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Rogério da Costa
Nós da Comunicação

“Laços criados entre pessoas nas redes sociais são importantes”

Por Christina Lima, do site Nós da Comunicação

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Rogério da Costa é um dos coordenadores do Laboratório de Inteligência Coletiva (LInC), uma iniciativa vinculada à PUC de São Paulo, que oferece consultoria em sustentabilidade para organizações interessadas em trabalhar com IC, conceito desenvolvido pelo filósofo Pierre Lévy.

Nessa entrevista ao Nós da Comunicação, o doutor em História da Filosofia e autor do livro ‘A Cultura Digital’ (Editora Publifolha, 2004) nos fala sobre os atuais processos relacionais do mundo do trabalho, o valor afetivo da palavra e a importância das redes sociais na internet para a manutenção dos relacionamentos. “As pessoas que compreenderam essas redes encontraram um modo de construir um outro tipo de relação de propagação de interesses”, afirma.

Nós da Comunicação – Para falar das transformações contemporâneas do trabalho coletivo, você nos aponta um texto de 1840 de Louis-René Villermé, o qual registrava que “um escravo das Antilhas trabalhava nove horas por dia e os condenados ao trabalho forçado nas instituições penais, dez”. Guardadas as proporções, tem muito profissional em empresa que supera essa carga horária. Como são os atuais processos de trabalho?
Rogério da Costa – De 20 anos para cá, como os processos de trabalho vêm se baseando cada vez mais na produção de conhecimento, na produção da comunicação, na transformação das informações e nesse campo específico do trabalho afetivo, pensar em sustentabilidade desse trabalho é pensar na condição de cada indivíduo em conseguir manter essa dimensão de relacionamento e de troca. Esse é um tipo de trabalho que está sempre envolvendo relacionamento, pois a natureza do trabalho hoje está muito associada ao estabelecimento dos relacionamentos. Você troca conhecimento, se comunica, transforma informação e se relaciona porque tem de atender alguém, cuidar de alguém. O estar em relação é absolutamente essencial para o tipo de trabalho que se produz hoje. Alguém pode me perguntar: “Mas e na fábrica que ainda existe hoje?”. Essas pessoas também estão em relação. O funcionário que lida com um robô ou máquina computadorizada precisa estudar, reportar, estar em relacionamento. Isso é visto hoje como um elemento importante.

Nós da Comunicação – Mas no início do capitalismo, no chão de fábrica, também não havia uma relação?
R.C. – Sim, mas ela não era levada em conta, não era um elemento pertinente, não se prestava atenção nisso. Não se prestava atenção à condição de saúde do operário. Hoje é ao contrário. Sabemos que o bem-estar de um funcionário é condição para ele transacionar no relacionamento, para transacionar informação, conhecimento e estar bem afetivamente. Um exemplo: se uma pessoa o atende no caixa de supermercado de mau humor, você se sente mal. Mas ter atenção com você – e não apenas fazer a contas e lhe devolver o dinheiro – faz parte do trabalho dela. Na realidade, em todos os tipos de trabalho você tem de ter atenção com quem está lidando. Pensar nisso é mesmo um desafio. Em minha opinião, isso vem junto com essa complexidade maior que é a sustentabilidade do planeta e da economia.

Nós da Comunicação – Quando você fala das relações afetivas e esclarece que afeto é tudo aquilo que causa um impacto, que toca o outro, um dos exemplos dados é o da força da palavra e como ela pode afetar os outros. Qual o papel do comunicador nessa relação?
R.C. – Uma das coisas mais curiosas é o modelo de telejornal, por exemplo. Em uma notícia de desastre aéreo, o tom do repórter conduz o espectador para a tonalidade afetiva exigida por aquele evento. Você cria uma empatia. E quando começa a entrar num processo de empatia, e a pensar o problema em questão, cortam para o esporte e as notícias da Copa do Mundo e isso quebra essa empatia. Você passa a se perguntar: “Puxa, como eu me sinto agora? Tenho de passar da tristeza para a alegria em um clique automático?”. Esse é um grande desafio para o pessoal da comunicação que precisa refletir sobre de que maneira se está produzindo uma subjetividade, tratando-a dessa forma, acreditando que uma pessoa pode ir de um clique a outro, e supondo que isso é construir e transmitir informação? Isso é fazer alguém pensar ou é produzir um esquizofrênico ou uma pessoa que dissocia rapidamente uma coisa de outra? Talvez isso tenha de ser pensado com mais seriedade.

