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Sequestradores libertam estudantes em Camarões

Diretor da escola e um professor ainda estão sob o domínio dos sequestradores, que ainda não foram identificados

Sequestradores libertam estudantes em Camarões
Separatistas e forças do governo continuam se enfrentando em Camarões (Foto: Bede Sheppard/Human Rights Watch)

Todos os 78 estudantes sequestrados na Escola Secundária Presbiteriana (PPS), na cidade de Bamenda, em Camarões foram libertados na noite da última terça-feira, 6. No entanto, dois funcionários da escola continuam sob o controle dos sequestradores, que ainda não foram identificados.

As crianças e adolescentes, sendo 42 meninas e 36 garotos, foram sequestradas na noite do último domingo, 4, juntamente com três funcionários do colégio – o diretor, um professor e um motorista, que também foi libertado. Eles foram mantidos reféns por cerca de dois dias até serem libertados.

De acordo com Samuel Fonki, um pastor em Bamenda que trabalha na escola, todas os estudantes estão em boas condições de saúde. Assim que chegaram no pátio do colégio, eles foram encaminhados até as forças governamentais para prestarem depoimento.

“Louvado seja Deus, setenta e oito crianças e o motorista foram libertados. O diretor e um professor ainda estão com os sequestradores. Vamos continuar orando”, celebrou Fonki, segundo noticiou a agência de notícias Reuters.

Ainda não se sabe quem foi o responsável pelo sequestro. A região de Bamenda passa por um intenso conflito entre separatistas e forças governamentais. De acordo com a ONG Human Rights Watch (HRW), o embate já causou a morte de centenas de pessoas, mais de mil casas foram incendiadas e dezenas de escolas foram atacadas. Estima-se que 250 mil pessoas fugiram da região por medo da violência.

As forças do presidente Paul Biya, de 85 anos, que está há 36 anos no poder, tendo sido empossado para o seu sétimo mandato na última terça-feira, acusam os separatistas, que lutam para fundar a República da Ambazônia – também conhecido como Camarões do Sul, ficando a noroeste e sudoeste de Camarões.

Já os separatistas das Forças de Defesa da Ambazônia (ADF) negaram qualquer envolvimento no episódio e condenaram o “ato de terrorismo”. Por outro lado, grupos separatistas acusam as forças do governo de sequestrarem os estudantes para justificar a repressão aos movimentos.

Na Nigéria, o grupo extremista Boko Haram usou sequestros de estudantes para espalhar o medo na população. No entanto, apesar da proximidade com Camarões, o grupo não é suspeito de estar por trás do sequestro.

O governo camaronês já acusou os grupos separatistas de outros sequestros, incluindo autoridades de diferentes cidades e regiões que pertenceriam a uma possível República da Ambazônia. O objetivo dos separatistas seria restringir a atividade econômica local, criando “cidades-fantasmas”, pressionando o governo.

Segunda vez em 10 dias

Apesar de ter ganhado os noticiários de todo o mundo, essa não foi a primeira vez que a Escola Secundária Presbiteriana (PPS) foi alvo de sequestradores. No último dia 31 de outubro, 11 meninos foram raptados por homens armados.

Na ocasião, os sequestradores chegaram a exigir o pagamento de um resgate, mas libertaram os garotos mesmo sem o recebimento do dinheiro. As informações foram reveladas pela Igreja Presbiteriana de Camarões (PCC, na sigla em inglês), que divulgou um comunicado na última segunda-feira, 5, abordando os dois casos.

“Pedimos aos militares de Camarões e à milícia Ambazônia que respeitem o direito de crianças à educação. Este é um direito universal que todos os governos e forças anti-governo, que lutam em toda parte da Terra, respeitam e protegem. Nosso próprio caso não pode ser diferente”, solicitou a PCC.

Ademais, pediu para que a comunidade internacional atente-se à situação na região de Bamenda, à medida que os conflitos têm se intensificado e as crianças estão sendo expostas a riscos maiores. “Pedimos à comunidade internacional que tome nota deste grave ciclo de atos de desumanidade que se tornaram uma ocorrência diária”, disse a Igreja no comunicado.

O pesquisador Jonathan Pedneault, da HRW, assinou um artigo sobre o recente sequestro em Camarões. De acordo com o pesquisador, nem o governo e nem os separatistas forneceram evidências para confirmar qual dos lados sequestrou as crianças.

“O governo prometeu investigar o sequestro, mas suas próprias forças cometeram graves abusos no conflito, incluindo ataques a aldeias e execuções extrajudiciais de civis, sem qualquer investigação ou responsabilidade de qualquer um”, escreveu Pedneault na última terça-feira, antes dos estudantes serem libertados.

Por fim, o pesquisador segue a mesma linha da PCC, solicitando o apoio da comunidade internacional, em especial das Nações Unidas, União Africana, da França, Reino Unido e Estados Unidos, para dar fim ao conflito em Camarões. Segundo Pedneault, sem uma ação rápida, a crise vai piorar na região.

“Atores internacionais […] devem condenar unanimemente a violência contra civis e deixar claro que nenhum objetivo político justifica a violação do direito à educação e o sequestro de crianças em idade escolar. Mas eles também devem garantir que este evento horrível não se torne uma justificativa para mais abusos por parte de qualquer das partes nessa crise”, concluiu o pesquisador.

Disputa histórica

A disputa entre separatistas e forças governamentais data ainda da criação de Camarões. Durante a Primeira Guerra Mundial, o país “Kamerun” ficava sob o domínio da Alemanha. No entanto, após o fim da guerra, o território foi confiscado e dividido pela França e pelo Reino Unido. Os franceses (francófonos) ficaram responsáveis pela maior parte do país.

Em 1961, quando Camarões se tornou independente, as Nações Unidas permitiram que os anglófonos (descendentes da língua inglesa) optassem por ficar na Nigéria ou em Camarões. Como durante o referendo não foi dada a opção por se tornarem uma região independente, os anglófonos preferiram se juntar aos francófonos, com o objetivo de formar uma República.

No entanto, por serem responsáveis por uma região bem menor do país, os anglófonos perceberam, mais tarde, que a situação não seria igualitária, com os francófonos mantendo o controle da República. A ideia separatista e fundação da Ambazônia surgiu ainda na década de 1980, mas ganhou força apenas a partir de 2017.

Fontes:
The New York Times-Cameroon Students Have Been Released, Officials Say
CNN-Cameroon children freed after kidnapping

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