Início » Vida » Meio Ambiente » Biocombustíveis: risco para a produção de alimentos?
Energia alternativa

Biocombustíveis: risco para a produção de alimentos?

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

 http://www.colegiosaofrancisco.com.br

Em meio à transformação que o clima do planeta vem sofrendo, os biocombustíveis surgem como uma alternativa ao uso de combustíveis fósseis, que contribuem para a elevação da temperatura global ao emitirem gases poluentes durante sua queima. No entanto, já se discute os pontos negativos da produção dessa energia alternativa.

Entre esses aspectos estaria o risco da falta de alimentos ou da elevação dos preços desses produtos — pontos evidenciados por relatórios internacionais, entre os quais se destacam dois documentos divulgados em outubro, do Banco Mundial (Bird) e da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo esses relatórios, além de aumentar os preços dos alimentos, os biocombustíveis poderiam aumentar a disputa pela água. Em meio à discussão do assunto, produtores agrícolas têm defendido a idéia de que o problema da fome no mundo não se relaciona à produção de biocombustíveis porque está ligado à falta de recursos para comprá-los e não à sua oferta.

O Brasil é o segundo maior produtor mundial de etanol, utilizando a cana-de-açúcar como base. Fica atrás apenas dos Estados Unidos, que usam o milho para produzir esse biocombustível. O engenheiro Roberto Schaeffer — membro do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) e pesquisador da COPPE/UFRJ, que participou de debate sobre este tema no British Council do Rio de Janeiro em 28 de novembro — afirma que o álcool de cana brasileiro é mais produtivo, mais barato e não traz os problemas que o etanol de milho apresenta.

Segundo Schaeffer, o Brasil pode aumentar sua produção de biocombustíveis sem comprometer o meio ambiente e a produção de alimentos, utilizando áreas já degradadas pela agricultura extensiva ou pelo gado. Se essas áreas forem aproveitadas para a produção de energia, não será necessário causar mais desmatamento em busca de espaço para essa atividade.   http://www.arguscaruso.com.br

O risco de a Amazônia sofrer mais desmatamento para ceder áreas para a plantação de cana-de-açúcar é uma questão discutida com freqüência. Para Schaeffer, trata-se de uma possibilidade remota, já que a região não tem solo e clima apropriados para essa produção como o sudeste brasileiro apresenta. "O que pode ocorrer eventualmente", diz o pesquisador, "é um efeito de segunda ordem, quer dizer, é a cana-de-açúcar deslocar, por exemplo, o gado; deslocar algum outro tipo de cultura alimentar, e esse gado ou essa cultura alimentar, eles sim, entrarem Amazônia adentro". Um outro fator que torna a Amazônia menos interessante para os canaviais é o escoamento da produção. Além de a maior parte do consumo de álcool se concentrar na região sudeste, é ali que, pela proximidade da costa, há mais facilidade para o transporte e a exportação.

O engenheiro enfatiza, no entanto, que enquanto a produção de álcool poderia crescer sem causar preocupações, o caso do biodiesel é diferente. "Como você não tem nos biocombustíveis, no biodiesel, plantas com a produtividade que o álcool tem a partir da cana, de fato existe o risco de, em você não sendo seletivo sobre onde vai ter a sua cultura para produção de biodiesel, ter sim a competição alimento versus energia. (…) Você tem que talvez repensar melhor o programa, adaptar melhor a escala dele para que possa se desenvolver da maneira que seria desejável. (…) É uma questão de vontade política, de planejamento. É possível sim, desde que bem feito".

Além disso, segundo Schaeffer, mesmo a produção de etanol da cana precisa ser feita com planejamento e dentro do que se considera desejável. "Na medida em que vários países do mundo começam a produzir álcool ou biodiesel e com isso começam a comprometer a sua agricultura doméstica, naturalmente o valor de outros produtos agrícolas também se eleva. É possível aumentar a produção doméstica de álcool, é importante e possível o Brasil ser um grande exportador de álcool, mas não é desejável que o Brasil seja a nova Arábia Saudita do álcool no mundo".

 

Biocombustíveis são apenas parte da solução para aquecimento global

"O problema da mudança climática vai muito além dos biocombustíveis, vai muito além de álcool e biodiesel", afirma Roberto Schaeffer. "Os biocombustíveis virão a ter um papel importante a cumprir, mas eles não serão a solução para o problema mudança climática".

O climatologista Carlos Nobre, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), concorda com Schaeffer. Em entrevista à UOL, ele enfatizou que os biocombustíveis substituirão apenas uma pequena parte das emissões de gases do efeito estufa. Nobre destacou ainda que seria um grande erro utilizar áreas florestais para a produção de biocombustíveis, já que o desmatamento aumenta a emissão de carbono mais do que a utilização de combustíveis fósseis.

