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Estados Unidos

Obama e a coragem presidencial

Apesar de seu bordão "yes, we can", comportamento do presidente norte-americano é marcado pela cautela

Obama e a coragem presidencial
Excesso de discrição tem prejudicado mandato de Barack Obama à frente da presidência

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É difícil buscar opções de intervenção externa na Líbia que sejam totalmente livres de riscos. E à medida em que Muammar Khadafi aumentou o cerco aos rebeldes, Barack Obama, como é de costume, se manteve cauteloso, considerando por semanas se havia algo a ser feito, até ordenar (do Brasil) um ataque de mísseis às forças do general líbio. Seu comportamento levanta um pergunta que vem perturbando a sociedade norte-americana. Até agora, Obama em algum momento deu sinais de uma verdeira coragem política? Com mais de dois à frente do cargo, é surpreendentemente difícil lembrar de alguma ocasião em que o presidente tenha se mostrado corajoso.

É verdade que Obama enfrentou várias adversidades em sua reforma da saúde, mas quando ela entrou em ação teria sido mais arriscado para ele ter aceito a derrota, do que ter seguido em frente. Ele gastou cerca de US$ 1 trilhão no pacote de estímulo econômico e resgatou as montadoras automobilísticas. Mas, apesar de polêmicas, ambas as medidas tiveram bastante apoio, o que fazem delas decisões ousadas, mas não necessariamente corajosas. Se a coragem política significa adotar uma posição clara contra a maioria, com base em algum instinto ou princípio, é muito mais fácil listar os casos em que Obama preferiu manter a discrição.

Ele manteve a prisão de Guantánamo aberta, apesar de prometer por diversas vezes que iria fechá-la. Ele reforçou o número de tropas no Afeganistão, mas definiu uma data para sua retirada, numa cautelosa tentativa de minimizar possíveis decisões erradas. Ele defendeu a paz na Palestina, mas voltou atrás ao primeiro sinal de oposição doméstica. Ele criou uma comissão bipartidária para lidar com o déficit, mas se afastou de suas recomendações. Ele declarou que deixaria os cortes de gastos da era Bush vigorarem para os ricos, mas mudou de ideia após as eleições estaduais. Seu apoio ao direito dos homossexuais é marcado pela cautela, assim como sua posição no controle de armas de fogo. Ele evitou criticar o tratamento dado ao soldado Bradley Manning, o suposto informante do WikiLeaks, mantido em confinamento solitário pelos fuzileiros navais, e obrigado a permanecer nu fora de sua cela todas as manhãs. Ele despediu um membro das Forças Armadas que expôs sua opinião sobre o caso.

Se Obama não é corajoso, ele é um covarde? Essa afirmação é um exagero: a política, a arte do possível, não significa determinar um limite e marcar sua posição. A coragem é uma virtude em um presidente, assim como cálculos frios e a habilidade de evitar riscos também são. Se esses são os traços dominantes do presidente, alguns dirão que eles são muito bem-vindos, considerando a impetuosidade marcial de seu antecessor.

Discrição estratégica?

Uma interpretação do cenário é a de que Obama está sendo calculista, e não covarde. Guantánamo? Enquanto a ameaça terrorista continuar, será possível alegar que é necessária a existência de um local no qual seja possível deter suspeitos sem julgá-los. Palestina? Talvez a obstinação dos atores locais faça da paz algo inatingível, independentemente de seus esforços. Controlar o deficit parece praticamente impossível enquanto os republicanos se recusarem a aumentar os impostos. Taxar os ricos? Ele não teve que recuar depois que os democratas perderam a Câmara, e ao menos conseguiu aumentar os gastos com a população mais pobre em troca. No caso dos direitos dos gays, ele eventualmente reverteu a proibição de homossexuais assumidos de servirem nas Forças Armadas, e está tornando sua oposição ao casamento gay mais flexível. No caso das armas, ele – e a maioria da população norte-americana – concorda com a Segunda Emenda da Constituição, que garante a cada cidadão o direito de portar armas, embora ele queira manter essas armas longe de mãos perigosas.

O sonho versus a cautela

Em todos esses casos Obama buscou o meio-termo, realizando acordos quando possível, e evitando brigas que não podia vencer, de maneira prática e realista. Mas todos se lembram que seu slogan de campanha era “yes, we can” (“sim, nós podemos)”, e em vários casos ele não atendeu às necessidades daqueles que esperavam um presidente que realizasse transformações profundas. Os únicos que o veem desta forma atualmente são conservadores delirantes que afirmam que ele está transformando os Estados Unidos em uma distopia secular socialista.

