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Exames

Avaliar para quê?

Por Patrícia Costa

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Em qualquer país que leve a sério sua política educacional, criar um sistema de avaliação de desempenho de sua rede de ensino é um dos mecanismos válidos para aferir a sua qualidade e identificar os desvios e os problemas de percurso para, então, criar políticas públicas que os corrijam. No entanto, quando governos e até entidades particulares começam a usar os resultados dessas avaliações para criar rankings e classificar escolas, alunos e professores, como um marketing educacional, é sinal de que algo está muito errado. É a opinião da especialista em avaliação educacional da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Isabel Cappelletti.

“O Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), por exemplo, já tem mais de 20 anos. Mas tem poucas publicações, é uma avaliação feita por amostragem, não tem destaque na mídia. E deveria servir para ajudar os governos a estabelecer políticas públicas, mas isso ainda não aconteceu”, destaca. A professora Isabel chegou a fazer uma pesquisa sobre os resultados dos exames nacionais e suas ligações com políticas educacionais, e descobriu que a comunicação administrativa é muito ruim: “A maioria dos professores nem chega a conhecer os resultados. Se a informação chega na diretoria de ensino, não chega na escola. Se chega na escola, não chega no professor”.

Prova única num país diverso

Outro problema que ela identificou diz respeito ao tipo de avaliação. “As provas são sempre feitas em cima de uma expectativa ideal, e nem sempre a escola consegue corresponder a esse patamar. E uma avaliação nacional única, e feita num só dia, para um país tão grande como o nosso é muito difícil. Temos estados com níveis de desenvolvimento muito díspares. Como comparar a qualidade do ensino de uma escola do centro de São Paulo com uma outra do interior do Maranhão? É muito injusto.”

Além do Saeb, lançado em 1990, o governo federal criou, em 2005, a Prova Brasil e, em 2008, a Provinha Brasil, voltado para alunos em fase de alfabetização. Ambas as avaliações têm o mesmo objetivo: medir a qualidade do ensino a partir do conhecimento do aluno. Para Isabel, é uma distorção. É que, segundo ela, a década de 90 se caracterizou por uma grande concentração de esforços para colocar todas as crianças em idade escolar na escola. “Quase todos entraram no ensino básico, mas não houve um preparo para receber esse grande contingente. O que vimos então foram escolas inchadas, salas de aula superlotadas, professores sem condições de trabalho. Ao mesmo tempo em que o governo tornou obrigatório o ensino de 7 a 14 anos, não garantiu as condições mínimas para educar esses alunos”.

O resultado aparece nas avaliações nacionais, a cada ano: o desempenho dos estudantes do 5º ano (antiga 4ª série) e do 9º ano (antiga 8ª série) do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio sempre abaixo do esperado. E esse desempenho também é baixo em avaliações internacionais, como o Pisa, desenvolvido pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), cujo objetivo é medir a efetividades dos sistemas educacionais dos países membros, a partir de provas feitas por alunos de 15 anos.

O polêmico Enem

Quando foi criado, em 1998, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tinha o objetivo de medir a qualidade da educação dessa modalidade de ensino. Mas nunca chegou a cumprir o seu destino, para a educadora Isabel Cappelletti. “O Enem já nasceu com um diferencial, porque seu resultado era só conhecido pelo próprio aluno. Só que até para seleção de emprego ele começou a ser usado como critério. Além disso, um exame que é feito depois que você sai do curso não serve para nada, e existem pesquisas comprovando isso.” Até para a função de degrau para o ensino superior, o Enem era falho, segundo ela, pois era usado como critério para a primeira fase do vestibular mas, na segunda fase, o aluno se submetia à prova da universidade.

No entanto, será que agora, com o Novo Enem, as coisas vão mudar? Pouca coisa, talvez, para a professora Isabel: “Do ponto de vista da racionalização do vestibular, vai melhorar, pois acaba com aquela maratona de provas que o aluno começava a enfrentar em novembro e terminava só em fevereiro ou março, fazendo provas para diversas universidades e gastando um dinheirão com isso. Agora, se o Novo Enem continuar sendo critério apenas para a primeira fase, na segunda fase ele poderá ficar retido. E vai acabar sendo uma mudança vazia”.

Investir no professor é a saída

Ela defende que, para melhorar a qualidade da educação, não basta avaliar o aluno. A saída é investir no professor. Melhorar os salários, melhorar a formação, melhorar as condições de trabalho. “Professor tem de ser formado em serviço, trabalhando, mas, antes de tudo, o salário tem de ser bem melhor, para poder atrair pessoas para o magistério. Professor hoje não tem dinheiro nem para comprar livros, para buscar aprimoramento. Não tem jeito. Tem de haver muito mais investimentos na educação. É uma questão de sobrevivência da própria sociedade como um todo”, conclui a especialista.

