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Cientistas estudam percepção do medo em peixes

Pesquisadores cingapurenses estão estudando o mecanismo que leva os peixes a sentirem o 'cheiro do medo'

Cientistas estudam percepção do medo em peixes
Quando quebrada, molécula presente na mucosa externa do peixe produz efeito de alarme nos demais peixes (Reprodução/NYT)

Cientistas cingapurenses estão estudando o mecanismo que leva os peixes a sentirem o “cheiro do medo”. Quando um peixe é ferido, outros peixes por perto têm reações como ficarem paralizados, se amontoarem, nadarem para o fundo ou saltarem da água. Mas os cientistas não sabiam explicar como os eles percebiam que outro peixe tinha sido ferido.

Uma nova pesquisa, liderada por Suresh Jesuthasan, um neurocientista do Biomedical Sciences Institutes de Cingapura, isolou moléculas de açúcar chamadas condroitinas do muco exterior do peixe-zebra. Segundo o estudo publicado por ele e seus colegas na Current Biology de fevereiro, quando essas moléculas são quebradas, como pode acontecer quando um peixe é ferido, elas produzem um efeito de alarme nos demais peixes.

O etologista (zoólogo que estuda o comportamento dos animais) Karl von Firsch percebeu esse comportamento em pequenos peixes em 1930. Ele teorizou que os peixes liberariam uma substância quando machucados que seria transmitida por cheiro e causaria alarme. No entanto, ele nunca conseguiu identificar a composição química do sinal, que chamou simplesmente de schreckstoff, ou “coisa assustadora”.

A molécula isolada pelos pequisadores parece se encaixar nessa descrição, já que em baixas concetrações os peixes ficaram “levemente perturbados”, de acordo com Jesuthasan. Já em concentrações mais altas eles pararam de nadar rapidamente e ficaram “congelados” no lugar por cerca de uma hora ou mais. Os pesquisadores demonstraram também que os neurônios no bulbo olfativo desses peixes eram ativados quando expostos aos fragmentos de açúcar. Dessa forma eles podiam “cheirar” o ferimento do outro peixe.

Para Lisa Stowers, neurocientista do Scripps Research Institute, a pesquisa pode ajudar a compreensão do medo e do pânico em outros animais, talvez até mesmo em humanos. Isso poderia contribuir para encontrar novas formas de ajudar pacientes com síndromes de pânico ou ansiedade. Ajay Mathuru, um dos cientistas envolvidos no estudo, explica que os feromônios do medo tendem a ser específicos de cada espécie, já que animais precisam “enviar sinais de alerta a seus amigos” ou invés de “dar a dica para seus inimigos”. Ainda assim, existem registros de predadores que detectam o medo das presas.

A maioria dos cientistas não acredita que feromônios provoquem medo e outras reações em humanos, ainda que esse tipo de pesquisa ainda esteja em fase inicial. Nos peixes zebra, o bulbo olfativo tem uma conexão póxima com uma área do cérebro chamada habenula, ligada à mediação do medo. Experimentos que interromperam a sinalização na habenula do peixe tiveram como resultado um comportamento mais “desnorteado” com a perspectiva de um choque elétrico. Aqueles com sinalização anormal na habenula tinham uma resposta exagerada ao medo.

A habenula nos humanos é pouco estudada devido ao seu pequeno tamanho e localização em uma área profunda do cérebro. Segundo Stowers, há suspeita de que a estrutura esteja envolvida em muitos tipos de comportamento, incluindo estresse, dor, ansiedade, aprendizado e reprodução. Mas a sua função ainda é misteriosa.

Ainda asism, o estudo dos peixes zebra pode contribuir para o entendimento do circuito neural envolvido no medo, mesmo que as respostas sejam estimuladas por sinais que não o cheiro. Com a purificação das moléculas, a equipe de Jesuthasan pode provocar o sinal de alarme na ausência de outros sinais, o que é um passo importante.

Fontes:
New York Times - How the Scent of Fear May Be Picked Up by Others

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