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‘Obama é tão mentiroso quanto Lyndon Johnson’

Responsável pelo vazamento dos Papéis do Pentágono comenta documentos sobre a guerra no Afeganistão e critica Barack Obama

‘Obama é tão mentiroso quanto Lyndon Johnson’
Daniel Ellsberg divulgou a história da campanha dos EUA no Vietnã ao NYTimes (Fonte: Economist)

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Daniel Ellsberg é um ex-analista militar que divulgou “Os Papéis do Pentágono”, a história secreta da campanha norte-americana no Vietnã, ao New York Times, em 1971. A revista britânica “The Economist” entrevistou Ellsberg sobre o vazamento de documentos sobre a campanha no Afeganistão, a relação entre esses documentos e os Papéis do Pentágono, e a reação dos governos em ambos os casos.

THE ECONOMIST: A recente divulgação de 90 mil documentos sobre a Guerra no Afeganistão é comparável à divulgação dos Papéis do Pentágono?

DANIEL ELLSBERG: A comparação é inevitável em um ponto importante: em termos de volume não houve nada semelhante desde os Papéis do Pentágono. Em outras palavras, é a primeira grande revelação não-autorizada dos últimos 39 anos. E tem a vantagem de ser mais atual. Quando os Papéis do Pentágono foram divulgados, o documento mais recente datava de três anos antes. Neste caso, o documento mais recente é de seis meses atrás.

Existem diferenças, no entanto. Os Papéis do Pentágono eram documentos ultra-secretos de alto nível que tratavam de estimativas internas, debates de alternativas e diretrizes presidenciais. Os documentos do Afeganistão são relatos de campo, de um nível mais baixo, como os que eu li e escrevi quando servi no Vietnã. Na verdade, eu poderia ter escrito uma porção deles – são muito parecidos com os que eu escrevi. Isso só confirma o que eu venho dizendo há muito tempo: que eu vejo essa guerra como um “Vietnãmistão”. Em muitos aspectos, é uma repetição do beco sem saída em que estávamos 40 anos atrás.

THE ECONOMIST: Os Papéis do Pentágono nos mostraram que estávamos sendo mal-conduzidos no Vietnã, mas a população sabia que a situação no Afeganistão era tão complicada quanto os documentos sugerem. Você crê que eles terão um impacto semelhante?

DANIEL ELLSBERG: Acho que o volume deu a eles a atenção que Richard Nixon deu aos Papéis do Pentágono quando tentou censurá-los. No caso atual, o governo está sendo esperto e está diminuindo a importância dos documentos ao invés de tentar abafá-los. Mas eles não serão ignorados pelo volume de informações contidas, e pelo fato de cobrir um período de seis anos de guerra. Então os documentos receberam da imprensa toda a atenção que poderiam receber. O caso aqui não era mostrar má-fé por parte do governo, mas sim atrair a atenção do povo norte-americano para a guerra. Esse é um assunto que normalmente interessa muito pouco à população e acho que os documentos poderiam capturar sua atenção.

THE ECONOMIST: Num sentido geral, qual a sua impressão do WikiLeaks?

DANIEL ELLSBERG: Estou bastante impressionado. Eles chamaram minha atenção com o vídeo do ataque do helicóptero Apache no Iraque (aparentemente há outro vídeo a caminho, de um massacre muito maior). Eu pensei que a Agencia Nacional de Segurança (NSA) poderia penetrar em seu sistema e impedir que eles dessem anonimato às fontes. Pagamos uma fortuna à NSA para que espione a nós – desde o 11 de setembro – e aos outros, e achei que eles eram capazes de cortar a comunicação segura ao WikiLeaks. Mas a surpresa do governo mostra que Julian Assange (editor do WikiLeaks) está dando às fontes o que prometeu – anonimato. E a razão pela qual Bradley Manning foi acusado foi sua decisão de se revelar a alguém, que depois o delatou. Não houve nenhuma culpa tecnológica do WikiLeaks. Então espero que a acusação de Manning não faça com que as pessoas se afastem do WikiLeaks. Sei que Assange já ofereceu, ou tem planos de oferecer, seu sistema tecnológico, para que jornais possam fazer o trabalho do WikiLeaks em larga escala, e espero que ele tire proveito disso.

THE ECONOMIST: Você acredita que o governo esteja trabalhando contra o WikiLeaks?