Em artigo publicado no site do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, o secretário-executivo do Fórum, Luiz Pinguelli Rosa, levanta um questionamento: é possível enfrentar mudanças climáticas sem alterar os padrões de consumo de energia? "Alguns propõem soluções tecnológicas — algumas extravagantes, como satélites com espelhos para refletirem a luz solar, outras factíveis como carros híbridos elétricos, pilhas a combustível, energia eólica e solar ou nuclear, seqüestro do CO2, melhorias na eficiência dos equipamentos", afirma Pinguelli em seu texto. "Porém, é necessária a racionalização como, por exemplo, reciclar e fazer uso energético de resíduos, proibir grandes carros ou enormes camionetes pesadas de uso pessoal urbano que consomem gasolina, estimular o álcool, estimular o uso do transporte coletivo nos centros urbanos".

Schaeffer, que também acredita em uma mudança nos hábitos de consumo como contribuição ao combate às mudanças climáticas, levanta uma reflexão sobre o uso dos transportes. "Do ponto de vista ambiental, o carro mais limpo do mundo é mais sujo que o ônibus mais sujo do mundo. O ônibus mais limpo do mundo é mais sujo do que o trem mais sujo do mundo". No entanto, conforme o especialista destaca, o carro ainda deverá ser utilizado por bastante tempo. E, para isso, deve-se pensar no tipo de combustível que o veículo irá consumir.

O engenheiro afirma que os carros do tipo flex trazem mais segurança aos consumidores, que podem escolher o seu combustível numa crise de álcool ou de gasolina, do que propriamente uma contribuição ao meio ambiente. Por ser um carro que precisa funcionar à base dos dois combustíveis, ele acaba não ficando otimizado nem para um nem para outro — explica o especialista, complementando que a escolha por um carro flex é, de qualquer forma, ainda melhor que a opção por um veículo a gasolina.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

4 Opiniões

  1. Mauro Mito disse:

    Os países desenvolvidos não tem o direito de coibir ou votar contra o biocombustível sob qualquer pretexto, uma vez que eles foram os maiores responsáveis pelo aquecimento global para conseguirem a tecnologia que hoje eles detem. Agora, o governo brasileiro deveria investir mais na Amazonia no sentido de implementar a fiscalização, protegendo a qualquer custo todo tipo de degradação, tanto das empresas brasileiras oportunistas como dos países estrangeiros que querem explorá-lo. A Amazonia faz parte do nosso Estado (Brasil), e
    não cabe a outros países decidirem o futuro dele. Cabe sim, ao nosso governo tomar atitudes mais firmes, investindo mais na Amazonia (melhorando as condições dos nossos cientistas e todos os pesquisadores, estudiosos e entidades que querem melhores
    informações desconhecidas
    ainda por nós, mas que
    os países de ponta talvez
    já as tenha). Pode ser uma atitude radical mas já que existem muitos estrangeiros explorando área, deveria criar mecanismo de fiscalização por parte da Polícia Federal mais rigorosa para melhor controle da área.

  2. wanessa loyane disse:

    Muito mais do que a preocupação com o aumento dos preços dos alimentos e a produção a questão em foco é restritamente econômica,o Imperialismo,mais uma vez tem medo de enfraquecer mais sua economia…Agora simplesmente julgam como uma pratica que colocará em jogo o bem estar social e ambiental.E a culpa de quem será!!!!

  3. Gabriela disse:

    A terra ja esta em desequilibrio devido o aquecimento global, e agora há a “novidade” do Biocombustivel. Para quem nao para pra pensar nos pontos negativos, ele vai ser a salvação do mundo… mas ai quero ver, quando começaram os desmatamentos, o aumento das mudanças climaticas, o aumento de preço dos produtos agricolas, o aumento do preço e a escassez da agua! O biocombustivel diminuiria os gases do efeito estufa, mas nao resolveria de vez o problema! sera que realmente vale a pena?

  4. Thalita Fausto disse:

    O Biocombustivel foi uma idéia muito boa para ajudar o nosso planeta, a não se prejudicar tanto, a Terra esta a cada dia que passa um verdadeiro caus, se continuarmos nesse ritmo até quando vamos aguentar? A cada ano que passa o clima esta mais quente, não podemos ficarmos de braços cruzados esperando que alguém faça algo sozinho, temos o dever de tomarmos alguma atitude também. A questão dos automóveis, com os carros flex sim poderá melhorar muito, mas na minha opinião nós podemos ajudar contribuindo, utilizando mais os transportes coletivos, para poluirmos menos ainda o nosso precioso ar.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *