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Qual será o legado da revolução tunisiana?

Revolta pode inspirar mudanças em todo o mundo árabe

Qual será o legado da revolução tunisiana?
Protestos populares na Tunísia (Fonte: AFP)

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De todos os regimes árabes, a Tunísia parecia ser o menos suscetível a sucumbir ao “poder do povo”. Mas o que o mundo árabe viu que a derrubada popular de um governo autocrático não é uma completa surpresa. Um editorial da revista britânica “The Economist” em julho de 2009 já apontava para a chegada de uma revolução social, e sua conclusão afirmava que por trás da estagnação política do mundo árabe, uma grande mudança social estava a caminho com amplas consequências.

“Em praticamente todos os países árabes, a fertilidade está decaindo, e mais pessoas – especialmente as mulheres – estão se educando, e os homens de negócios querem ter mais autonomia em economias dominadas pelo Estado. Mais importante, uma revolução na televisão por satélite quebrou o encanto da mídia estatal, e criou um público que agora exige explicações de seus líderes. Sozinhas, nenhuma dessas mudanças parece grande o suficiente para causar uma revolução. Mas reunidas, elas criam grande agitação sob a superfície. O velho padrão dos governos árabes – corruptos, opacos e autoritários – falhou em todos os níveis e não merece sobreviver. Em algum momento ele irá desmoronar. A grande questão é quando?”, perguntava o editorial, intitulado “Waking From Its Sleep” (“Despertando de seu sono”).

Que os regimes autoritários árabes são vulneráveis e pouco populares é algo fácil de ser notado. O difícil é imaginar o que pode tomar seu lugar. Embora seja comum imaginar que a política do Islã irá se colocar nos espaços deixados por autoritários secularistas, o apelo do islamismo tem um limite que, de acordo com análises de 2009, não ultrapassa 20% da população. Além disso, uma grande característica em quase todos os regimes existentes (além de seu controle do exército e da polícia secreta) é que em praticamente todos os países árabes, a oposição se divide entre liberais seculares em um lado e islamitas do outro. Os islamitas desprezam os liberais, e os seculares temem que, se os islamitas tomarem o poder, o cenário seria de “um homem, um voto, uma era”. Logo, a oposição se colocou em uma situação de xeque-mate.

Como os islamitas são relativamente fracos na Tunísia, não está claro o que acontecerá com a aproximação das eleições governamentais, que revelarão as direções e os momentos das mudanças ao redor do mundo. Se o resultado na Tunísia for violência e caos, a revolta tunisiana pode até mesmo atrasar as mudanças em outros países – assim como o caos que sucedeu a invasão do Iraque em 2003, deu uma conotação ruim à democracia imposta pelos norte-americanos. Ainda assim, essa foi uma semana perturbadora para ditadores, reis e emires no mundo árabe. A ideia de que os árabes são passivos ou dóceis está desacreditada. E o que sucederá um possível colapso de seus regimes intriga a todos.

Leia mais:

Tunísia tem governo dissolvido e eleições convocadas

Fontes:
Economist - Will Tunisia's revolution spread?

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1 Opinião

  1. Carlos U. Pozzobon disse:

    Ainda não sabemos qual será o legado. No presente momento, com o povo nas ruas, não existe um horizonte político definido. A convocação de eleições para daqui a 6 meses, feita pelo governo provisório, é uma clara tentativa de esfriar os ânimos e restabelecer o controle do poder pelas oligarquias do ancien regime. A convocação imediata poderia abrir o caminho para novos representantes do povo descompromissados com o regime de Ben Ali. É dessa nova elite que depende o futuro da Tunísia. Será que ela existe?

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