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Uma entrevista com o físico Stephen Hawking

Hawking se sentou com um repórter do 'Science Times' para uma rara conversa. Confira aqui!

Uma entrevista com o físico Stephen Hawking
Stephen Hawking foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica aos 21 anos (Fonte: NYT)

Assim como Albert Einstein, Stephen Hawking é tão famoso por sua trajetória como por sua ciência.

Aos  21 anos, o físico britânico foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (E.L.A.), também designada por doença de Lou Gehrig. Geralmente, essa doença neurodegenerativa mata dentro de cinco anos, mas Hawking sobreviveu, produzindo algumas das pesquisas cosmológicas mais importantes do seu tempo. 

Na década de ’60,  ele usou a matemática para explicar as propriedades dos buracos negros. Em 1973, aplicou a teoria geral da relatividade de Einstein aos princípios da mecânica quântica. E mostrou que buracos negros não são completamente negros, podendo apresentar um vazamento de radiação e, eventualmente, explodir e desaparecer – uma descoberta que ainda está reverberando na física e na cosmologia.

Em 1988, Hawking tentou explicar o que sabia sobre os limites do universo para um público leigo em “Uma Breve História do Tempo: do Big Bang aos Buracos Negros”. O livro vendeu mais de 10 milhões de cópias e ficou em listas de mais vendidos por mais de dois anos.

Hoje, aos 69 anos, Hawking é um dos sobreviventes mais velhos da E.L.A. e talvez o mais inspirador. Quase completamente paralisado, ele só pode falar através de um simulador de voz computadorizado.

Palavras comuns atravessam uma tela conectada à sua cadeira de rodas. Com um músculo da bochecha, Hawking aciona um sensor eletrônico nos seus óculos para transmitir instruções ao computador. Desta forma, ele lentamente constrói frases, transformadas pelo computador em sons metálicos , uma voz familiar para a sua legião de fãs.

É um processo cansativo e demorado. No entanto, é a forma como ele se mantém ligado ao mundo, orientando as pesquisas no Centro de Cosmologia Teórica da Universidade de Cambridge, escrevendo prolificamente para especialistas e dando palestras para públicos extasiados da França a Fiji.

Hawking visitou Nova York no mês passado, a convite de um amigo, o cosmólogo Lawrence Krauss, para um festival de ciência patrocinado pelo Origins Project da Universidade Estadual do Arizona.  Sua palestra, “Minha Breve História”, não era sobre os buracos negros. Em certo momento, ele falou das alegrias da descoberta científica.

“Eu não iria tão longe a ponto de compará-la ao sexo”, disse em sua voz computadorizada, “mas dura mais tempo”. A plateia urrou.
Na tarde seguinte, Hawking se sentou com um repórter do Science Times para uma entrevista rara. Bem, uma espécie de entrevista, na verdade.

Perguntas foram enviadas para sua filha, Lucy Hawking, uma semana antes da entrevista. De modo a não cansar o pai, que tem se sentido mais fraco desde uma doença quase fatal, há dois anos, Lucy leu as perguntas para ele ao longo de um período de dias.

Durante nossa reunião, o físico reproduziu suas respostas em um gravador. Apenas uma troca, a última, foi espontânea. No entanto, apesar das limitações, foi Hawking quem insistiu em fazer a entrevista em pessoa, e não por e-mail.

O que é um dia típico para você?

Me levanto cedo todas as manhãs e vou para o meu escritório onde eu trabalho com meus colegas e alunos da Universidade de Cambridge. Usando email, eu posso me comunicar com cientistas de todo o planeta.

Obviamente, por causa da minha deficiência, eu preciso de ajuda. Mas eu sempre tentei superar as limitações da minha condição e levar uma vida tão completa quanto possível. Eu viajei o mundo, desde a Antártida à gravidade zero. (Pausa.) Talvez um dia eu irei para o espaço.

Existem  alguns especialistas em E.L.A. que insistem que você não pode sofrer da doença. Argumentam que você está bem demais. Como você reage a esse tipo de especulação?

Talvez eu não tenha o tipo mais comum dessa doença, que normalmente mata em dois ou três anos. Sem dúvida me ajudou muito ter um emprego e ter sido tão bem cuidado ao longo dos anos.

Eu não tenho coisas positivas a dizer sobre essa doença. Mas ela me ensinou a não ter pena de mim mesmo, porque outras pessoas tem casos piores e eu ainda posso fazer algumas coisas. Estou mais feliz agora do que antes, quando eu desenvolvi a doença. Tenho sorte de estar trabalhando em física teórica, uma das poucas áreas em que a deficiência não é uma séria desvantagem.

Com toda a sua experiência, o que você diria a alguém que acaba de ser  diagnosticado com uma doença grave, como a E.L.A.?

