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Por que o passado parece melhor que o presente?

A resposta pode estar no próprio organismo, que tende a minimizar as lembranças ruins e hipertrofiar as boas. Por Fernanda Dias

Por que o passado parece melhor que o presente?
Imaginário costuma ser mais atraente que a realidade (Reprodução/Internet)

Basta um grupo de amigos ou familiares se reunir para o passado tomar conta da conversa. “Ah, que saudades daquele tempo”, diz um. “Era mesmo um tempo bom, que não volta mais”, retruca outro. Mas, por que o passado, quase sempre, parece melhor do que o presente?

Para a chefe do setor de psicoterapia da Santa Casa da Misericórdia do Rio, Vera Lemgruber, a resposta está no próprio organismo, que tende a minimizar as lembranças ruins e hipertrofiar as boas:

“Nosso cérebro tem uma área, chamada hipocampo, que é especializada em armazenar as memórias carregadas de afetos. Se essa área é ativada diversas vezes, o engrama (a marca da memória) fica ainda mais reforçado. Isso significa que, quanto mais nos lembrarmos de determinada situação, mais ela ficará carregada de afetos positivos. E os negativos vão se apagando”.

Além disso, segundo Vera, a fantasia costuma ser sempre mais atraente e mais rica do que a realidade factual. “É mais fácil se criar um mundo fantasioso de felicidade do que encarar uma realidade insossa ou com muitos problemas a serem enfrentados”, ressalta ela.

Um estudo publicado em 1988 no Journal of Personality and Social Psychology  (Jornal da Personalidade e Psicologia Social, uma das publicações acadêmicas da Associação Americana de Psicologia) aponta outros fatores que podem explicar o por quê o passado parece melhor que o presente. Segundo os pesquisadores, as pessoas costumam julgar uma coisa sempre em relação a outra coisa. Por exemplo, quando dizem que um show é excelente, elas querem dizer que é excelente em comparação a outros espetáculos que já viram. Ao pensarem sobre os eventos no passado, elas se lembram da avaliação que deram a esses eventos, mas não a razão para essa avaliação. Assim, lembramos que um concerto que assistimos na escola foi maravilhoso, mas esquecemos de que tal julgamento foi feito com base em todos os concertos que tínhamos visto até aquele momento. De acordo com os pesquisadores, o adulto, com uma base mais ampla de experiência, precisa de algo realmente surpreendente para ficar impressionado.

Ainda segundo o estudo, nós tendemos a pensar sobre o passado distante de forma mais abstrata: os pequenos aborrecimentos do dia a dia, como contas a pagar, decisões a serem tomadas, não vêm à tona. Além do mais, ao refletirmos sobre eventos passados, sabemos como eles acabaram. A incerteza é estressante, e, assim, o presente muitas vezes parece menos agradável porque ainda estamos esperando o desfecho de empreendimentos e problemas que fazem parte da nossa vida agora.

Vale a pena manter em mente que o passado nunca foi tão livre de estresse como parece quando se olha para trás. A professora do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Maria Luiza Bustamante Pereira de Sá ressalta que precisamos desenvolver  uma certa desconfiança e maior auto-análise, já que a memória não é sempre confiável:

“O distanciamento no tempo abre espaço para elaborações. Com o passar do tempo nossa memória fica mais seletiva, e, então, vamos enfatizar mais o que nos dá mais satisfação. Também aquilo que ficou mais traumático fica mais gravado e evoca mais dor”.

O saudosismo em excesso pode acabar se tornando uma fuga da realidade, o que torna a pessoa que busca esse mecanismo de escape desajustada do mundo ao seu redor.

“Geralmente os deprimidos, em vez de se lembrarem de situações positivas, tendem a  ressaltar os aspectos negativos do seu passado. Com isso, muitas vezes, projetam no futuro esse negativismo, o que gera uma espécie de desesperança que retroalimenta a depressão”, afirma Vera.

Se bem dosado, no entanto, o saudosismo pode ser positivo, na avaliação de Maria Luiza Bustamante, pois “dá sentido à vida presente”: “É olhando o passado positivo que nós podemos tirar lições para um futuro melhor”.

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17 Opiniões

  1. Weliton Maciel disse:

    Excelente artigo! Compartilhei com vários amigos! Parabéns!

  2. Josi Q. Lima disse:

    ” É olhando para o passado que podemos ter força para superarmos ou transformar o prsente que nos é dado, em algo melhor, o passado tanto pode ser lembrado com alegria ou magoas, mas é valido ressaltar aqui que ele deve ser um alicerce para que possamos nos auto corrigir o que fizemos, para que não seja repetidos os mesmos erros e continuar a alimentar o que nos trouxe alegrias, o que nos melhorou como seres humanos !
    ” Um rio nunca será o mesmo pois sempre se renova e ao mesmo tempo que leva deixa marcas, para no fim desembocar em um mar, assim somos nós trazemos lembranças positivas e negativas para construirmos algo que não nos é dado, mas sim alcansado por nós e transformado em presente!

