria prejudicar quaisquer intervenções norte-americanas nesse sentido, uma vez que governos autoritários iriam temer que concessões a pedidos secretos norte-americanos poderiam eventualmente constrangê-los caso viessem a público. Eles podem prejudicar os próprios dissidentes, ou suas famílias. E também podem prejudicar movimentos dissidentes, uma vez que dão credibilidade à ideia de que os movimentos seriam apoiados ou controlados pelos Estados Unidos. Obviamente, publicar este tipo de documento seria uma ideia terrível, e tenho certeza de que Julian Assange e o WikiLeaks não o fariam.

Quem pode dizer se Julian Assange e o WikiLeaks estão fazendo decisões editoriais sobre que tipos de documentos eles irão liberar ou não? Qual é o fundamento para estas decisões editoriais? Quem as faz? Este é o único trecho que consegui encontrar no site do WikiLeaks abordando tais questões:

“Como a organização da mídia cresceu e se desenvolvou, o WikiLeaks vem desenvolvendo e aprimorando um procedimento de minimização de danos. Nós não censuramos nossas notícias, mas ocasionalmente poderemos remover ou adiar significativamente a publicação de alguns detalhes de identificação para proteger a integridade física de pessoas inocentes.”

Isso não basta. Eu acho que o WikiLeaks é uma organização importante, que está fazendo algo necessário ao mundo. Mas assim como outras organizações humanitárias e de direitos humanos, como a Human Rights Watch, a Anistia Internacional, os Médicos sem Fronteiras e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o WikiLeaks precisa impor algumas linhas éticas claras e públicas sobre o que é e o que faz. E precisa criar um conselho de diretores formado por pessoas de uma gama variada de países, backgrounds, e instituições para revisar a conduta da organização em relação à ética e a outros assuntos. Como faz, por exemplo, o conselho da Human Rights Watch. A organização lida com informações tão secretas e potencialmente prejudiciais quanto o material que o WikiLeaks recebe. Mas eu confio na maneira com a qual eles lidam com ela, em parte porque sei quem eles são. Quem é o WikiLeaks? Além de Assange, eu não sei, e eles não estão contando. Você sabe? Se souber, crie um “wiki” a respeito.

*M.S é um dos correspondentes do blog Democracy in America, da Economist

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Fontes:
Economist - Releasing, reporting, or dumping?

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3 Opiniões

  1. Carlos U. Pozzobon disse:

    Eu acho que o papel do Wikileaks é importante, embora não apoie a revelação de certos tipos de informações. Acho que no mundo se deve preservar a privacidade dos indivíduos em primeiro lugar. Depois vem a privacidade de alguns atos de governo. Mas não todos. Até agora não vi um só documento que pudesse ser aproveitado por terroristas para suas ações. Pode ser que o Wikileaks escorregue neste ponto. Mas como o objetivo maior é forçar a TRANSPARÊNCIA de governos e instituições, o papel deles é por si só altruístico, embora possam cometer erros. Como aliás os próprios governos que vem sendo vasculhados. Quando o Wikileaks publicar documentos da China e da Coréia do Note, certamente vão ser elogiados. É claro que sempre restará o ciúme de departamentos inteiros de segurança serem relevados a insignificância. É daí que vem a pressão contra o Wikileaks. O mundo da espionagem é extremamente zeloso de sua autoimportância. O Wikileaks parece ter jogado uma pá de cal neles. Como provar para a opinião pública que bilhões gastos com uma vasta rede de informações pode ser dispensada por uma organização de trabalhadores voluntários como o Wikileaks? E afinal, se os governos cometem os mais horríveis equívocos, porque eles não podem cometer também? Em conclusão: não são santos nem demônios. Só espero que não favoreçam os inimigos da civilização democrática.

  2. Peter Pablo Delfim disse:

    Se vem da “The Economist” já está sob suspeita. Primeiro o WikiLeaks não necessita de “conselho” algum. Não sei nem quero saber quem é o autor do texto *M.S que parece está de brincadeira. Cita a credibilidade do conselho da Human Rights Watch que julga lidar com informações “tão importantes quanto a WikiLeaks”. Deu agóra para notar qual é a verdadeira intenção? E tudo assim sem nenhuma sutileza. Tenho pena de Julian Assange. Muito em breve estará fazendo companhia a Bin Ladem nos porões da CIA. Desde que o mundo é mundo ética é para os outros. Tudo não passa de um movimento para criminalizar determinadas atividades em áreas livres onde se aventuram muitos donos com intenssa concorrência como a internet. Se alguém não acredita é só olhar as “sugestões” do congresso americano.

  3. ewerton luiz disse:

    Em primeiro lugar, que credibilidade teria uma pessoa (repórter?) escondido atrás de duas letras? O quê elas significam ou quem?

    Em segundo lugar esta pessoa(?) está mais preocupada com as instituições em detrimento dos cidadões, vide texto.

    No caso da Wikileaks, ela está apenas divulgando materiais como fato gerador de discussão e divulgação, no caso da ética, depende de como cada um lida com ela.

    A ética americana é maior ou melhor do que a do Wikileaks?

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