DANIEL ELLSBERG: Tenho certeza de que está, no sentido de descobrir internamente as fontes. Essa administração demonstrou mais disposição para acusar responsáveis por vazamentos de informações do que qualquer outra. Na verdade, com Bradley Manning sendo indiciado, Barack Obama indiciou mais pessoas por denúncias ou vazamento de informações que todos os presidentes anteriores juntos.

Foram três ao todo. O número é pequeno, porque os Estados Unidos não têm um Ato de Segredos Oficiais, como o reino Unido e outros países têm. Eu fui o primeiro, juntamente com Tony Russo, durante a gestão de Nixon. Outros dois presidentes indiciaram uma pessoa cada um. Obama já indiciou três, e duas delas respondem por atos cometidos durante a era Bush, embora o próprio Bush não tenha tido a necessidade de indiciá-los. Então a famosa posição de Obama de não olhar para trás parece se ater apenas a crimes como tortura e vigilância ilegal. Ele deu anistia absoluta aos militares do governo Bush. Mas nos casos de Thomas Drake – que contou a um repórter sobre o desperdício de US$ 1,5 bilhão na NSA – e Shamai Leibowitz, que diz ter exposto a um blogueiro atos que ele considerou ilegais, Obama estava disposto a olhar para trás e processá-los, e no caso de Manning mostrou bastante disposição para indiciá-lo.

Podemos deduzir que aqueles que não usem a tecnologia do WikiLeaks para veicular informações serão, sem dúvida, processados. Se eu tivesse que revelar os Papéis do Pentágono hoje, usando a obsoleta tecnologia das fotocopiadoras, Obama me processaria até os últimos limites possíveis da lei.

THE ECONOMIST: Quem deve ter o poder de decidir se um vazamento está protegido?

DANIEL ELLSBERG: Até onde pude ver, Assange demonstrou um julgamento muito melhor com relação ao material divulgado do que os membros do governo que deveriam mantê-lo em segredo. O vídeo do Apache foi mantido longe da Reuters, que tentou durante dois anos, conseguir sua liberação para tentar explicar porque dois de seus empregados, jornalistas desarmados, foram baleados no Iraque. A Reuters tentou conseguir o vídeo com base no Ato de Liberdade de Informação, mas seu pedido foi recusado. Nunca vi uma investigação a respeito de quem teria negado o pedido, nem de seus motivos para fazê-lo. De acordo com seu delator, Bradley Manning recebeu o crédito pelo vídeo, e assim como Assange, ele demonstrou melhor juízo do que aqueles que recusaram o pedido. Até agora eu dou a Assange e suas fontes um benefício da dúvida maior do que o que concedo aos que estão mantendo os segredos.

Como disse em outras ocasiões, eu não aconselho as pessoas a divulgarem material secreto que elas não tenham lido e julgado realmente necessário divulgar. Na verdade, aconselharia as pessoas a não fazerem isso. Quanto dos documentos do Afeganistão se encaixa nessa definição e se os riscos são maiores que os benefícios, são perguntas que só o tempo responderá. Dentro do assunto, eu certamente não dou muito valor às declarações e julgamentos de Mullen, Gates ou Obama, por conta de seus papéis. Seu compromisso com os segredos e as manipulações – juntamente com suas políticas inconsequentes e irresponsáveis – já acabaram com inúmeras vidas no Oriente Médio e continuam a fazê-lo.

Veja na próxima página a sequência da entrevista.

THE ECONOMIST: Qual o papel da mídia no processo de vazamento? Ouvi uma frase na qual você declarava que se estivesse divulgando os Papéis do Pentágono hoje em dia, você não os daria à imprensa, e simplesmente os colocaria na internet.

DANIEL ELLSBERG: Acho que fui mal-interpretado nessa frase. O que eu disse foi que minha primeira opção ainda seria a imprensa. Na verdade seria a imprensa, e não o Congresso, onde perdi cerca de um ano e meio tentando audiências. È claro que se a imprensa demorasse ou recusasse os documentos, eu iria ao WikiLeaks. Mas essa não seria minha primeira opção, mesmo nos dias de hoje.

