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POLÍTICA AMBIENTAL

Comunidade internacional reage a queimadas na Amazônia

Alemanha e França propõem levar a questão à cúpula do G7. Irlanda ameaça votar contra acordo Mercosul-UE. Países sul-americanos oferecem ajuda

Comunidade internacional reage a queimadas na Amazônia
Não é a primeira vez que a política ambiental de Bolsonaro é criticada internacionalmente (Foto: Alan Santos/PR)

A comunidade internacional, principalmente potências da União Europeia, vem expressando preocupação com a atual situação envolvendo queimadas na Amazônia.

Alemanha e França propuseram debater a situação na próxima cúpula do G7, que ocorre no próximo final de semana. A Irlanda, por sua vez, ameaça votar contra o pacto União Europeia-Mercosul – que necessita da ratificação de todos os membros da UE para entrar em vigor. A França também estuda votar contra o pacto, caso o governo brasileiro não tome uma atitude para proteger a floresta amazônica.

Pelas redes sociais, em postagens em inglês e francês, o presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou: “Nossa casa está queimando”. Macron classificou as queimadas na região amazônica como uma “crise internacional”. Diante disso, pediu que os membros do G7 debatam a situação na próxima cúpula.

O G7 é composto por Alemanha, França, Canadá, Estados Unidos, Itália, Japão e Reino Unido. O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, e a chanceler alemã, Angela Merkel, já se posicionaram favoráveis ao debate sobre as queimadas no próximo encontro. De acordo com o porta-voz de Merkel, Steffen Seibert, a chanceler “apoia completamente o presidente francês” nessa questão, segundo noticiou o Globo.

Trudeau usou as redes sociais para respaldar o posicionamento de Macron. Para o primeiro-ministro canadense, é necessário que as lideranças atuem pela Amazônia “e ajam pelo nosso planeta”. “Nossos filhos e netos estão contando conosco”, escreveu o primeiro-ministro canadense.

Em ações mais diretas, a França e a Irlanda colocaram o acordo entre a União Europeia e o Mercosul em xeque devido à política ambiental do governo brasileiro. Os países europeus, que podem ser seguidos por outros governos, ameaçaram votar contra a aprovação do pacto, se o Brasil “não honrar seus compromissos ambientais”, conforme destacou o primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar, segundo noticiou a Folha de S.Paulo.

A Finlândia, que está na presidência rotativa da União Europeia, por sua vez, quer que o bloco econômico estude a possibilidade de banir a importação de carne bovina brasileira devido à situação da Amazônia. Através de um comunicado, o ministro das Finanças finlandês, Mika Lintila, condenou a destruição na região, segundo noticiou o portal G1.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, também expressou preocupação com a atual situação da Amazônia. Através das redes sociais, Guterres destacou que a região “deve ser protegida”. “No meio da crise climática global, não podemos permitir mais danos a uma fonte importante de oxigênio e biodiversidade”, escreveu Guterres.

Já Chile, Colômbia , Equador e Venezuela, por sua vez, ofereceram ajuda à Bolívia e ao Brasil para combater os incêndios florestais na Amazônia – a região amazônica da Bolívia também está sendo duramente castigada pelas chamas. Atualmente, como ocorre anualmente, mas em menores proporções, a Amazônia atravessa um período de incêndios florestais.

Movimento internacional

Diante das queimadas na região amazônica, milhares de pessoas estão se mobilizando ao redor do mundo para exigir mudanças na política ambiental de preservação da região. Os atos acontecem em frente a embaixadas brasileiras em diferentes capitais, como Londres, no Reino Unido; Madri, na Espanha; e Berlim, na Alemanha. Também há previsão de protestos no Brasil a partir da tarde desta sexta-feira, 23.

Além da população civil, personalidades mundiais já se posicionaram em defesa da Amazônia, como o ator Leonardo DiCaprio, o jogador de futebol francês Kylian Mbappé e a cantora Madonna. Algumas das fotos utilizadas para ilustrar os posicionamentos, porém, são antigas, não referentes a 2019.