Meu conselho a outras pessoas com deficiências é: se concentre nas coisas que sua deficiência não te impedem de fazer bem, e não se arrependa das coisas que não pode fazer. Não seja deficiente de espírito, além de fisicamente. 

Com relação ao Large Hadron Collider, o super colisor de partículas na Suíça, havia tanta expectativa em torno dele quando foi inauguradoVocê está decepcionado?

É muito cedo para saber o que o L.H.C. irá revelar. Ela precisará de mais dois anos antes que atinja sua plena potência. Quando isso acontecer, vai trabalhar com energias cinco vezes maiores do que os aceleradores de partículas anteriores.

Nós podemos tentar adivinhar o que isso vai revelar, mas nossa experiência mostrado que, quando abrimos uma nova gama de observações, muitas vezes descobrimos o que não esperávamos. Ou seja, isso é quando a física se torna realmente emocionante, porque estamos aprendendo algo novo sobre o universo.

Quero saber sobre seu livro Uma Breve História do Tempo“. Você ficou surpreso com seu enorme sucesso? Você acredita que a maioria dos seus leitores o entenderam? Ou já é suficiente  que eles se interessem pelo assunto e queriam entender? Quais são as implicações de seus livros para o ensino popular da ciência?

Eu não esperava que “Uma Breve História do Tempo”, se tornasse um best-seller. Foi o meu primeiro livro popular e despertou grande interesse.
Inicialmente, muitas pessoas acharam difícil de entender. Por isso, decidi tentar escrever uma nova versão que seria mais fácil de seguir. Aproveitei a oportunidade para acrescentar material sobre os novos desenvolvimentos desde o primeiro livro, e deixei de fora algumas coisas mais técnicas. Isto resultou em uma segunda versão do livro, intitulado “Uma Nova História do Tempo”, que é ligeiramente mais curto e mais acessível.

Apesar de evitar expor suas opiniões políticas muito abertamente, você entrou no debate sobre o sistema de saúde  aqui nos Estados Unidos no ano passado. Por que fez isso?

Entrei no debate sobre a saúde em resposta a uma declaração publicada pela imprensa norte-americana no verão de 2009, alegando que o Serviço Nacional de Saúde na Grã-Bretanha já teria me matado se eu fosse um cidadão britânico. Senti-me compelido a fazer uma declaração para explicar o erro.
Eu sou britânico, vivo em Cambridge, na Inglaterra, e o Serviço Nacional de Saúde tem tomado muito cuidado comigo há mais de 40 anos. Tenho recebido atenção médica excelente na Grã-Bretanha, e senti que era importante retificar o registro. Eu acredito em cuidados de saúde universais. E não tenho medo de dizer isso.

Aqui na Terra, os últimos meses têm sido devastadores. Quais foram seus sentimentos ao ler sobre terremotos, revoluções, contrarrevoluções e colapsos nucleares no Japão? Você ficou tão abalado quanto resto de nós?

Visitei várias vezes o Japão e sempre fui tratado com muita hospitalidade lá. Estou profundamente entristecido por meus colegas e amigos japoneses, que sofreram um evento tão catastrófico. Espero ver um esforço global para ajudar o Japão a se recuperar. Nós, como espécie, já sobrevivemos a muitos desastres naturais e situações difíceis, e eu sei que o espírito humano é capaz de suportar provações terríveis.

Se é possível viajar no tempo, ao menos teoricamente, como afirmam alguns físicos, para qual momento único da sua vida você gostaria de retornar? Essa é outra maneira de perguntar, qual foi o momento mais feliz da sua vida?

Voltaria para 1967, para o nascimento do meu primeiro filho, Robert. Meus três filhos me trouxeram grandes alegrias.

Fontes:
New York Times - Life and the Cosmos, Word by Painstaking Word

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3 Opiniões

  1. Manfred K. Richter disse:

    o Sr. Hawking tem condições de comunicação com o mundo a sua volta e partilha de suas magníficas idéias.
    Fico imaginando quantas pessoas, no passado, não tiveram condição de ter tal comunicação, e mesmo as que hoje ainda não têm, mas são tão brilhantes. Consideradas “retardadas” pela população elas são negligenciadas em suas percepções, e talvez daí venha aquele profundo olhar de ausência que expressam encerradas em si mesmas.

  2. Eliahu Feldman disse:

    Hawking não só é um físico extraordinário, mas parece ser um ser humano extraordinário. Não se dobra à sua limitação, segue adiante, influi e contribui, e ainda “ameaça” viajar ao espaço. Vai ser “macho”assim lá em casa!

  3. João Bosco Maria Duarte disse:

    Stephen Hawking é um exemplo para o mundo pela sua capacidade de lidar com situações extremamente limitadas, mas que não as usam como desculpas para o desencorajar na sua difícil e bela missão que Deus lhe deu para explicar sabiamente para o mundo os mistérios da ciência.

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