Por exemplo, o New York Times tinha uma matéria sobre o uso de escuta não-autorizada da NSA antes das eleições de 2004. Eles a seguraram por cerca de um ano. Acho que as fontes foram negligentes, dada a importância do assunto, em não usar a tecnologia e divulgar as informações. Se eu estivesse nessa posição, teria comprado um scanner e colocado eu mesmo as informações na internet. Na verdade, estive nessa posição na época dos Papéis do pentágono, mas não havia internet. Depois de receber o material das minhas mãos, o Times tentou arduamente divulgá-lo, mas eu nunca soube disso. Por razões que nunca ficaram claras, um repórter me disse que o jornal não tinha mais interesse na informação. Isso fez com que eu levasse os documentos até Pete McCloskey, na Câmara, e falasse com o senador Mathias, em busca de outro veículo para divulgá-los. A maneira como tudo terminou foi ótima, mas nos dias atuais, se o Times me dissesse que não usaria as informações, eu as disponibilizaria na internet.

THE ECONOMIST: Em uma frase, você afirmou que “O presidente raramente fala a verdade por completo…”

DANIEL ELLSBERG: Nunca. “Raramente” é um eufemismo. Os políticos têm vários públicos e vários interesses, a começar pela reeleição. E um político raramente dirá toda a verdade relevante – verdade que seria relevante para seu público, a respeito do que ele pretende fazer, o que está tentando fazer, suas motivações, etc. Você sempre tem que concluir que não está sabendo de tudo.

THE ECONOMIST: No caso do Afeganistão, o governo está dizendo a verdade? Eles têm sido bastante sinceros em relação ao custo da guerra, em termos de dólares e vidas.

DANIEL ELLSBERG: Eu diria de maneira bastante crucial, que eles estão nos enganando. Em seu discurso anual sobre o Estado da União, Obama declarou que começaria a retirar as tropas em julho de 2011. Embora outras figuras do governo como Robert Gates tenham se distanciado dessa declaração, todos colaboraram para sugerir, juntamente com Obama, que julho de 2011 representa o ponto alto de presença no Afeganistão. Eu acredito fortemente que – a menos que o Congresso exija o cumprimento desta data – teremos mais tropas em 2012 do que em 2011, e mais em 2013 do que em 2012. Em outras palavras, acho que estamos num processo aberto de aumento das tropas, o que é limitado pelo fato de que não temos convocações. Mas acredito que quando um grande número de soldados for retirado do Iraque, eles certamente acabarão no Afeganistão, e o número de tropas crescerá. Agora, se trata de uma mentira, ou de uma declaração falsa fruto da ingenuidade? Acho que é falso quando Obama nos assegura de algo. Ele sabe disso? Ele acha que tem mais controle do que realmente tem? É difícil dizer algo quando se está de fora. Mas acho que ele está indo pelo mesmo caminho trilhado por Lyndon Johnson em 1965. Como Johnson, ele não foi capaz de dizer “não” aos generais no começo do processo, e não creio que ele será mais capaz de negar pedidos aos generais daqui a um ano. E estou certo de que o General Petraeus pedirá 30 mil soldados além daquelas já autorizadas pelo presidente.

Além do mais, quando Obama declarou que todas as tropas estariam fora do Iraque no fim de 2011, acho que ele mentiu conscientemente. Ele manterá as tropas lá. Teremos bases no Iraque. Boa parte das tropas será substituída por mercenários, mas as bases não poderão ser operadas inteiramente por equipes de manutenção. Teremos milhares, provavelmente dezenas de milhares de tropas no Iraque enquanto Obama e seu sucessor estiverem no cargo, a menos que haja uma grande mudança na política. E eles estarão lutando e morrendo e matando. Então acho que sua mentira é tão descarada como qualquer uma que tenhamos ouvido de Lyndon Johnson.

THE ECONOMIST: Você foi vítima de atividades ilegais por parte do governo Nixon. Você crê que esse tipo de atividade ainda é praticada?

DANIEL ELLSBERG: Sem dúvida. Em primeiro lugar, fui vítima de grampos telefônicos não-autorizados (na verdade, a maior parte não era direcionada a mim, mas a membros do conselho de segurança nacional com o qual me comunicava. Fui ouvido naquelas fitas e isso foi negado pelo FBI no meu julgamento por mais de um ano). Grampos não somente vêm sendo realizados ilegalmente desde 2001, como finalmente foram legalizados pelo Congresso, com a ajuda de Obama. Várias ações realizadas contra mim eram ilegais na ocasião, o que forçou Nixon a escondê-las, mas acabaram se tornando parte da política. Não somente os grampos ilegais, mas também a invasão do consultório de meu psicanalista, hoje seria legal graças ao Ato Patriótico.

