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O futuro bebê real

William, Kate e a ‘gravidez do povo’

A criação do conceito de 'família real', hoje alçado ao status de celebridade, é a maior ameaça à monarquia britânica em tempos modernos

William, Kate e a ‘gravidez do povo’
Família real: uma coleção de indivíduos em um casulo de proteção e sob holofotes terríveis (Reprodução/Getty)

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Bebês reais provocam “óóós” e “áááás” e um tipo de jornalismo que amolece o cérebro. No entanto, depois de tantas notícias ruins este ano, engolir qualquer coisa comovente é sentir-se como um viajante sedento diante de um oásis no deserto. Em meio à recessão, a Grã-Bretanha entrou em êxtase quando William e Kate se casaram. O país balbuciou com prazer durante o jubileu real e diante dos “heróis das Olimpíadas”. Agora vem uma gravidez real, e um sorriso largo se materializa na face de um país fatigado.

Às 4 horas da tarde de segunda-feira, 3, cada escritório, fábrica, loja, restaurante e parque no Reino Unido foi enaltecido pela notícia da gravidez de Kate Middleton, ou pelo menos foi isso que nos disseram os meios de comunicação. David Cameron emergiu de Downing Street, como uma toupeira farejando o amanhecer, para o seu momento Tony Blair. Ele disse que estava “absolutamente encantado” dezenas de vezes. Ninguém se surpreenderia se vislumbrasse o fantasma de Alastair Campbell (jornalista e ex-assessor de imprensa de Tony Blair) murmurando em seu ouvido, “é a gravidez do povo”.

Este é o perigo das simplificações da mídia, e especialmente dos tabloides ingleses. Quando a primeira página dos jornais exibia uma dúzia de notícias, os altos e baixos da informação tendiam a se anular. A janela para o mundo tinha muitas aberturas, tanto boas como más.

A ‘tabloidização’ da notícia

A “tabloidização” da notícia transformou primeiras páginas em um único estrondo diário, provocado por uma história dominante, sobrescrita, revisitada e enfiada goela abaixo do leitor com a exclusão de todo o resto. Quer se trate do escândalo dos bônus de banqueiros, do escândalo dos grampos, do escândalo da BBC ou das Olimpíadas, uma cobertura monotemática distorce a percepção do leitor e incentiva um triste cinismo sobre o mundo. A má notícia é sempre uma catástrofe, a boa notícia é histeria.

O futuro nascimento de uma terceira pessoa na linha sucessória para o trono inglês é significativo, uma vez que a Constituição exige que a cabeça simbólica do Estado britânico seja herdada. O que não está na Constituição é que todas as pessoas nesta linha sucessória e seus filhos futuros e imaginários sejam idolatrados como celebridades. Quem será o monarca saído do ventre de Kate Middleton não tem a menor importância. Ele ou ela não será nada além da personificação antropomórfica do Estado.

Quando reis e rainhas importavam, bebês reais eram símbolos importantes da continuidade nacional. Como a sua soberania era, pelo menos em teoria, incontestável, eles eram a coroa em carne e osso. Hoje um herdeiro para o trono é um mero eco desta continuidade. Ele encarna os costumes, as práticas, a história e a nação tanto quanto as joias da coroa, o Palácio de Buckingham e as casas do Parlamento. Não importa se o herdeiro é menino ou menina, gigante ou demônio, gênio ou idiota.

A criação do conceito de “família real”, hoje alçado ao status de celebridade, é a maior ameaça à monarquia britânica em tempos modernos. A ferocidade dos holofotes sobre eles ajudou a minar três casamentos reais, dos quais a monarquia tem sorte de ter escapado ilesa, em grande parte, graças à personalidade da Rainha. Agora, o mesmo brilho terrível está voltado para o próximo jovem casal e o que parece ser uma gravidez difícil. Podemos sorrir e desejar-lhes bem, mas não é o enjoo matinal de Kate Middleton que esta família deve temer mais. São os demônios que certamente seguirão.

Fontes:
The Guardian - Pity this royal baby, its future a public obstacle course

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