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PRECONCEITO

A luta diária contra a gordofobia

Três mulheres falam sobre os desafios que passam por conta de seu peso seja na hora de comprar roupas, de passar na roleta ou de ir a consultas

A luta diária contra a gordofobia
Luiza Junqueira, Bianca Reis e Kalli Fonseca falam sobre gordofobia (Fotos: Arquivo pessoal)

Elas foram a diferentes profissionais de saúde e ouviram a mesma coisa. Seja no dentista ou no oftalmologista, elas ouviram que emagrecer seria a solução para todos os seus problemas. Mas quem são elas? Elas são as gordas. Discriminadas no trabalho, na rua ou em qualquer lugar, elas encontraram voz na internet.

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Kalli Fonseca, do blog Beleza Sem Tamanho (Foto: Arquivo pessoal)

Para começar é preciso dizer que gorda, assim como magra, é um adjetivo qualquer. No entanto, é fácil encontrar a palavra “magra” como um elogio e “gorda” como ofensa. Então, se “gorda” é apenas uma característica física, por que amenizar o adjetivo com seu diminutivo? Kalli Fonseca, 33 anos, do blog Beleza Sem Tamanho, é quem explica isso. Com 1,76 m, ela diz que “gordinha” não é para ela. Mas Kalli sabe muito bem que na cabeça dos outros, “gorda” ainda é ofensa. “Qualquer briga que eu tiver com qualquer pessoa, vão me chamar de gorda. Isso já vem de muitos anos. Eu sei que eu sou gorda. Não tem porque a pessoa me avisar.”

Outra questão importante é a confusão entre o conceito de gordofobia e de pressão estética. Apesar de ser um conceito complicado mesmo dentro do movimento contra gordofobia, segundo Kalli, a pressão estética seria o que toda a pessoa sofre por não se encaixar num padrão, enquanto que a gordofobia seria a perda de direitos por parte dos gordos, como a falta de tamanho das roupas ou o tamanho das roletas dos ônibus que impedem as pessoas gordas de entrar.

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Bianca Reis, da marca F.A.T. (Foto: Arquivo pessoal)

Bianca Reis, de 22 anos, mais conhecida como Bee Reis, é dona da For All Types (F.A.T.), marca brasileira de lingeries e biquínis a partir do manequim 46. Ela conta que sua inspiração foi exatamente a sua necessidade e a de outras mulheres de achar roupas com tamanhos maiores. Afinal de contas, segundo ela, o mercado “plus size” ainda é extremamente limitado em termos de tamanho. Por isso, a proposta de sua marca é de não ter limite máximo. “Aos 8 anos tive de ouvir da endocrinologista que se não emagrecesse estaria vivendo de remédio aos 16. A vida inteira não tive nenhum problema de saúde, vivo uma vida saudável e balanceada e peso 135 kg hoje, aos 22 anos. Tive de fazer exames a vida inteira por ser ‘doente’ e tudo isso me fez perceber que não, não sou doente, sou apenas gorda.”

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Luiza Junqueira, do canal de Youtube Tá, Querida! (Foto: Arquivo pessoal)

Luiza Junqueira, de 25 anos, do canal de Youtube Tá, Querida!, após perceber que sua infelicidade em relação ao seu corpo não era algo que partia dela, mas que lhe era imposta, resolveu mostrar isso para todos. Ela decidiu transformar seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em algo que fosse “útil e libertador para o maior número possível de pessoas”. Luiza fez o documentário “Gorda”, no qual ouviu três mulheres que sofrem preconceito diariamente. Em um dos depoimentos, a blogueira Claudia GordiVah conta que sofreu anos com um câncer que quase a matou, mas que seu diagnóstico demorou muito mais do que o normal para sair porque não investigavam a fundo o problema, apenas colocavam a culpa no seu peso. “Minha ideia não é dar conta de acabar com o problema com apenas um filme universitário, mas sim dar um pontapé para que comecem a falar mais sobre isso”, explica Luiza.

Segundo o presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro (Socerj), Ricardo Mourilhe, a obesidade é considerada um fator de risco para diversas doenças. No entanto, apenas a perda de peso não é suficiente para resolver os problemas de saúde. “Nenhuma doença é exclusiva do gordo, mas o obeso tem um risco maior causado pela própria obesidade. Uma pessoa magra pode ter as mesmas doenças de um obeso. O Índice de Massa Corporal (IMC) é apenas uma conta da relação do peso e altura e existem correlações de IMC muito elevado ou muito baixo com maior risco de doenças, mas também como parâmetro isolado, não diz muita coisa. Serve como um número para controle do peso”.

Considerar a obesidade uma doença é uma das questões que grupos contra gordofobia discutem. “A gordofobia é baseada na patologização do corpo gordo. Não é sobre coisas internas e autoestima. Uma pessoa gorda pode ter uma autoestima ótima, ela ainda vai ter um CID [Classificação Internacional de Doença], um certificado de doença chamada ‘obesidade’, cujo único sintoma que ocorre em todos os casos é ser gordo. Por causa dessa patologização e a ideia de que além de uma doença, é uma doença evitável, que só é gordo quem é desleixado, descuidado e se alimenta mal, toda a sociedade tem o ‘aval’ para excluir pessoas gordas, inclusive na estrutura pública. Uma pessoa gorda vai ter que enfrentar problemas com assentos de ônibus, cadeiras, estruturas em geral, não vai conseguir fazer plano de saúde mesmo tendo a saúde perfeita, etc. É um problema estrutural, e não é sobre amor próprio ou qualquer outro sentimento – é sobre não caber no mundo e ser patologizado sem ter doença alguma. Também sofremos negligência médica, muitas e muitas pessoas são tratadas erroneamente porque o médico se recusa a acreditar que uma pessoa gorda tenha alguma coisa que não tenha a ver com a gordura – e isso é estatisticamente a maioria esmagadora dos casos. A ideia de obesidade ser doença é errônea e, assim como homossexuais se livraram do CID nos anos 90, pessoas gordas querem se livrar do CID agora”, explica Bianca Reis.