Nixon trouxe 12 homens da CIA diretamente de Miami e lhes deu ordens de me incapacitar totalmente. Essa foi uma operação secreta e uma das causas de sua renúncia. O chefe de inteligência de Obama, Dennis Blair, anunciou que há uma lista de pessoas que podem ser assassinadas por membros das forces especiais. Esses nomes foram aprovados pelo presidente dos Estados Unidos. Essa é uma mudança surpreendente, não na política – já que vários de nossos presidentes estiveram envolvidos em tramas que incluíam assassinatos – mas desta vez com o anúncio público legitimando a prática. Isso vai de encontro à Magna Carta. È o tipo de poder que nenhum rei da Inglaterra teve desde João I.

Obama ainda não aprovou que as forças especiais façam o mesmo a cidadãos americanos no território dos Estados Unidos – isso ainda teria que ser encoberto – mas quando digo que Julian Assange corre perigo, outros dizem que é ridículo, que ele está em evidência e nenhum presidente faria algo assim. Eu não digo que é provável, o que digo é que a chance de Julian Assange ser machucado pelo presidente norte-americano deveria ser de zero por cento, e não é. Dizer que esta afirmação é ridícula não tem fundamento, e minha própria experiência prova isso. No fim das contas, eu era tão conhecido quanto Julian Assange é hoje, quando fui atacado.

O que me protegeu foi o medo dos agentes da CIA tinham de estarem sendo colocados em ciladas. Então eles recuaram e partiram para sua próxima missão: os roubos do Watergate.

Leia mais:

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Soldado de 22 anos pode ter vazado documentos

Fontes:
Economist - Eight questions for Daniel Ellsberg

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5 Opiniões

  1. Dorival Silva disse:

    Daniel Ellsberg foi um herói. Ficou sem emprego, correu risco de vida, viveu foragido muitos meses para não ser preso. Finalmente se entregou, enfrentou um longo julgamento no qual foi absolvido de todas as acusações relativas aos Papéis do Pentágono. É um herói moderno, pena estar esquecido.

  2. Peter Bernad disse:

    Ho mundo esta perplecso com o andamento de esta guerra do Afganistao,USA armao o Taliban até os dentes,contra os Rusos,en estes momentos luta contra o armamento que deu e contra,o aliado que hera o Taliba,
    já sao varios anhos de conflito, Estan procurando hó Que ??????????????
    Duas guerras Fratiçidas Afganistao e IRAKE

  3. Helio (rio de janeiro) disse:

    Será que declarações como essa esclarecerão o povo americano? As vezes me surpreendo como é difícil a verdade chegar ao grande público.

  4. Francisco J.B.Sá disse:

    HÁ UMA IMENSA POSSIBILIDADE,DE QUE OS EUA TENHAM CAIDO EM UMA ARMADILHA DE BIN LADEN NO AFEGNISTÃO.NESTE PONTO,DANIEL ELESBERG PODE TER RAZÃO!POR FORÇA DE PROCURAR ALI OS AUTORES E O CENTRO EMISSOR DOS ATENTADOS DE ONZE DE SETEMBRO OS EUA PODEM TER CAIDO EM ARMADILHA
    À SEMELHANÇA DO VITNÃ -POIS, QUANDO KENNEDY QUIS ENVIAR 1 000 OBSERVADORES MILITARES,MACNAMARA ENTÃO SECRETÁRIO DA DEFESA, PERGUNTOU AO PRESIDENTE – PORQUE O SENHOR NÃO ENVÍA LOGO –
    1 000 000(UM MILHÃO ) DE HOMENS?

  5. Beraldo Dabés Filho disse:

    As guerras produzidas e/ou incentivadas pelos EEUU “matam dois coelhos com uma só cajadada”: objetivos geopolíticos e venda de armas. Coisa de imperialistas inescrupulosos, que mudam de lado como trocam de roupa, sempre na direção dos seus interesses.

    Não é preciso nenhuma bola de cristal para prever que, dentro de algum tempo, a mesma estratégia será dirigida à América do Sul, onde já plantaram a semente da discórdia, com bases militares já prontas na Colômbia.

    Fácil perceber como o Presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, antes calmo e sereno, já se manifesta com indisfarçável arrogância e poder.

    Fica claro que o Capitalismo Imperialista Americano, capturou mais um capacho.

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