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Os ‘últimos feiticeiros’

Edward Dolnick analisa o trabalho de Isaac Newton e seus contemporâneos

Os ‘últimos feiticeiros’
Livro analisa nascimento da ciência moderna

O século XVII não era, ou pelo menos não parecia ser, um candidato óbvio para um período descrito como a “era da genialidade”. Aquele era um mundo no qual todos eram tementes a Deus e tudo, desde enchentes até cometas, era visto como ações incompreensíveis e inevitáveis de uma divindade invejosa e implacável.

No entanto, foi nesse terreno pouco promissor que visão de mundo moderna e científica desabrochou. “The Clockwork Universe: Isaac Newton, the Royal Society, and the Birth of the Modern World” (“O Universo Mecânico: Isaac Newton, a Royal Society, e o Nascimento do Mundo Moderno”) é o projeto com o qual Edward Dolnick narra o caminho dos pensadores e das descobertas que tornaram isso possível.

O resultado é, ao mesmo tempo, uma biografia de homens como Gottfried Liebniz, Isaac Newton e Johannes Kepler; a descrição de um leigo do significado de seu trabalho, e uma cativa obra de história cultural. É a história da liberação da humanidade (ou pelo menos da Europa) do fatalismo religioso que encarou todo incêndio ou praga como punição divina por alguma transgressão.

O ponto alto desta era – “Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica”, de Newton – está os mais influentes livros já escritos; aqueles com vigor matemático para entenderem seus obscuros diagramas ficam estupefatos em sua admiração. As equações elaboradas pelo gênio excêntrico são usadas até hoje para criar carros, construir pontes e mandar naves espaciais para o cosmos.

Mas o legado da era vai além de teorias úteis. A intuição de homens como Newton e Kepler de quem por trás do aparente caos da vida cotidiana, o universo é uma máquina regular e ordenada que pode ser descrita com algumas equações simples, provou ser correta. É essa ideia de universalidade o verdadeiro legado da revolução científica. Que as mesmas regras simples descrevam a queda de uma maçã, de uma bola de canhão e os movimentos celestes é um feito cativante, pois sugere que apesar de sua monstruosa complexidade, o universo é algo que pode ser compreendido pelas mentes mortais. Isso, por sua vez, abriu o caminho para a noção moderna de progresso. No fim das contas, o que é compreensível pode ser alterado, e melhorado com o tempo.

O relato tradicional conta que a nova ciência acabou com o domínio que a Igreja e alguns de seus pensadores pagãos prediletos (principalmente Aristóteles) exerceram sobre o pensamento ocidental durante séculos. Isso é verdade, mas como Dolnick demonstra, a realidade era um tanto mais complicada. Os proto-cientistas não surgiram de uma divisão clara entre as crenças antigas e o materialismo e a racionalidade modernas. Newton dividia seu tempo entre buscas do que hoje são consideradas ciências e disciplinas muito mais arcanas como a alquimia e uma busca obsessiva por códigos numéricos na Bíblia. Como observou o economista britânico John Maynard Keynes depois de adquirir vários dos rascunhos de Newton, esses homens não foram os primeiros cientistas, mas sim os últimos feiticeiros.

De fato, para muitos dos jovens cientistas, sua convicção era a de que o universo era um local ordenado criado a partir de suas crenças religiosas. Newton elaborou seu grande sistema do mundo como uma homenagem ao grande deus-geômetro. Quando outros entenderam que uma vez que a maquinaria universal fosse compreendida, não haveria mais necessidade da intervenção divina para manter os planetas em suas órbitas, ele entrou em pânico. Como muitos revolucionários, ele talvez não compreendesse o tamanho do monstro que ajudara a libertar.

Fontes:
The Economist - "Last of the sorcerers"

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