A psicanalista Joana Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-Rio, contextualiza a questão que, academicamente, é chamado de lipofobia. “O fenômeno mais evidente que gera essa intolerância às pessoas gordas no imaginário social chama-se moralização da beleza. Este fenômeno já foi identificado há décadas. Na década de 1970, o sociólogo [Jean] Baudrillard, pensador contemporâneo bastante pessimista, dialogando com Guy Debord, sobre a ‘Sociedade do Espetáculo’, apontou para uma faceta de um discurso dominante que responsabiliza o sujeito pela própria aparência. Ou seja, você torna a discriminação em relação à gordura socialmente validada, como se dissesse que a pessoa está daquele jeito porque quer.”

Joana explica que além da gordura ser vista como um sinônimo de má gestão do corpo, essa aparência também é erroneamente interpretada como um problema de caráter, como já apontava Baudrillard na década de 1970. “É como se enxergassem o gordo como preguiçoso, desleixado, pária. É com este contexto social que as pessoas gordas são discriminadas com tanta ferocidade.”

Independente do peso, somos todos iguais e por isso merecemos o mesmo respeito. Kalli, Bianca e Luiza são apenas três mulheres, mas existem várias outras que não precisam de uma “dica” de dieta.

*A matéria foi alterada no dia 8 de fevereiro de 2017. Um novo parágrafo foi incluso após a fala do médico.

 

 

 

 

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5 Opiniões

  1. Bruno disse:

    se a pessoa que é GORDA, ou ESTÁ GORDA, mas está se sentindo bem com sua vida, tem saúde física, tem relações afetivas positivas, e está no caminho de sua realização como ser humano, verdadeiramente, então ela É GORDA mas está bem. mas, se é GORDA, e se sente mal com isso, tente emagrecer um pouco ao invés de ficar de mimimi.
    a pessoa que é MAGRA, mas está insatisfeita com sua vida, não tem saúde, tem dificuldades em se relacionar, e angustiada em nível acima do que já nos cobra a vida, então esta pessoa, É MAGRA, mas não está bem.
    então, é assim. isso é muito relativo. tem que analisar caso a caso.
    as pessoas querem viver num mundo faz de conta, perfeito, que não existe, e “serem aceitas” isso é totalmente infantil. vejam se crescem na vida e parem de mimimi.

  2. Nancy disse:

    Ser aceito sim. Mas ser ou estar gordo / gorda reflete sim na saúde. Talvez não aos 22, se tiver sorte, mas mais tarde. É irresponsável dizer que o importante é se sentir bem. O importante é se conscientizar e fazer uma mudança de hábitos alimentares, não para emagrecer para agradar, amigos, parentes e companheiro, mas sim para diminuir o risco (alto) de doenças provenientes da obesidade.

  3. Lela disse:

    Segundo o presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro (Socerj), Ricardo Mourilhe, a obesidade é considerada um fator de risco para diversas doenças. No entanto, apenas a perda de peso não é suficiente para resolver os problemas de saúde. “Nenhuma doença é exclusiva do gordo, mas o obeso tem um risco maior causado pela própria obesidade. Uma pessoa magra pode ter as mesmas doenças de um obeso. O Índice de Massa Corporal (IMC) é apenas uma conta da relação do peso e altura e existem correlações de IMC muito elevado ou muito baixo com maior risco de doenças, mas também como parâmetro isolado, não diz muita coisa. Serve como um número para controle do peso”.

    Achei este trecho, em particular, muito desnecessário. Se o foco da matéria era a GORDOFOBIA, que consiste (principalmente) na DESPATOLOGIZAÇÃO DO CORPO GORDO, por que reafirmar esta ideia de que somos um grupo de “risco”? Sinceramente, não tem nada a ver! Por sermos considerados um “grupo de risco” que a maior parte das nossa doenças não são diagnosticadas! Porque focam nas doenças “de gordo”, que acham que todo gordo deve ter, ignoram problemas que podem ser sérios, como a moça mencionada que tinha UM CÂNCER.

    Então esta matéria que poderia ser ótima, acabou sendo contraditória e um desserviço à luta contra a gordofobia.

  4. Carlos Valoir simões disse:

    O parágrafo incluso não melhora nada. A verdade é que a patrulha do “politicamente correto” não nos permite ser sinceros e falar claramente sobre um assunto. O cuidado revelado ao tratar do tema é a prova do que a sociedade realmente pensa.

  5. Lucinda Telles disse:

    Magro e Gordo não são “um adjetivo qualquer”, como diz o texto; são antônimos. Logo, se dizemos que um representa o bem, o outro necessariamente terá que representar o mau. Não é uma questão de medicina-social, é gramatical e filosófica.

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