No Twitter, usuários levantam a hashtag “#ActForTheAmazon” (Aja pela Amazônia, em tradução livre) para exigir mudanças na política ambiental. Na última quarta-feira, 21, a hashtag “#PrayForAmazon” (Reze pela Amazônia) foi o assunto mais comentado na rede social.

Preocupação de especialistas

O pesquisador Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), expressou preocupação com a atual situação da Amazônia, que se aproxima de um ponto irreversível, o que tornaria trechos da região em uma savana seca, impactando o clima.

Nobre destacou, em entrevista ao Guardian, que a região amazônica já está sendo agredida há anos, mas piorou diante do governo do presidente Jair Bolsonaro. Segundo análises do pesquisador, é muito provável que o desmatamento na floresta amazônica ultrapasse os 10 mil quilômetros quadrados pela primeira vez em dez anos. A tendência é que o desmatamento suba entre 20% e 30% neste ano, pois vem acelerando no governo Bolsonaro.

“A situação é muito ruim. Vai ser terrível. […] Um grande número desses incêndios se deve ao impulso cultural que os ministros estão dando. Eles estão empurrando o desmatamento porque é bom para a economia. Aqueles que fazem desmatamento ilegal estão se sentindo fortalecidos”, destacou o pesquisador.

Uma análise da revista britânica Economist corrobora o temor de Nobre. Segundo a publicação, a taxa de desmatamento na Amazônia havia caído entre 2004 e 2012, mas voltou a subir devido aos cortes orçamentários que afetaram as políticas de preservação. Estima-se que, entre agosto de 2017 e julho de 2018, a região perdeu 7.900 km² de cobertura vegetal. Segundo a Economist, é “quase certo” que a perda deste ano será maior.

De acordo com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), diferentes fatores podem estar impulsionando as queimadas na região amazônica. As possibilidades vão desde as mudanças climáticas, até a ação de queimadas para limpar a terra para plantações ou criação de gado. O MIT destaca ainda que, segundo ambientalistas, os agricultores que estão promovendo queimadas foram encorajados por Bolsonaro.

“Taxas de desmatamento da Amazônia foram caindo durante anos. […] Mas aumentaram significativamente no Brasil neste ano: uma área de floresta tropical “aproximadamente do tamanho de um campo de futebol”desaparece a cada minuto”, diz o MIT, que destaca a importância da região para a biodiversidade mundial.

Reunião ministerial

Diante de uma intensa pressão internacional, o presidente Jair Bolsonaro se reuniu, na última quinta-feira, 22, com ministros para buscar medidas para combater os incêndios na região amazônica. Na tarde desta sexta-feira, 23, Bolsonaro deve voltar a se reunir com os titulares das pastas.

“Determino a todos os ministros de Estado que adotem, no âmbito de suas competências, medidas necessárias para o levantamento e o combate a focos de incêndio na região da Amazônia Legal para a preservação e a defesa da floresta amazônica, patrimônio nacional”, afirmou o presidente em um despacho assinado na noite da última quinta-feira.

Enquanto a pressão internacional aumenta, a cúpula mais próxima de Bolsonaro usa as redes sociais para defender o presidente em relação ao aumento do desmatamento em 2019. Entre os que já se posicionaram estão o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, o ex-comandante do Exército Brasileiro general Villas Boas, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), entre outros.

Já no campo ministerial, as principais defesas das políticas ambientais partiram do ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores. Salles agradeceu o posicionamento do general Villas Boas e prometeu que o governo não vai apenas preservar a Amazônia, mas “defendê-la, de queimadas e oportunistas”.

Ernesto Araújo, por sua vez, afirmou que o Brasil está sendo alvo de uma campanha internacional “feroz” e “injusta”. Segundo a análise do ministro, os ataques à política ambiental brasileira estão sendo coordenados pela esquerda.

“Incapaz de convencer os brasileiros do contrário, a esquerda foro-de-são-paulina recorre a seus aliados na mídia internacional e à caixa de ressonância dos ambientalistas radicais (manipulados por décadas de propaganda) para atacar o seu próprio país e questionar sua soberania”, escreveu o ministro.

