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AMAZÔNIA

Cientistas não assinam estudo sobre queimadas por medo de represália

Opção pelo anonimato se deu porque dados apresentados contrariam o discurso do governo. 'Lamentamos que isso seja necessário’, diz texto do estudo

Cientistas não assinam estudo sobre queimadas por medo de represália
Imagem registrada no Sul do Pará em setembro deste ano (Foto: Araquém Alcântara/WWF-Brasil)

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Alguns pesquisadores decidiram não assinar um estudo sobre as queimadas na Amazônia durante o governo do presidente Jair Bolsonaro por medo de represália. O texto foi publicado na última sexta-feira, 15, na revista Global Change Biology.

Apenas os cientistas Jos Barlow, Erika Berenguer, Rachel Carmenta e Filipe França assinaram o documento. No fim do estudo, os pesquisadores fizeram menção aos cientistas que optaram por não assinar a pesquisa, sem citá-los nominalmente.

“Alguns colaboradores recusaram a autoria para manter o anonimato. Lamentamos que isso seja necessário e agradecemos a eles por sua importante contribuição”.

Segundo informou Barlow, da Universidade de Lancaster, em entrevista à Folha de S.Paulo, a recusa em assinar se deu porque os dados apresentados se chocavam com o discurso promovido pelo governo.

Já Berenguer, também da Universidade de Lancaster, foi mais direta, revelando um clima de “perseguição” dentro do campo acadêmico. Ademais, a pesquisadora destacou que os dados apresentados poderiam gerar um “descontentamento” no governo federal.

Com base nos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o estudo comprovou que as queimadas em agosto deste ano foram quase o triplo das registradas em agosto de 2018. Ademais, a pesquisa reforçou que este foi o número mais alto registrado desde 2010.

Berenguer explicou ainda que o fogo registrado ao longo do último mês de agosto era relacionado ao desmatamento, e não a outras atividades, como sugerido por diferentes autoridades federais. “Eram plumas de fumaça gigantescas. Isso indica que não eram capim e meia dúzia de árvores queimando. Era muito matéria orgânica”, explicou a cientista.

“A alta acentuada nas contagens de incêndios ativos e no desmatamento em 2019, portanto, refuta as sugestões de que agosto de 2019 foi um mês de incêndio ‘normal’ na Amazônia. Além disso, o aumento de incêndios ocorreu na ausência de uma forte seca, o que pode ser um bom preditor de ocorrência de incêndios (Aragão et al., 2018) A importante contribuição dos incêndios relacionados ao desmatamento foi consistente com as imagens da mídia de incêndios em larga escala em áreas desmatadas, enquanto as enormes plumas de fumaça que atingiram a atmosfera alta só podem ser explicadas pela combustão de grandes quantidades de biomassa. A natureza incomum de 2019 também foi enfatizada pelas contagens excepcionalmente altas de incêndio em algumas áreas protegidas, como a Floresta Nacional de Jamanxim, onde os incêndios ativos aumentaram 355% de 2018 a 2019, 44% acima da média de longo prazo”, destaca o estudo.

Por outro lado, o estudo também admite que, apesar da alta no número de incêndio em agostos, as taxas reduziram em 35% no último mês de setembro. Segundo os pesquisadores, não ficou claro qual foi o motivo da redução do número de focos de incêndio, podendo ser desde ações do governo federal, como a proibição de queimadas, ou o aumento de chuvas na Amazônia.

Desmatamento na Amazônia

Números divulgados nesta segunda-feira, 18, pelo Inpe monstram que, nos últimos 12 meses, 9.762km² foram desmatados na Amazônia, o maior número desde 2008, quando 12,3 mil km² foram desmatados. Em 2008, o governo federal adotou medidas para combater o desmatamento, como o aumento da fiscalização. Os dados são do Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes).

“Uma das razões que explicam esse número astronômico é o afrouxamento da fiscalização – desde 2000 o IBAMA não aplicava um número tão baixo de multas por desmatamento – e as diversas promessas feitas pelo Governo Bolsonaro de extinguir áreas protegidas, liberar garimpo em terras indígenas e facilitar a grilagem de terras públicas, o que vem causando o aumento de invasões em áreas públicas e do desmatamento em desconformidade com o Código Florestal em áreas privadas”, destacou a ONG WWF Brasil através de um comunicado

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1 Opinião

  1. Leonora Hermes Luz disse:

    Imensa tristeza. Um país rico no que há de mais precioso queimando suas florestas, caatingas e cerrados por uma ideia falsa de crescimento econômico que nada mais é que o enriquecimento de predadores locais, mineradoras e empresas estrangeiras.
    O todo regado a orações evangélicas e a promessa de enriquecimento de poucos e morte do ecossistema já desequilibrado.
    Não sei o que é maior, se a ganância ou a burrice.

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