Talvez as expectativas sejam o problema. Teddy Roosevelt acreditava que os presidentes deveriam “inspirar o povo com o fogo que queima suas próprias almas”. Na verdade, poucos presidentes fizeram tantas mudanças nos Estados Unidos. Essa é a natureza que rodeia o cargo, embora os eleitores costumem se esquecer disso. Esse “culto à presidência” foi explorado brilhantemente em um livro do mesmo nome, em 2008. Seu autor, Gene Healy, observou que, apesar da decepção da era Bush, os norte-americanos estavam novamente intoxicados pela aura de esperança que cercava Obama. Ele previu que a população novamente se arrependeria de seu encanto com “a falsa promessa do poder presidencial”.

De fato, foi o que aconteceu. No caso específico da política doméstica, o presidente é avaliado a cada momento. Um ministro da Fazenda britânico apresenta o orçamento na Câmara dos Comuns e ele entra em vigor. Quando Obama envia seu orçamento ao Congresso, isso é parte de um processo muito mais longo, no qual o presidente tem poucas chances de vencer a disputa. Essa é a explicação que seus defensores apresentam quando o presidente é acusado de falta de coragem: ele herdou um país à beira do caos, seu poder é cercado de restrições e ele ainda está na metade de seu mandato. Eles pedem que Obama tenha um pouco de sossego, afinal, às vezes, ser discreto é realmente um traço muito importante.

Há também o perigo de que Obama não esteja sendo suficientemente exigido. Ele fez da audácia e da esperança suas plataformas, logo, ele deve responder pelos rumos de seu mandato. Com exceção da reforma da saúde, as grandes disputas – no caso do aquecimento global, da imigração e do déficit – foram deixadas de lado, e muitas disputas menores foram esquecidas.

A coragem política é difícil de ser definida, mas fácil de ser reconhecida. George H. W. Bush aumentou os juros e pagou por isso com seu cargo. Lyndon Johnson aprovou a Lei de Direitos Civis sabendo que isso custaria aos democratas a perda do Sul. O tão execrado George W. Bush mostrou um momento de bravura, quando desafiou o mundo todo e se recusou a abandonar o Iraque no caos, em 2007. Obama encontrará essa mesma coragem quando sentir que ela vale a pena. Tudo o que se pode dizer por enquanto, é que isso ainda não aconteceu. E enquanto isso, a Líbia e o Bahrein ardem em chamas.

Fontes:
The Economist - "The courage factor"

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15 Opiniões

  1. Afonso Schroeder disse:

    È notório que em partes o intervencionismo é desespero dos Estados Unidos é só observar o povo chinês começa a comandar a economia do planeta, devemos fazer uma pergunta a nos mesmos, porque o Americano busca de repente o Brasil como parceiro econômico?
    Sabemos dentro de poucos anos o povo Asiático vai conquistar os melhores espaços sócio-políticos, econômicos e culturais, cá entre nos sem usar a força, mas pela eficiência e capacidade de fazer as coisas visando de forma melhor os interesses de toda coletividade que comanda.
    O ocidente esta há muitas décadas estacionárias nos relacionamentos sociais, prevalecendo sempre o interesse de poucos e a grande maioria sendo obrigada a aceitar independente de estar certo ou não, penso que o caminho da violência não ser o mais correto do “Povo Americano”, julgar-se dono da verdade, esta na hora de todas as lideranças ocidentais estudarem uma nova ordem político-social caso contrario daqui mais alguns vamos ter conflitos em quantos lugares?
    Devemos respeitar a opinião de todos não tendo necessidade de discriminação em função de ideologias tanto políticas como religiosas, pois são culturas milenares que determinados povos cultuam, muito menos se tratando de negócios econômicos do Brasil com este ou aquele País, penso que num regime Liberdade Democrática Plena quem determina se deve ter relacionamento ou não com um determinado País são os “Empresários”.