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  1. Daniele de Vasconcelos disse:

    Acredito sim que o salário dos professores precisa melhorar muito, mas não com este objetivo de atrair mais pessoas para o magistério, e sim para melhorar a qualificação de quem gosta do que faz,porque a educação só vai melhorar se passar uma peneira e nela ficar só quem realmente acredita nos alunos que tem.
    e estas por pior que pareça, são felizes com o que fazem, e o salário seria uma valorização profissional!!

  2. Daniele de Vasconcelos disse:

    Acredito sim que o salário dos professores precisa melhorar muito, mas não com este objetivo de atrair mais pessoas para o magistério, e sim para melhorar a qualificação de quem gosta do que faz,porque a educação só vai melhorar se passar uma penira e nela ficar só quem realmente acredita nos alunos que tem.
    e estas por pior que pareça, são felizes com o que fazem, e o salário seria uma valorização profissional!!

  3. Regina disse:

    Acredito na Educação de qualidade, mas com professores mais comprometidos, interessados no futuro de uma nação.

  4. Ana Cláudia Simões dos Santos disse:

    Num país como o nosso, acho isso um descabimento eleitoral, sócio-político, anti-democrático, superficial como disse meu amigo acima, onde se é necessário abordar estratégias de marketing, uma vez que os professores em sala de aula nem sabem o que estão fazendo lá, como muitos alunos. A tarefa não é só cativar o aluno, é ensinar, é fazer saber pensar, é inovar, é fazer tudo diferente do que se tem sido feito até agora. Desde a entrada na sala de aula, até o próximo dia de aula. Nossa Nação que não é Nação está acéfala há muito tempo. Respondendo a pergunta: Avaliar pra quê? PARA MUDAR, Para daqui a cem anos tudo ser diferente do que é agora. Já que mudanças parecem mais com atrasos em nosso país de burgueses.

  5. Alvaro Spadim disse:

    Sr. José Luiz Costa;
    Concordo com sua posição; nossos pensamentos são convergentes. O que discuto – e por isso discordei do artigo – é a mesmice com que o assunto é tratado: ora o culpado são os baixos salários, ora os alunos e a desmotivação com que frequentam as aulas e ora os governantes com a tradicional falta de política pública para a Educação.
    É preciso inovar; é preciso discutir a Educação brasileira com parâmetros transparentes. Afinal, a quê se propõe a nossa Educação? O que queremos, formar jovens emancipados e capazes de discutir a realidade do entorno ou queremos prepará-los para o competitivo mercado de trabalho? Ou queremos algo diferente?
    Com qual proposta os professores concordam e qual é proposta dos professores em escala nacional? Há, grosso modo, professores no sentido estrito da palavra ou há uma infinidade de Licenciados trabalhando pelo salário? Quantos professores mantém a ideologia de outrora?
    Por isso, e muito mais, meu posicionamento foi contrário ao artigo; é impossível dialogar assunto tão complexo em poucas palavras ou com idéias tão restritivas. O mundo escolar (e o senhor bem sabe disso) é amplo, complexo, mutável e continuamente modificado pela linguagem, comportamento e interesse das novas gerações que se sucedem. O professor, em apenas 10 anos, trabalha com jovens de universos muito diferentes e acaba tendo de se adaptar às realidades impostas, portanto, não será uma ou outra mudança pontual que resolverá os problemas existentes em sala de aula e no espaço escolar.
    Não vou me alongar mais, pois aqui não é o espaço adequado para darmos continuidade a nossa particular discussão, mas desde já agradeço seus comentários.

  6. José Luiz Costa disse:

    @Alvaro Spadim, também vejo na educação um dos principais caminho para uma transformação da sociedade, senão o único. Pode até ser que existam alguns professores que não têm nenhum compromisso com a eduação. Mas o que eu sinto, como professor, é que nesta relação diatética a educação parece ter se tornado um artigo mais que secundário; não só por parte daqueles que são os nossos receptores diretos (pais e alunos), mas também daqueles que são responsáveis pela implementação de políticas públicas. Tudo (educação, saúde, emprego, moradia etc) aqui no Brasil, tem que ter a “cara” do governante do momento. Não se faz política pública continuada em nenhum destes segmentos. Todo político que assume o poder, quer mudar a forma de trabalho porque parecem querer “bater no peito” para sairem por aí dizendo: “Fui eu que fiz”. Parece que nós, professores comprometidos com a educação, podemos nos comparar como uma foca que está nadando de encontro a um grupo de baleias orcas, tendo que fazer um malabarismo incrível para não sermos devorados. Falo isso porque tudo o que acontece acaba sendo culpa do professor; ou melhor, o professor acaba sempre como “bode expiatório”.
    Obrigado pelo comentário e desculpe-me pelo desabafo.

