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Claudio Carneiro

Papagaios de pirata

Eles saqueiam o conteúdo dos telejornais brasileiros

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Um papagaio incomoda muita gente, assim como o elefante da musiquinha infantil. A expressão “papagaio de pirata” é usada para designar aqueles sujeitos que se posicionam – propositalmente – atrás das entrevistas ao vivo da televisão brasileira. O objetivo é um só: aparecer na telinha. O termo surgiu, inventado por alguém que observou a garrafa do Ron Montilla – ilustrada por um pirata sempre acompanhado de um papagaio. O primeiro papagaio de pirata de que se tem notícia foi o deputado federal Wilmar Palis que ganhou esse apelido por aparecer, estrategicamente, nos idos de 84 e 85, sempre atrás do então candidato à presidência da República, Tancredo Neves.

Daqueles dias de luta pela democracia até hoje, Wilmar Palis ganhou muitos seguidores – não por suas ideias mas por seu estranho hábito de aparecer às custas do prestígio dos outros. A emissora de TV de maior audiência é também a maior vítima dos papagaios. Uma fonte do departamento de jornalismo da TV Globo – que pediu para não se identificar – informa que já foram feitas reuniões para discutir esse assunto: “Essas aparições são um desastre para o nosso conteúdo, uma vez que dispersam a atenção do espectador e tiram a seriedade da informação. Mas não podemos fazer nada. O cidadão é livre para estar onde bem entender. Recebemos muitos e-mails de pessoas reclamando. Todo mundo fica perplexo como eles descobrem os locais das transmissões ao vivo. A gente acha que tem informante aqui dentro que avisa os papagaios”, afirma. E tem mesmo.

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Luciano Ezequiel de Lima,  de 44 anos, é papagaio de pirata desde 2001. Ele pode ser visto na telinha sempre de camisa azul e olhando para o relógio de pulso: é sua marca registrada. Casado, pai de um menino, o ex-ascensorista foi aposentado por invalidez quando contraiu leucemia: “Fui afastado da ‘atividade laborativa’ e resolvi aparecer na TV. Estou em todas: Globo, Record, SBT, qualquer uma, de preferência em rede nacional. Sou mais famoso que nota de um real. Sou reconhecido nas ruas e faço muitos amigos. Sei que tiro a atenção do espectador que olha pra mim e esquece o que o entrevistado está dizendo. Mas é bom ser papagaio. Tem um amigo meu lá na Globo que me avisa onde vão ser os ‘vivos’. Gosto de aparecer”, confessa.

Em São Paulo, Eliel Paim é o mais conhecido. Reza a lenda que, certa vez, fantasiado de super-homem – durante a tradicional prova de São Silvestre – Eliel rompeu uma barreira da Polícia Militar e começou a acenar para as câmeras. Levado à delegacia da Aclimação, na zona sul da cidade, virou-se para o delegado e pediu para ser liberado antes das sete da noite. Curioso, o delegado perguntou “por quê?”. E Eliel respondeu: “É que eu vou sair no Jornal Nacional e queria assistir.” E não deu outra.

Estratégia de Marketing

Da TV, papagaios podem partir para vôos mais altos. Eles dão entrevistas para revistas, jornais ou sites – como este – e ainda participam de programas, como “Casseta e Planeta”, “Hebe” e muitos outros. No Rio de Janeiro, o mais famoso deles, o “assessor de assuntos externos” – ou simplesmente “mensageiro” – da prefeitura de Nilópolis, Jaime Dias Sabino, tem planos de concorrer a deputado estadual nas próximas eleições.