  3. Carlos U. Pozzobon disse:

    Não há um único olhar sobre o passado. Depende do que se trata. Se o passado estiver sendo perscrutado como referência tecnológica, ele sempre será pior do que o presente. Ninguém poderá ter saudades de andar de carroça, ou de esperar 40 minutos por uma ligação interurbana. Se estiver relacionado à saúde física, sempre que uma pessoa provecta olha para trás vai encontrar sua juventude, que nas suas memórias positivas, era risonha e feliz. E tem o ditado “eu era feliz e não sabia”, apontando para um fato peculiar do presente que, imprevisto, foi capaz de torná-lo bem pior do que o passado. Mas não gosto muito de pessoas que estão sempre olhando para trás. Acho que tem algo de decadente. A razão de viver pode ser descrita como a necessidade de criar coisas novas, e isto quer dizer que se espera no mínimo que o futuro seja diferente e melhor do que o passado, a menos das perdas do presente, que podem muito bem tornar o passado melhor. Ninguém vai achar que ter perdido um bom emprego, um braço, um ente querido, vá ser uma condição melhor do que o passado.

  4. Áureo Ramos de Souza disse:

    lENDO ESTA REPORTAGEM NO MOMENTO QUE ESTOU ESCUTANDO MILTINHO LEMBRANDO DOS MEUS BONS TEMPOS. TENHO 65 ANOS, O PASSADO PARA MIM FOI MARAVILHOSO E SE PUDESSE VOLTAR EU AGRADECERIA A DEUS.

  5. José Ney Titericz disse:

    Parece que foi ontem… mas há lembranças desagradáveis que às vezes vem à tona, principalmente, quando presenciamos situações similares àquelas do passado… Parabéns pela colocação científica…

  6. Markut disse:

    O passado, mesmo “filtrado” é essencial. O equilíbrio estaria em lembrar tanto os bons como os maus momentos, estes já superados e aqueles sempre prazerosos.
    O tempo e o hipotálamo se encarregam das necessárias doses de fantasia.

  7. Jhonny disse:

    Do meu passado eu só sinto falta da liberdade que tinha-mos para brincar na rua sem se preocupar em levar uma bala na cara, e da quantidade de coisas que eu fazia antes da internet, por incrivel que pareça eu fazia muito mais quando ñ tinha net em casa… eo “pior” só tenho 20 anos tenho muito o que sofrer ainda ahuahauah

  8. Maria Regina Emiliano Gomes disse:

    Acredito piamente que o presente poderá ser melhorado a partir, das experiências vivenciadas no passado. Gostei do que já vivi, gosto do que estou vivenciando e ainda tenho certeza que estou traçando um futuro legal para mim…Não me sinto utópica, só não sirvo para viver de lembranças e viver criticando negativamente do que dispomos na atualidade..

  9. Maria Regina Emiliano Gomes disse:

    È ilusão acreditar que o passado é melhor do que o presente. A civilização humana está em constante mudança e na maioria das vezes o que foi “boom” no passado, hoje é tido como “fora do contexto”, indispensável. Cada época tem suas características predominantes ao momento vivido. Ocorreram acontecimentos notórios no passado, como ocorrem acontecimentos notórios no nosso tempo…

  10. joel magari disse:

    nove comentários que nada acrescentaram.

  11. flavia j disse:

    Inclusive o seu (e o meu) né joel?

  12. Keila disse:

    Sinto falta do passado.o agora parece que não tem graça.acordei estranha,lembrando as sensações de infância e adolescência.

  13. Lucas Lima disse:

    Discordo, de certa forma. No meu caso, me sinto muito apegado ao passado e o presente pra mim não tem mais nenhuma importância,
    sinto que meu passado foi muito melhor do que o hoje, e não tenho mais esperança para o meu futuro.

  14. Paulo R Julien disse:

    O PASSADO VEM NA MENTE E BROTA NO FUNDO DO CORAÇÃO…UMA SENSAÇÃO ESQUISITA QUE DÓI MAS É GOSTOSA AO MSM TEMPO.. PARECE ALGO SUPERIOR QUERENDO NOS MOSTRAR COMO ERAM OS FELIZES…NÃO QUE NÃO SEJA AGORA; POIS TENHO FAMÍLIA COM ESPOSA, FILHOS E NETOS..MAS ESSA VOLTA AO PASSADO (MAIS NA ADOLECENCIA) SE DÁ QDO ESTAMOS SOZINHOS OU OUVINDO MÚSICAS DA ÉPOCA…

  15. João P disse:

    Hoje posso afirmar que : SIM , fui feliz !!
    Em minha infância/adolescência . ( Sou de 88 ) Hj ? Ah , hoje …Apenas levo a vida , com objetivos ? SIM !! Olhando para frente ? SIM !! Más tenho certeza que NUNCA serei feliz como um dia fui ( e não tinha noção ) . Sou Saudosista SIM , curto muito assistir programas , novelas ( Sou noveleiro , rs ) , música, etc .. tudo que fez parte dessa época , Infância/ adolescência !! Enfim …
    Saudade de vc : ANOS 90

  16. Iran Costa disse:

    Interessante ver comentários em 2018 de uma publicação de 2011. Chega a ser saudosista isso. Pois tenho saudades de certas situações de 2011/2012, minha vida mudou muito mas sei que naquela época também tinha problemas, mas que hoje julgo mais suaves do que hoje (e talvez nem sejam).

  17. Oliver winer disse:

    Tenho uma saudade absurda dos anos 80.Bons tempos!

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