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Por que as ‘escadas para lugar nenhum’ fazem sucesso?

Além das escadas, arquibancadas inspiram design moderno de assentos superpostos ideais para reunir pessoas em ambientes corporativos e em encontros sociais

Por que as ‘escadas para lugar nenhum’ fazem sucesso?
The Vessel é inspirada em andares de poços indianos e proporciona uma vista deslumbrante de Weehawken (Foto: Raphe Evanoff/Flickr)

Gostamos de olhar os outros de uma posição mais alta e de sermos olhados como seres superiores. Com essa ideia em mente, o arquiteto Morris Lapidus projetou a grande escadaria do Hotel Fontainebleau em Miami. Em sua visão, ele criara uma “escada que conduzia a lugar nenhum”, porque sua única função era de ser um meio de locomoção entre o hall do hotel e uma chapeleira, onde as pessoas deixavam seus casacos e, em seguida, desciam a escada, atraindo a atenção dos que estavam no hall.

Sessenta e cinco anos depois, a nova “escada que conduz a lugar nenhum”, assemelha-se a arquibancadas. É um sucesso em projetos arquitetônicos dos últimos dez anos.

É uma noite de sexta-feira no restaurante Wharf, em Washington D.C., no bairro histórico de Anacostia, onde os assentos sobrepostos em fileiras dão acesso ao bar ao ar livre, o Cantina Bambina.

Jovens sentam-se nos lugares mais altos para encontrar amigos e assistir aos shows do outro lado da rua. Uma adolescente dança em uma das filas de assentos. O garçom sobe e desce para atender aos clientes. Esses assentos comunitários ajudam a criar um clima de festa.

Além de restaurantes, casas de shows e espetáculos ao ar livre, as grandes empresas de tecnologia como Slack, Evernote, Amazon Ring e Facebook, adotaram essas arquibancadas sofisticadas para que os funcionários se sentem, trabalhem, façam reuniões, entre outras atividades. Os assentos superpostos substituíram algumas mesas nos restaurantes Sweetgreen e Beefsteak. Estão sendo usados também no hall dos hotéis Line e Eaton em Washington D.C.

“Os degraus usados como assentos lembram-me um teatro ao ar livre”, disse Nico Wright, sócio do escritório de arquitetura CMG Landscape Architecture, em São Francisco. “Eles são ótimos para observar as pessoas, se reunir com amigos, ou apenas relaxar”.

Das pirâmides maias à escada em estilo espanhol do Lincoln Memorial, as escadas, apesar do lado funcional de locomoção, têm um aspecto simbólico, o de nos levar a espaços sagrados. “Em uma metáfora, seria a escada que conduz ao céu, ou seja, a lugar nenhum”, observou Val Warks, professor de arquitetura da Universidade de Cornell. 

The Vessel, uma das mais recentes atrações turísticas de Nova York, é uma obra de arte interativa do artista Thomas Heatherwick, inspirada nos andares de poços indianos construídos em 650 d.C. Os visitantes podem subir as escadas internas da obra e ao chegarem ao final de seus 46 metros de altura têm a vista deslumbrante de Weehawken, em New Jersey.

Em torno de 3.000 a.C., os sumérios ergueram os  zigurates, monumentos construídos em patamares. “Dois mil anos depois, as arquibancadas em formato de anfiteatro popularizaram-se na Grécia antiga”, disse Brian Rose, professor de arqueologia da Universidade da Pensilvânia. Em  80 d.C., as arquibancadas do Coliseu obedeciam a uma hierarquia rígida. Os romanos ricos e influentes sentavam-se nos lugares próximos à arena, enquanto o povo distribuía-se pelos lugares mais distantes. 

Nos atuais locais de trabalho, dizem os arquitetos, os assentos superpostos criam um ambiente informal, locais de convívio sem hierarquias. Mas, assim como outras inovações no design de escritórios, esses assentos que servem para várias atividades são uma forma de aproveitar melhor os espaços de salas pequenas.

Mas as experiências quanto ao seu uso divergem. Emily Stock, especialista em relações entre mídia e público da Universidade de Duquesne, em Pittsburgh, foi convidada para fazer uma conferência na sede da PayPal, em Nova York. Ao chegar no local, lhe disseram que usaria uma parte dos assentos superpostos do escritório como local de trabalho. 

“O assento tinha uma almofada, mas não havia nada para proteger as costas ao me apoiar na base do outro assento”,  disse Emily. Depois de um dia digitando anotações no laptop, sentiu uma dor terrível na coluna. “Tenho 24 anos, mas após dois dias e meio de trabalho, me senti como uma pessoa de 84 anos. Não são assentos confortáveis em que se possa passar mais de algumas horas”.

Alguns arquitetos já discutem propostas de substituição desses assentos. Segundo Primo Orpilla, diretor e fundador do escritório de arquitetura O + A, as empresas de tecnologia inspiram-se há anos em objetos e móveis usados na decoração de salas de recreação para criar ambientes de trabalho lúdicos. Ele compara os novos assentos aos pufes, um objeto de decoração chique e descolado do final dos anos 1990. “São modismos como quaisquer outros”, acrescentou.

Fontes:
The Washington Post-Stairs to nowhere are everywhere these days. Where are they taking us?

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