Outro problema que enfrentamos com a mídia em geral é o da condição de construção da realidade, a qual os jornalistas também são veículo. Por exemplo, hoje em dia, a ciência anuncia novidades que dizem respeito à maneira de como devemos nos comportar. A ciência normalmente apela para números e estatísticas etc. E de que forma você recebe uma notícia dessas? A construção da informação vem com uma tonalidade afetiva, emotiva, e lhe toca desta forma: “Preste atenção, se você continuar fazendo isso, você pode ter uma doença grave”. Na semana seguinte, quando é anunciado que o ovo, que já foi um vilão, agora já não faz tanto mal, como a gente se sente? Perdido. O jornalista, de fato, é um veículo disso e seria interessante se ele passasse a pensar mais, tentar refletir sobre o poder que um tipo de informação enviada tem de carga afetiva. Não há texto neutro.

Nós da Comunicação – Rede social, hoje em dia, é sinônimo de rede social virtual. Qual a importância dessas redes e como os relacionamentos estão se dando via internet?
R.C. – Já em 1978, o sociólogo Mark Granovetter já fazia uma distinção das redes sociais físicas, locais, muito interessante. Ele começou a avaliar que sempre encontrava nessas redes aquilo que ele chamou de laços fracos e laços fortes. Os laços fortes, em geral, eram caracterizados por laços entre parentes, amigos próximos, colegas de trabalho com que se convive o tempo inteiro; e os fracos eram os amigos eventuais, os colegas mais distantes, aquela pessoa que você encontrou numa conferência e trocou cartões, aquele amigo de infância que você não vê há muito tempo etc. Granovetter então elaborou uma tese curiosa: ele diz que se você está procurando emprego, não procure por um laço forte e sim por um fraco, pois os laços fracos são fortes com indivíduos de outro grupo que você ainda não tem acesso. Então, quando você aciona um laço fraco significa que aquilo que você pretende obter pode se abrir lá naquele mundo que não é o seu por enquanto. Da mesma forma, se você quer passar uma informação não adianta transmiti-la aos seus laços fortes, pois, assim, forma-se um ciclo pequeno a sua volta. O importante é atingir os laços fracos, porque esses vão replicar a mensagem para mundos mais distantes.

Essa tese caiu como uma luva na questão das redes sociais. “Redes sociais” é formar laços fracos. Você tem seus laços fortes, como sempre teve, mas rede social na web, seja Twitter, Orkut, MySpace, Facebook etc. é para fomentar esses laços fracos, que, ao contrário do que podemos pensar, são muito importantes. É justamente aquele cartão de uma pessoa que você ouviu em um congresso, e você envia um e-mail para ela, que daqui a pouco te convida para integrar uma rede social na qual você publica um artigo, que, seguindo nesse caminho vai muito mais longe. Essa é a estratégia das pessoas que compreenderam que as redes sociais são um modo de construir um outro tipo de relação de propagação de interesses e captação de coisas interessantes por meio justamente desses laços fracos.

Conteúdo publicado originalmente no site Nós da Comunicação, parceiro do Opinião e  Notícia

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  1. Evandro Correia disse:

    As pessoas que se refugiam nessas “redes sociais” são desajustadas. Como não conseguem ter relacionamentos normais e saudáveis, tentam se amparar nos relacionamentos virtuais. Já saiu morte, já saiu suicídio, ainda vai sair sair muita coisa ruim desse mundinho doentio.