  2. WANDERLEY FONSECA SILVA disse:

    DE QUE ESPÉCIE DE CORAGEM QUE O TEXTO FALA?
    QUANDO OS AVIÕES DA F.A.B. SOBREVOAM O XINGÚ VEEM-SE ALGUNS ÍNDIOS APONTAREM SUAS FLEXAS NA DIREÇÃO DO AVIÃO,EVIDENTEMENTE NÃO TÊM NOÇÃO DA ASSIMETRIA DE FORÇAS.ASSIM U.S.A. VEM SE ARMANDO E ALCANÇOU UMA ASSIMETRIA BÉLICA ASTRONÔMICA.IMPÕE A HUMANIDADE SUA DIPLOMACIA DE ULTIMATOS. FEITO ROMA NA IDADE ANTIGA:-“ROMA LOCUTA CAUSA FINITA”.IGUALMENTE SE CERCOU DE TORNADOS DE ÓDIO EQUIVALENTES À SUA PREPOTÊNCIA.DAÍ ESTE APARATO TEATRAL E EXTRAVAGANTE DE SEGURANÇA.

  3. Regina Caldas disse:

    E por que o americano não deveria buscar o Brasil?
    Se estivéssemos com a ALCA funcionando haveria mais equilíbrio comercial entre as nações..A China pode até comandar a economia mundial,mas, creio, voltada para o enorme mercado asiático. Sua visão estratégica comercial não mais se resume em colocar seus produtos baratos em qualquer mercado. Já superaram esta fase. Agora estão desenvolvendo altas tecnologias, e também criando infra estrutura em países africanos para atender com eficiência sua demanda interna por uma série de commodities. isto sim, prejudicará o Brasil e não os USA.
    Quanto ao intervencionismo vale lembrar que desde a II Guerra Mundial as Nações européias delegaram aos USA o poder de intervenção.

  4. Luiz Franco disse:

    Muita elocubração estéril. O Presidente dos USA é figura institucional. É um chefe de Estado. Quem pensa isso aí tudo é o gabinete da Secretária de Estado em coordenação com as outras instâncias do executivo e os outros poderes. O presidente só lida diretamente mesmo é com o Pentágono, que está subordinado diretamente ao gabinete da presidência, mas ainda assim, para aprovar ou nao as resoluções dos Falcões. Ele só assina. Presidente decidindo pessoalmente tudo só no Jack Bauer.

  5. Peter Pablo Delfim disse:

    UM PRESIDENTE TOMA DECISÕES PESSOAIS E CRUCIAIS EM PAÍSES COM A MATRIZ DE GOVERNO NOS MOLDES DOS EUA? QUE BRUTAL DESCONHECIMENTO! “todos esses casos Obama buscou o meio-termo, realizando acordos quando possível, e evitando brigas que não podia vencer, de maneira prática e realista.” QUE BRUTAIS CONTRADIÇÕES! ONDE ENQUADRAR MEDOS E BRAVURAS OU OUTRAS AÇÕES DESCONECTADAS DE TUDO O QUE NÃO SEJA TER O QUE DIZER? Evidentemente que a “matéria” é do The Economist. Seria necessário falar mais?

  6. Julls disse:

    O curioso é que o preço da gasolina deles aumentaram por causa do confronto na Líbia, entao sabendo do pré sal, claro que o Brasil é um ótimo parceiro econômico! gente, o que foi toda essa festa pra receber o Obama? diz que quer igualdade mas aposto que o tema do visto nem foi discutido… Nao vamos nos iludir e pensar que ele tá no Brasil pra nos ajudar a nos desenvolvermos…

  7. Markut disse:

    Clovis Rossi se reporta ao “valor das palavras”.
    E a cautela do Obama, ao enunciá-las, está mais para o conceito de que a política é a arte do possivel, do que para atitudes covardes.
    Infelizmente , quando ele utiliza palavras prudentes como “apreço” e “parceiro”, isso envolve a necessidade da conveniente decifração, para chegar ao verdadeiro significado.
    Por outro lado,na linguagem cifrada do discurso de um cão raivoso, como o Kadafi,sem sutilezas, está toda a mensagem do subconsciente coletivo da era colonialista ocidental.
    Positivamente, as palavras matam, ou salvam.

