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Ecocelebridades

Consciência ambiental ou marketing próprio?

Consciência ambiental ou marketing próprio?
Revista Quem

Um simples corte de cabelo novo de um artista pode provocar uma verdadeira corrida aos salões de beleza por mulheres ávidas por acompanhar o que acreditam ser a última tendência. Foi assim quando a ex-Spice Girl Victoria Beckham apareceu com as madeixas mais curtas e foi imitada até mesmo por outras famosas. Mais do que estética, a moda a ser copiada agora é o comportamento ambientalmente correto dos artistas. As ecocelebridades querem fazer uso de sua popularidade para chamar atenção para a causa verde. Porém, há quem questione se o interesse pelo meio ambiente é real ou mera ação de marketing próprio.

A bióloga Lúcia Malla, em um dos artigos de seu blog “Uma Malla pelo Mundo”, defende que ficar criticando as intenções de Al Gore com o seu documentário ou de Leonardo DiCaprio com seu envolvimento em ONGs, por mais politicagem que seja, é desviar o foco de uma discussão séria com a sociedade sobre ciência. Lúcia chama atenção para o fato de o movimento ambiental ainda ver com um certo preconceito a participação das ecocelebridades em suas campanhas. Ela ressalta que faz sentido as ONGs pensarem dessa maneira, já que um deslize “ecológico” de uma celebridade pode ter sérias consequências de credibilidade para uma campanha perante a opinião pública. “Entretanto, acho que esse risco poderia ser melhor administrado. Porque a figura da ecocelebridade é muito forte para a maioria da população – que dirá seus fãs. É um desperdício de luta não usar a imagem de um famoso por medo de arriscar”, disse Lúcia no artigo.

Carolina Herrmann, membro do Conselho Diretor do Núcleo Amigos da Terra Brasil (entidade brasileira da Friends of the Earth International), também vê de forma positiva as celebridades apoiarem ou fazerem campanhas em prol do meio ambiente. “Elas atingem um grande número de pessoas, e utilizam uma linguagem reconhecida pelos fãs. Percebemos isso nos shows do Radiohead no Brasil, pois muitos dos fãs vestiam camisetas com dizeres ecológicos”.

Para Carolina, é preciso diferenciar aquele artista que só fala dos que realmente fazem algo. Segundo ela, há vários “níveis” que as pessoas vão atingindo em suas atitudes para reduzir os seus impactos ambientais, desde a ação mais simples de separar o lixo, até decisões que influenciam na sua alimentação, forma de deslocamento, etc. “A jogada de marketing é muito vendida em produtos, que, na verdade, não são realmente ecológicos. Com relação às celebridades, acreditamos que há a consciência ambiental, mas, como qualquer pessoa, o nível de mudança de atitude em prol do meio ambiente passa pelo processo interno de ação de cada um. Mas sempre é possível avançar mais”

Lúcia Malla defende que a ecocelebridade precisa ser sincera com a escolha de uma causa ambiental e vestir a camisa em seu cotidiano. ”A ligação da imagem de uma ecocelebridade com a sua causa de forma sincera é pré-requisito básico para o sucesso da divulgação da causa ambiental”.

Competição verde

Em setembro do ano passado, uma matéria do site da revista Time perguntava: Who’s the greenest actor in Hollywood? (Qual é o ator mais verde em Hollywood?). A publicação indicava o pouco falado, Hart Bochner, que participou de seriados como Night Visions, The Starter Wife e The Inside. O posto foi dado pela sua discrição e pelo seu engajamento no anonimato para fazer com que a indústria seja mais amiga da natureza. O ator e seus colegas do Environmental Media Association (EMA) estão lutando para que as produções dos filmes causem menos impactos ambientais.

O apresentador Ed Begley Jr., estrela de “Living with Ed”, um eco-reality show em que ele dá dicas de como criar um ambiente mais ecológico no cotidiano, também apareceu na lista. A casa dele é abastecida com energia solar e seu carro, com energia elétrica. Já o ator Leonardo DiCaprio foi indicado por provar que ser milionário não o impede de ter hábitos eco-friendly (ambientalmente amigáveis). No entanto, os ambientalmente corretos mais xiitas condenam seu estilo de vida esbanjador.

As celebridades brasileiras, embora não constassem na lista, também não fogem à regra. A causa ambiental fez com que os apresentadores Luciano Huck e Cynthia Howlett, os cantores Lenine e Lulu Santos e os atores Reynaldo Gianecchini, Sérgio Marone e Camila Pitanga posassem em anúncios de jornais e TV nas últimas semanas com uma vela disposta sobre um globo terrestre para divulgar o movimento “Hora do Planeta”, organizado pela ONG Fundo Mundial para a Natureza (na sigla em inglês, WWF). A campanha pretendia que pessoas de todo o mundo apagassem suas luzes por uma hora no último sábado de março para protestar contra as mudanças climáticas.

Já a modelo Gisele Bündchen fez campanha para a preservação do Rio Xingu e bancou a plantação de mais de 25 mil árvores em florestas em São Paulo e na Bahia. Ao entrar no site de Gisele, ao invés das mais prováveis fotos da modelo, o que se vê são vídeos ligados à questões ambientais. Ela até criou um blog só para falar de temas ligados à causa verde. No fim de 2008, Gisele lançou o projeto Água Limpa, iniciativa idealizada por ela e sua família em defesa das águas.

Mas a moda mesmo é ficar como veio ao mundo para chamar atenção contra a devastação da mãe Terra. Deborah Secco saiu nua na capa da revista Quem para dar destaque à necessidade de separar e reciclar o lixo. Já na edição de outubro da revista Criativa, celebridades tiraram a roupa em prol de variadas questões ligadas à preservação da natureza. A atriz Anna Sophia Folch atacou a morte de animais para a confecção de casacos de pele. O modelo Paulo Zulu nadou com tubarões no Aquário de São Paulo para alertar contra a pesca predatória. A atriz e apresentadora Daniele Suzuki tirou a roupa pedindo basta ao aquecimento global e à poluição dos rios e mares. Já o ator Ricardo Pereira ficou nu para apoiar a utilização de energias alternativas.

Green tour

A consciência ecológica, no entanto, não é moda só entre as celebridades da TV e do mundo fashion. As chamadas “green tours”, turnês ecologicamente corretas, fazem a cabeça de grupos de diferentes estilos musicais, já que todo grande show gera impacto ambiental devido às toneladas de lixo produzidas e ao enorme gasto de energia, entre outros fatores.

Em sua passagem pelo Brasil em março, o grupo inglês Radiohead exigiu uso de material reciclável, produtos orgânicos e pouco desperdício no camarim. Copos de plástico nos bastidores foram substituídos por garrafas de vidro. Até mesmo os mexedores de café de plástico foram substituídos por de louça ou madeira. Não se pode dizer que as exigências foram em vão. Mas, um estudo encomendado pelo grupo mostrou que 97% da poluição de um show nos EUA foi causada por gases emitidos por automóveis.

A organização “Núcleo Amigos da Terra Brasil” conseguiu 2.600 assinaturas antes dos shows do Radiohead no país, para apoiar a aprovação de projetos de lei de incentivo às energias renováveis descentralizadas que tramitam na Câmara dos Deputados em Brasília. Uma média de quinze voluntários conversou com os fãs da banda inglesa por quatro horas antes de cada show e, além de pedirem as assinaturas, expuseram cartuns e camisetas que mostram a campanha por Justiça Climática. “Os fãs foram muito receptivos conosco e aderiram ao abaixo-assinado em favor do uso de energias renováveis descentralizadas no Brasil”, disse Carolina Herrmann.

Em uma entrevista para o site do jornal “Guardian”, em outubro de 2006, o vocalista do Radiohead, Thom Yorke, criticou o “ridículo” uso de energia nesses eventos e chegou a ameaçar parar de voar para longas distâncias se medidas não fossem tomadas para reduzir a emissão de carbono: “Eu quero ir para os Estados Unidos de navio. A banda inglesa The Cure fez isso anos atrás porque (o vocalista) Robert Smith se recusou a voar. Alguém me disse que se eu fosse de navio, a emissão de carbono seria tão grande quanto. Mas, longas horas de voo simplesmente me parecem um erro. Estou tentando achar uma maneira de chegar ao Japão de trem. Eu até me interessei pelo (trem) Transiberiano, mas pelo que eu ouvi falar é meio assustador”.

As bandas brasileiras não ficam para trás. O Jota Quest é um dos grupos mais sócio-ambientalmente engajados do país. Na turnê do segundo CD (De Volta ao Planeta), que saiu em maio de 1998, o Jota Quest fez o primeiro show movido a energia solar da América Latina, em Florianópolis. Em 2000, a banda lançou o CD “Oxigênio”, cuja canção homônima teve os direitos autorais doados ao Greenpeace. A música de trabalho “Dias Melhores” foi gravada no Centro de Captação de Energia Eólica, em Fortaleza (CE). O vocalista Rogério Flausino chegou a dizer que o mínimo que se pode fazer quando se tem espaço na mídia é divulgar assuntos que tenham relevância para a qualidade de vida de todos e que fazer mídia em cima de ecologia já não é mais mídia, é lutar pela própria sobrevivência.

Artistas se engajam desde a década de 70

A preocupação com o meio ambiente começou na década de 70. Uma das maiores referências foi Brigitte Bardot, que em 1976 criou uma fundação em defesa dos animais. Desde então, a diva parou de usar qualquer tecido de origem animal para se vestir e combateu os produtos elaborados a partir de experiências com seres vivos. Já o ex-beatle Paul McCartney, vegetariano radical, compôs uma música especialmente para o ambientalista brasileiro Chico Mendes (“How many people”, lançada no disco “Flowers in The Dirt”, de 1989). A paixão pela preservação ambiental foi herdada pela filha de Paul, a estilista Stella McCartney, que trabalha com tecidos orgânicos e chegou a criticar em público amigas próximas, entre elas Madonna, por usar pele animal. No fim dos anos 80, foi a vez do cantor Sting se engajar em campanhas ecológicas. Ele chegou a vir diversas vezes ao Brasil em campanhas pela preservação das florestas no país. Por aqui, Tom Jobim, um dos mestres da música popular brasileira, era amante da natureza e da biodiversidade. Sua relação com o meio ambiente pode ser claramente observada em canções dos discos Matita Perê (1973) e Urubú (1975).

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5 Opiniões

  1. Dorival Silva disse:

    Tem exageros muito idiotas nessa conversa de ecocelebridades. Esse vocalista do Radiohead, Thom Yorke, não quer viajar de avião porque acha que polui. Qualquer meio de transporte polui. E alguém precisa dizer para ele que o Japão é uma ilha, ele não vai poder chegar até lá de trem.

  2. Advogada " dele" disse:

    @Dorival Silva, Prezado Dorival,
    Precisamos refletir sobre a burrice em massa de uma geração coca-cola. Tenho certeza que o senhor acha melhor ouvir o Thom Yorke fazendo discursos exagerados sobre o meio ambiente, e até mesmo impossíveis, do que assistir a Amy Winehouse dando vexame drogada pelos palcos do mundo e nas telas de computadores via youtube, servindo de exemplo para toda uma geração formada por uma maioria de jovens alienados. Concorda?

  3. Vanessa disse:

    É plausível a atitude das celebridades que se interessam em levantar a bandeira em prol da causa ambiental.A maioria da população mundial vive em um estado de completa inconsciência e alienação perante as mudanças climáticas e acreditam ainda que tudo não passa de alarde e sensacionalismo. Independentemente se o interesse real de alguns artitas seja pelo meio ambiente ou mero jogo de marketing, qualquer ação em defesa da natureza e do despertar da consciência ambiental é positiva.
    A mudança de atitude,mesmo se seja miníma, é capaz de refletir na qualidade de vida de todos.

  4. heloisa disse:

    Existe uma unanimidade que ecocelebridades são úteis. Segundo apreendi, Amy Winehouse é boa cantora e tem fãs. Deve ser o caso de Thom Yorke. Podemos ser ecologicamente corretos, não sermos fãs e não termos paciência para discurso de celebridades. Me solidarizo com Evandro Correa quando critica a bobagem dita pelo vocalista. Concordo que ele chama atenção de seus fãs para a questão ambiental. Certamente não apreciaria seu discurso, talvez, quem sabe a sua música.

  5. silvio santos disse:

    Natalie Portman, atriz vegetariana desde criança e apoiante dos direitos de animais e procura sempre comprar roupas de marcas eco-friendly como a Edun ou Stella McCartney. Optou igualmente por não usar couro nem peles de animais.

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