  7. Alvaro Spadim disse:

    @José Luiz Costa, como afirmei em meu comentário, é impossível discutir este assunto em poucas linhas. Por princípio acredito que todas as opiniões são válidas, principalmente as de cunho positivo.
    Vejo a educação como algo singular no seio de uma determinada sociedade e – assim como inúmeros autores – acredito que a educação pode reproduzir ou transformar toda e qualquer sociedade. Entretanto, a(s) sociedade(s) possui/(possuem) outros mecanismos de produção, reprodução e transformação do espaço social que se opõe à educação, ou seja, como o senhor afirmou “o ter se impõe sobre o ser”, de forma que a relação dialética é uma conjuntura social na(s) sociedade(s) contemporânea(s). Mas nem por isso a educação é artigo secundário; ao contrário, é a partir desta realidade que a educação ganha contornos mais significativos, de forma que toda a criança/jovem necessita de professores capazes a orientá-los durante sua formação acadêmica.
    Somente o suporte dado por professores realmente comprometidos com uma educação de qualidade é capaz de ampliar o horizonte desta nova geração, proporcionando-lhes (novos) mecanismos para a transformação do entorno e de suas próprias realidades.
    Obrigado pelo comentário e desculpe-me pela extensa resposta.

  8. Ivo disse:

    O grande problema do Brasil são os recursos para que se viabilize programas de aperfeiçoamento para professores e crie-se condiçoes favoráveis de estrutura para atender necessidades satisfatórias para que a formação dos jovens seja no mínimo razoável. Pois os referidos recursos estão sendo alocados em outras prioridades, tais como contratação de parentes, superfaturamento de obras, propinas e comissões pagas em todos os níveis, remuneração de parlamentares que recebem salários absurdos e se aposentam com oito anos de mandato, e não de trabalho.

  9. José Luiz Costa disse:

    @Alvaro Spadim,
    O problema não está só na transmissão ou na não transmissão do conhecimento. É preciso pensarmos: qual é o papel da escola hoje? A busca do saber pelo saber já não atrai nossas crianças como há alguns anos atrás. O conhecimento, que nós professores temos para transmitir para estas gerações, parece que caiu num desencantamento profundo. Antes, conhecer trazia status. E o que traz status hoje? Com certeza não é o conhecimento que adiquirimos nas universidades e muito menos aquele que é transmitido de geraçaõ para geração,ou seja, aquele transmitido pelos nossos pais e avós. Nesta sociedade extremamente consumista, o ter (e neste caso o conhecimento não faz parte desta lista de produtos que queremos adiquirir) se impõe em relação ao ser. Aí eu me pergunto: Que sociedade estamos construindo? Ou ainda: Que sociedade esperamos para o futuro?
    Agora, faço uma pergunta não só a você, mas para todos nós: De que adianta melhorarmos a qualidade do ensino quando nossos alunos (receptores deste saber) parecem estar vivendo em um outro mundo? Ou seja, não se importam mais com o conhecimento.
    Isto porque eu, e acho que todos nós que estamos discutindo isto, vemos o conhecimento como um valor; sim, como um valor humano.
    Desta forma, vejo que o problema não está apenas na educação e sim, em toda a estrutura social e humana. E a educação, infelizmente está aí no meio.

  10. Markut disse:

    Partindo do final do comentário: A questão do ensino é,de fato, questão de sobrevivência da própria sociedade.
    A partir daí, surpreende-me a insistência em apresentar soluções salvadoras, todas “extra família”.
    Em nenhum momento se colocou o fundamental papel da família do estudante,nesse vital objetivo social da escolaridade competente.
    Basta ver a lamentavel e criminosa distorção que o incipiente Bolsa Escola sofreu, transformado nesse demagógico Bolsa Família, hoje totalmente distorcido.
    A anomia da família é parte ponderavel , não só ela, é claro, dos péssimos resultados obtidos, nas mais diversas avaliações.

  11. Evandro Correia disse:

    Prezado Luiz Antonio
    Aprecio muito seus comentários. Mas saiba que escrever em MAIÚSCULAS é tido como indelicadeza na Internet. É como se você estivesse gritando.

  12. luiz antonio vieira barbi disse:

    COISAS DO BRASIL PETISTA-LULISTA….

  13. Alvaro Spadim disse:

    Discutir assunto tão complexo em poucas linhas é impossível. O artigo aborda (superficialmente) algumas das muitas variantes encontradas no âmbito educacional, mas na síntese, não inova.
    Há muito a sociedade discute a qualidade do ensino brasileiro e é preciso continuar a fazê-lo, entretanto é preciso inovar.
    A minha esposa é professora e, acreditem, o salário dá para comprar livros. Investir no professor deve ser prioridade de todo e qualquer governo, mas deve haver contrapartida imediata. Muitos professores não repassam o conhecimento adquirido aos alunos; são egocêntricos e mantém postura arcaica: doutores e armários do “saber”.
    Avaliar é algo ainda mais complexo,pois não há critérios justos para fazê-lo, a não ser que fosse possível individualizar a avaliação. Poder-se-ia criar mecanismos de comparação entre o regional e o nacional e entre o público e o privado, mas antes seria preciso adotar critérios objetivos do que se espera do aluno, do professor, da escola e do sistema educacional como um todo; não há até hoje uma convergência sobre o assunto.
    Enfim, como eu disse no início, é impossível abordar este assunto em poucas palavras.