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A morte é o fim?

Perturbando o descanso de Pablo Neruda

América Latina recorre à exumação para enterrar fantasmas do passado

Perturbando o descanso de Pablo Neruda
Neruda foi exumado por suspeitarem que sua morte não foi em decorrência de câncer, mas sim envenenamento (Reprodução/Internet)

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Morto há 40 anos, o poeta chileno Pablo Neruda teve seus restos mortais exumados na última segunda-feira, 8. O objetivo é esclarecer a suspeita de que o poeta teria morrido em decorrência de envenenamento, ao invés de câncer de próstata, como diz a versão oficial.

Recentemente, outros ícones hispânicos tiveram o mesmo destino. Em 2011, Salvador Allende, presidente chileno deposto durante a  ditadura militar, teve seus restos exumados para comprovar se o suicídio foi a verdadeira causa de sua morte. Em 2010, Hugo Chávez ordenou a exumação de seu ídolo, Símon Bolívar, por acreditar que o militar havia sido morto por envenenamento. Em 2008, um juiz espanhol autorizou a exumação de uma vala comum em Alfácar, Espanha, para comprovar se aquele era realmente o local onde o poeta Federico García Lorca foi enterrado após ser morto pelo regime militar.

Há algo de gótico em trazer de volta os restos daqueles que já se foram. A onda de exumação nos faz questionar se a morte é realmente o fim. No caso de Neruda, a exumação se baseia no depoimento do ex-motorista do poeta, que afirmou no dia de sua morte que Neruda havia recebido uma injeção.

Exumar ícones é uma maneira de lidar com a culpa e com os fantasmas que rondam a América Latina. Neruda tem um lugar especial neste passado sombrio. Ainda hoje, seus poemas inspiram milhares de pessoas e seus versos ideológicos embalam revoluções que vão desde a queda do muro de Berlim até a Primavera Árabe.

Inicialmente a Fundação Pablo Neruda não apoiou a decisão de exumar os restos do poeta. Contudo, a decisão foi levada adiante por chilenos que, paradoxalmente, desejam enterrar o passado através da exumação.

Mas Neruda está além de questões tão pequenas. Ele é o poeta do eterno presente, que nos revelou que a poesia é o melhor antídoto contra a opressão. Os ideais passados por Neruda permaneceram na mente dos chilenos, como uma forma de subversão que ajudou a derrubar a ditadura. No campo físico, o poeta está morto, mas no campo espiritual sua mensagem continua tão viva quanto antes.

Fontes:
The New York Times-Disturbing Pablo Neruda’s Rest

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