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França

Sistema educacional francês é alvo de críticas

Livros questionam rigidez das escolas francesas e acusam política educacional de estimular o fracasso dos alunos

Sistema educacional francês  é alvo de críticas
A cada ano, uma média de 130 mil alunos franceses abandona a escola sem diploma

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No fim de cada ano acadêmico, quando os estudantes britânicos realizam exames de nível avançado, surgem reclamações sobre a inflação nas notas e as avaliações indulgentes. Em 2010, 27% dos estudantes que fizeram os testes conseguiram uma nota A ou A* (uma nova graduação, equivalente a um “super A”). Do outro lado do Canal da Mancha, membros do sistema educacional temem que os alunos do ensino médio francês, que estudam arduamente e são avaliados com extrema rigidez, sejam vítimas de um sistema criado para fazê-los falhar.

Uma série de novos livros tem acalentado os debates sobre o assunto. Em um deles, Richard Descoings, diretor da SciencesPo, uma universidade parisiense, lamenta que as escolas francesas estejam “treinando gerações de jovens ansiosos, que se preocupam com seu futuro, se sentem tratados como meros números estatísticos, desconfiam uns dos outros e do sistema”. Em 2009, Descoings visitou 80 escolas e entrevistou 7 mil alunos para uma análise governamental dos liceus. Segundo eles, os alunos dizem que a vida escolar se divide entre o tédio e o pânico.

Em outro livro, Peter Gumbel, um jornalista e acadêmico britânico, afirma que o rígido sistema francês de graduação é “Uma ferida verdadeira que causa danos à moral, à autoconfiança e ao desempenho escolar”. É quase impossível atingir a pontuação máxima no baccalauréat, o exame inventado por Napoleão Bonaparte, que marca o fim do período escolar e o ingresso nas universidades. Em 2010, apenas pouco mais de 30 alunos – cerca de 0.006% dos inscritos – conseguiram acertar todas as questões do exame, enquanto no Reino Unido, cerca de 8% dos alunos conseguiram a nota A*. Apenas 22% dos franceses conseguiram uma pontuação de 14/20. Um estudo da Universidade de Cambridge alerta as universidades britânicas que recebem alunos oriundos do baccalauréat que “uma pontuação de 16/20 é um feito raro e impressionante, e que 14/20 é uma pontuação atingida somente pelos melhores alunos”.

Tanta dureza é necessariamente um problema? Foi a necessidade de distinguir a excelência que levou os britânicos a elaborarem a nota A*. O sistema francês tem diversos pontos bastante elogiáveis, como, por exemplo, seu caráter meritocrático, já que as melhores escolas do país são públicas. A ampla natureza do baccalauréat, que não impões especializações prévias e dá a todos os estudantes uma base em assuntos variados como filosofia e idiomas, é uma vantagem. O sistema francês é um eficiente gerador de elites altamente qualificadas.

Alunos franceses sofrem com estresse e ansiedade

O problema, dizem os críticos, está na combinação da avaliação rígida com horários sobrecarregados, e um foco na aprendizagem por meio do fracasso. Os alunos dos liceus têm longos dias – na maioria dos casos das 8h às 18h – para satisfazer as necessidades de seus professores, e não as suas. Um estudo do governo mostra que, incluindo os deveres de casa, os alunos franceses estudam cerca de 45 horas por semana. Isso no país que criou a jornada de trabalho de 35 horas semanais. O ministério da educação, em Paris, determina anualmente quantas horas por semana devem ser dedicadas a cada assunto. Há poucas evidências que mostram que essa política se traduz em melhores notas. O gráfico abaixo apresenta o número de horas de estudo anuais em cinco diferentes países, incluindo a França e a Inglaterra.

Grafico de desempenho

A avaliação não somente severa com o moral. Alunos que não conseguiram manter suas notas são obrigados a repetir o ano. 38% dos alunos com 15 anos já repetiram o ano pelo menos uma vez, um número alto se comparado à média dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 13%. Estudos mostram que os alunos franceses registram níveis altíssimos de estresse e ansiedade. A cada ano, uma média de 130 mil alunos abandona a escola sem diploma. “O abismo entre os melhores alunos e aqueles em dificuldade se torna maior a cada ano”, diz um estudo do Cour des Comptes, o órgão auditor do Estado, realizado no início de 2010.

Luc Chatel, o ministro da educação, começou a realizar mudanças. Uma reforma no segundo semestre de 2010, que oferece aos alunos de 15 e 16 anos, outras opções em campos como arte e tecnologia, dá aos alunos com dificuldade de aprendizado um tempo sob os cuidados de tutores. 100 escolas já estão testando um novo quadro de horários, com matérias acadêmicas pela manhã e esporte à tarde (apenas 20% dos alunos de ensino médio fazem parte de equipes esportivas escolares). O governo está fazendo consultas por todo o país a respeitos dos horários escolares.

É difícil saber se alguma das novas ideias dará resultado. O sistema francês de educação e seu corpo docente de mais de 1 milhão de professores está repleto de lobbies poderosos, que defendem temas, professores, alunos e outros interesses corporativos, com ferocidade. “Há um interesse me manter o sistema exatamente como está”, diz Descoings. Os ministros de educação do país aperfeiçoaram a arte das longas consultas, e têm menos habilidade em agir, especialmente se os sindicatos de professores ou as uniões estudantis marcham pelas ruas. No entanto, poucos permanecem no cargo por tempos suficiente para fazer algo. Desde 1981, a média de permanência dos ministros de educação é de apenas dois anos.

Fontes:
Economist.com - A system under attack for being too tough on pupils, not too easy

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1 Opinião

  1. jose gonçalves disse:

    A França tem um bom modelo para educacar o ser humano. Porquê a do Brasil serve somente para “educar” “pedras”.

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