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NORTE DA ÁFRICA

Saara Ocidental é palco de disputa entre Marrocos e Argélia

Enviado das Nações Unidas espera resolver impasse que já dura mais de trinta anos, reunindo partes envolvidas em Nova York

Saara Ocidental é palco de disputa entre Marrocos e Argélia
Milhares de habitantes locais se instalaram em 8 mil tendas em Gadaym Izik (Fonte: Reuters)

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Durante os dias escaldantes, um clima sóbrio e tedioso toma conta da cidade de Laayoune. É só depois que chega a noite, quando o sol se pôs no horizonte do deserto e o aroma do camelo grelhado das lanchonetes das grandes avenidas já se espalhou, que a cidade acorda para a vida. Para o Marrocos, Laayoune é um ponto de encontro da pesca da mineração de fosfato. Para o movimento separatista Polisario, é a capital ocupada do que deveria ser um país independente, a República Árabe Saaráui Democrática (SARD). O movimento nunca esteve perto de camandar o local, e provalemnete nunca comandará, mas o impasse continua a atrapalhar as relações entre o marrocos e a Argélia, que apóia o movimento Polisario.

Por três décadas, as Nações Unidas tentaram chegar a um acordo sobre a questão, e muitas vezes ameaçaram desistir. Mas, em novembro, representantes do governo marroquino, do Polisario e dos governos da Argélia e da Mauritânia se encontrarão em Nova York para tentar chegar a uma solução. Se falharem, como nas tentativas anteriores, a rixa entre os lados envolvidos na questão deverá piorar. O mais recente enviado da ONU, Christopher Ross, afirma que a situação atual é “insustentável”.

A disputa começou em 1975, quando o então rei do Marrocos, Hassan II, fez com que 350 mil marroquinos marchassem até a fronteira austral para forçar a Espanha – que controlava o Saara Espanhol, como era conhecida a região – a ceder o território. Os espanhóis acataram, e o exército marroquino marchou, iniciando uma disputa com os rebeldes do movimento Polisario, apoiados pela Argélia.

Para os padrões marroquinos, Laayoune é próspera. O governo em Rabat investiu grandes quantias para tentar convencer corações e mentes da região. E ainda assim, apesar de um cessar-fogo que se mantém desde 1991, a atmosfera na região é tensa, repleta de barreiras policiais, e habitantes locais descontentes.

Desde o começo de outubro, milhares de habitantes locais se reuniram em Gadaym Izik, a dez minutos de Laayoune, e se instalaram em 8 mil tendas. Manifestantes afirmam que esse é o maior protesto desde que o Marrocos passou a controlar o Saara Ocidental. Mas as demandas dos manifestantes não são exatamente políticas. Na verdade, eles exigem igualdade econômica e direito de decisão na exploração de recursos locais. O Marrocos discute um acordo de pesca com a União Europeia, que inclui as águas do Saara Ocidental. O mapa abaixo apresenta as divisões locais e os acampamentos.

Os protestos deram lutar a confrontos. Depois que um jovem de 14 anos foi morto, as autoridades o acusaram de levar armas ao acampamento, que não pode ser visitado por jornalistas. Os escritórios da Al-Jazeera em Rabat foram fechados, depois que a emissora foi considerada “preconceituosa em relação ao Marrocos”. Nativos do Saara Ocidental representam apenas um quinto da população local de 200 mil habitantes, a maioria deles marroquinos atraídos por propostas de emprego governamentais. Em Maatala, principal distrito da região, onde pichações e bandeiras pró-SARD e pró-Polisario podem ser vistos, as portas são reforçadas com aço, para resistir às batidas policiais.

“O abuso contínuo dos direitos humanos, e a falta de uma solução podem transformar nossos jovens em radicais”, diz Aminatou Haidar, uma ativista dos direitos humanos e ex-prisioneira política, conhecida como “a Gandhi do Saara”, por pregar a não-violência. Em 1999 e em 2005, grandes protestos abalaram a cidade. Pequenos confrontos entre separatistas e as autoridades marroquinas acontecem constantemente.

Há um ano, Haidar foi rejeitada no aeroporto de Laayoune por escrever “Saara Ocidental” na coluna referente a seu país de origem em seu cartão de desembarque. Ela passou o mês seguinte em greve de fome no aeroporto das Ilhas Canárias, na Espanha, até que os marroquinos foram persuadidos (por um grupo que incluiu Hillary Clinton, entre outros) a aceitá-la de volta. Sua expulsão aconteceu uma semana depois de o rei Muhammad, que sucedeu o rei Hassan, em 1999, ter endurecido as políticas contra os separatistas: “Ou se é patriota ou um traidor. Não se pode desfrutar dos direitos da cidadania e, ao mesmo tempo, conspirar com os inimigos da nação”.

Para Haidar, tais comentários atrasam a diplomacia. Ela defende a visão do Polisario, de que o futuro da região deveria ser decidido através de um referendo. Mas em 2000, depois que o Marrocos e o Polisario discordaram em uma série de questões, as Nações Unidas abandonaram o censo que teria permitido o cadastro dos eleitores. Desde então, o Marrocos, com apoio francês e norte-americano, propôs a autonomia como única solução. O país agora desenvolve um plano de autoridade regional que servirá de base para a futura autonomia.

“Os partidos ainda não possuem ao desejo político de entrar em negociações genuínas sobre o futuro do Saara Ocidental”, declarou Ross, em junho. Desde então ele tem recorrido ao Grupo de Amigos do Saara Ocidental, que consiste no Reino Unido, França, Rússia, Espanha, e Estados Unidos para garantir que as discussões entre o governo marroquino e o Polisario não terminem novamente em um impasse. O s próximos encontros são fruto de seus esforços.

Mas essa é uma tarefa difícil. No começo de 2010, vôos entre Laayoune e Tindouf, a cidade grande mais próxima na Argélia, foram encarados como uma medida que traria confiança, mas os vôos foram cancelados depois de pouco tempo. O tratamento dado a Haidar e a prisão de Mustafa Salma, um veteranos do Polisario, detido em Tindouf depois de declarar seu apoio á proposta marroquina de autonomia deixaram o clima mais tenso. Ross quer que o governo argelino participe ativamente das negociações, mas o país se recusou, alegando que somente o Polisario pode representar a população do Saara Ocidental. A Argélia, juntamente com a Mauritânia, irá apenas observar as negociações.

“Os nativos do Saara Ocidental são peões numa guerra entre Argélia e Mauritânia. Somos obrigados a escolher entre os dois países, já que uma nação independente seria nada menos que um satélite argelino. Eu escolho o Marrocos, já que ele representa ao menos uma fagulha de esperança democrática”, diz Eddah Laghdaf, diretor de uma emissora estatal, e defensor da ideia de autonomia. Segundo ele, a Argélia é uma ditadura mais nociva. Mas isso não significa que os saaráui estejam ansiosos para permanecer sob o controle do Marrocos.

A SARD é reconhecida por pelo menos 50 países atualmente, embora o Polisario diga que esse número já chegou a 80. Países africanos utilizam uma política “morde-e- assopra”, na qual reconhecem a independência e retiram esse reconhecimento, dependendo de como estejam as relações com Argélia e Marrocos.

Fontes:
Economist - Diplomacy over Western Sahara: Morocco v Algeria

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