  8. João Domingos disse:

    Bom dia para todos, este texto esta muito bem montado e bem direcionado para os velhos e novos capitalistas que estão no mercado de trabalho e que só visam o enrriquecimento a custa dos outros nem que estes outros sejam membros da sua propria família, quando se fala em coragem presidencial se fala em carater e não como o texto coloca o presidente Obama, um covarde e mentiroso, poís eu digo um covarde não faz o que ele já fez, e o que ainda irá fazer, o que não podemos mais é sempre esquecermos é que hoje as pessoas só fazem o que podem e não o que realmente gostariam de fazer,ou o que reamente deveria ser feito, principalmente as pessoas que estejam de algunha maneira ligadas com a Política de seu país seja ela corrupta ou não, o país ou a pessoa se é que podemos estar nós dirigindo a elas assim, poís para quem não é corrupto é bem mais complicado, refer~ente a visita do exelentíssimo presidente Obama ewm nosso país o que posso dizer por enquanto é que senhor Obama nos estamos de olho no senhor poís se os nossos políticos acham que vam continuar a brincar com o que é nosso do povo brasileiro eles estão muito enganados poís o povo esta acordando e não sérá mais permitido usarem e abusarem do nosso país e de nossas vidas e as de nossos filhos,(incompleto)até mais. João D.

  9. José Rodrigues Bezerra disse:

    Opinião em debate: respeito a opinião de Luiz Franco, Manaus-Am.mas discordo de suas palavras, olha cidadão, dizer que Obama não pensa, e quem pensa é a secretária de gabinete sob coodenação de outros, é no minimo mediocre,ou você disconhece a trajetoria dele e da Michele Obama, enquanto cidadãos comuns que foram empenhados na causa dos menos faverecidos, e envolviodos coletivamente em busca do crescimento e desenvolvimento de seu povo, ele não chegou a presidencia dos Estados Unidos,porque alguém pensou por ele, não quero aqui dizer-lhe, que os americanos estão tão preocupados conosco,claro que existe os interesses comeciais, assim como nós defendemos os nossos, e devemos sim, defede-los,mas Obama, é sim uma cabeá pensante sem dúvidas, quisera (nossos governantes, com raras excessões) pensar em o ser humano, como tal,não seriamos ainda um país em desenvolvimento,seriamos já seriamos um país desenvolvido, então você pense apartir de hoje, em o nosso modelo de educação, que nunca reprova o aluno que não quer estudar, mas não pode ser reprovado, que tipo de profissionais você quer encontrar na instuíÇòes públicas, de saúde,de ação social,e etc…? como teremos cidadõas diciplinados no transito, nas delegacias,nas empresas de segurança, se lá na escola ele aprende que tanto faz ser dedicado aos estudos, como ser relaxado, tem o mesmo tratamento na condição de aprovação de seu aprendizado? Pense, eu penso, Obama pensa, você também pode pensar melhor a partir de hoje, ou rever seus conceitos sobre Obama.

  10. Peter Pablo Delfim disse:

    O “PC” politicamente correto está se tornando insuportavel.

  11. Helio disse:

    Roubando termos empregados por Markut,penso que ouvimos nesses dias o discurso de primeiro mundo de Obama e o discurso do atraso de Kadafi. O mundo, parece, ainda levará muito tempo para melhorar o seu comportamento.

  12. Helio disse:

    Peter Pablo Delfim. O PC não se aplica por aqui. Gostamos de premiar o PI. Não entendo porque você esteja cansado.

  13. Peter Pablo Delfim disse:

    Helio já se discutiu tanto sobre o “PC” e você diz que não se aplica por aqui. Eis umas das razões pelas quais estou cansado. O texto é politicamente correto mas encerra brutais contradições. Não se administra uma nação nos moldes de uma cozinha. E mesmo na minha, na tua ou na cozinha de qualquer um determinados ingredientes serão ou não liberados por grupos de trilhardarios para irem à mesa. Já cansei, tu não?

  14. joaquim pereira da silva disse:

    Na verdade gostei do modo do Obama, isso é uma forma de paz entre paises é que deve acontecer.
    O que parecer, é que sempre acontese, são os interesses no petrólio brasileiro. Cuidado Dilma.

  15. John Webster disse:

    Não é uma questão de coragem, é uma questão de poder. Obama não o tem. O congresso americano é de maioria republicana, reacionária e que está pouco se importando com os rumos do País.
    O que eles querem é apear Obama do cargo, que é importante, mas é simbólico.
    Obama não controla o congresso, o FED não controla os bancos que estão destruindo os EUA por dentro, como cupins.
    A sociedade americana está anestesiada, incapaz de reagir.
    Enquanto isso,vão perdendo suas casas, seus negócios para os bancos, os mesmos bancos que financiam campanhas de políticos que lá como aqui pedem um Estado mínimo. Mas foi a esse mesmo Estado que querem mínimo, que pediram, e obtiveram o máximo. E quem banca esse Estado? Quem financia com seus impostos toda essa farra?
    Lá como aqui, nós, o povo.

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