Outro papagaio também leva a sério sua atividade. Luciano Luís Lima de Oliveira, 37 anos, casado, afirma que suas aparições o ajudam a sustentar e dar conforto a seus três filhos: “É meu marketing. Sou vendedor de produtos nos ônibus. Vendo raquetes elétricas de matar mosquito, rádios, brinquedos e doces. Eu entro no coletivo e todo mundo fala: ‘olha o cara da TV’. Os clientes me fotografam e compram muito. Faturo R$ 300 por dia. Tenho casa própria e carro”, revela. Transformado em celebridade, ele afirma cobrar R$ 100 para aparecer em aniversários e casamentos. Em seus segundos de fama nos cantos das telas de TV, Luciano veste sempre um paletó e usa fone de ouvidos conectado a aparelho algum: “É só de sacanagem”, brinca.

Nas redações das TVs, a queixa é de que além de prejudicar a mensagem, os papagaios atrapalham a concentração dos repórteres – já muito tensos pela expectativa de entrarem ao vivo,  dos produtores – preocupados com os exageros de alguns, e dos cinegrafistas – que tentam, em alguns casos, fechar em close no rosto do entrevistado para evitar o “vazamento” dos indesejados personagens na imagem. “Às vezes, a matéria trata de um assunto seriíssimo e fica lá o bobão fazendo palhaçadas”, queixa-se a fonte da emissora. O vendedor de raquetes elétricas – que chega a dançar durante as matérias com música – admite que comete alguns exageros: “Sei que atrapalho, mas, graças a Deus, nunca tive problemas com produtores, cinegrafistas ou auxiliares. Se algum deles reclama, eu saio de cena, numa boa”, revela.

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11 Opiniões

  1. SERGIO GRUSCA disse:

    Havia um homem,chamado Salomão Pavlovski(já morreu), em Sorocaba, que era campeão nessa “especialidade”. Me parece que ele colecionava fotos e similares, para provar. Acho que vale a pena pesquisar a respeito.

  2. Evandro Correia disse:

    Esses papagaios de pirata são uns débeis.

  3. Luiz disse:

    Não há nada mais pobre e ridículo do que ver aqueles imbecilóides empurrando uns aos outros para se enquadrarem no vídeo por trás dos repórteres. Um dos mais conhecidos até foi convidado para o programa da Fátima Bernardes. Deve ter tido orgasmos por ter um momento todo dele, já que é tudo o que vive buscando. Como passam o dia todo na rua montando suas estratégias de aparecimentos no vídeo, não devem ter nada de útil para fazer na vida! Lamentável!

  4. Helton dionyzio disse:

    Muito louco esse de camisa azul ele aparece direto no bom dia rio e no rj tv…

  5. Angela Corrêa disse:

    Não acredito que aqueles “papagaios de pirata” que aparecem em todas as externas do Bom Dia Rio se desloquem por meios próprios. Acho que eles são figurantes contratados pela Globo.

  6. Denir disse:

    Papagaio de pirata. Eu apoio

  7. Valéria Soares disse:

    Não Posso classificar os “papagaios de pirata” como débeis, mas me incomoda bastante ver aqueles senhores, com celulares nas mãos, tentando um destaque maior que do(a) repórter durante uma externa. Muitas vezes perco até o interesse pela reportagem. Uma pobreza de espírito.

  8. Leo disse:

    Eles são irritantes demais..

  9. Dartagnan Raphael disse:

    Pensei que só eu reparava nesses papagaios que vivem aparecendo nos links ao vivo do bom dia rio, eu pensando, não é possível deixa eu fazer uma pesquisa na internet pra ver se encontro algo falando a respeito e me vem esse site com essa publicação do ano de 2009. O que me deixou mais perplexo ainda, porque pelo visto isso não é de agora, já são anos e anos.
    Cada um faz da sua vida o que quiser, mas vamos combinar que é uma pobreza de espirito enorme.

  10. Fernanda disse:

    Eu e meu sobrinho ficamos assistindo o bom dia rindo muito dos papagaios de pirata,estamos sentindo falta do cara do relógio…kkkkk

  11. Waldemar Araujo disse:

    O Jaime Sabino já morreu. Era o mais antigo. Apareceu no enterro do Getúlio Vargas em 1954. Sem eles o jornal fica sem graça

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