Assunto mundial

Não é a primeira vez que a situação do Meio Ambiente no governo Bolsonaro fica no centro do debate global. Em seu primeiro evento internacional como presidente, Bolsonaro esteve no Fórum Econômico Mundial, em Davos, em janeiro deste ano. Na ocasião, o presidente citou o poderio ambiental brasileiro:

“Somos o país que mais preserva o meio ambiente. Nenhum outro país do mundo tem tantas florestas como nós. A agricultura se faz presente em apenas 9% do nosso território, e cresce graças a sua tecnologia e graças à competência do nosso produtor rural. Menos de 20% do nosso solo é dedicado à pecuária. […] Nossa missão, agora, é avançar na compatibilização entre a preservação do meio ambiente e da biodiversidade com o necessário desenvolvimento econômico”, destacou Bolsonaro na ocasião.

Porém, uma pesquisa de 2018 promovida pelas universidades de Columbia e Yale, ambas dos Estados Unidos, colocaram o Brasil apenas na 69ª posição ao falar de desempenho ambiental. Em estudos entre os países “mais verdes do mundo”, o Brasil também não figura nas primeiras colocações. Sobre extensão de florestas, o Brasil, ao contrário do que Bolsonaro afirmou, é o segundo colocado, ficando atrás da Rússia em maior área florestal.

Outro assunto em questão foi a possibilidade do Brasil deixar o Acordo de Paris, que visa reduzir as emissões de gases de efeito estufa na atmosfera. Isso porque, durante a campanha presidencial, Bolsonaro afirmou que poderia retirar o Brasil, caso o acordo não fosse alterado. No Fórum Econômico Mundial, porém, ele garantiu que o país permaneceria no pacto.

Já às vésperas da cúpula do G20, a comunidade internacional voltou a expressar preocupação com a situação do Meio Ambiente no Brasil. Na ocasião, a chanceler alemã, Angela Merkel, disse que gostaria de ter uma “discussão clara” com Bolsonaro sobre a situação ambiental do país.

“Assim como vocês, vejo com grande preocupação a questão das ações do presidente brasileiro [em relação ao desmatamento] e, se ele se apresentar, aproveitarei a oportunidade no G20 para ter uma discussão clara com ele”, afirmou Merkel aos parlamentares alemães. Bolsonaro, porém, não gostou das afirmações da chanceler, afirmando que não aceitaria advertências durante o G20.

Mais recentemente, a política ambiental de Bolsonaro voltou a estar sob o olhar dos alemães. Isso porque, além de Noruega e Alemanha terem bloqueado os repasses ao Fundo Amazônia, o chefe de Estado brasileiro foi ironizado por um programa de humor alemão. O apresentador do programa Extra 3, Christian Ehring, não poupou críticas à forma como Bolsonaro tem tratado o meio ambiente.

Ehring destacou a ausência de posicionamento de Bolsonaro sobre o desmatamento na Amazôniaa exoneração do diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão; o fato do Ministério da Agricultura estar sendo controlado por um dos principais nomes do setor agropecuário brasileiro, a ministra Tereza Cristina; e o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. O programa, inclusive, fez uma sátira em forma de música sobre as agressões do governo Bolsonaro ao Meio Ambiente.

No entanto, o programa também não poupou os países europeus. Isso porque, apesar de se mostrarem preocupados com a política ambiental no Brasil, os países seriam beneficiados pelo acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. Como o pacto prevê a transação de produtos agrícolas, tem potencial para alavancar o desmatamento na região amazônica.

Polêmicas internas

Além de ter se tornado assunto mundial em diferentes momentos, a política ambiental do governo Bolsonaro vem recebendo críticas desde antes do presidente assumir. No fim de outubro do ano passado, após as eleições terem sido definidas, a equipe de Bolsonaro anunciou a fusão de alguns ministérios, entre eles da Agricultura e Meio Ambiente. A união, no entanto, não foi consolidada.

Outra polêmica, que perdurou até o início deste mês, foram as constantes tentativas de Bolsonaro de atribuir a demarcação de terras indígenas ao Ministério da Agricultura. A ação estava prevista na Medida Provisória (MP) 870/2019. No entanto, ela foi derrubada no Congresso Federal. Anteriormente, o Ministério Público Federal (MPF) já havia citado que a medida era inconstitucional.

Inicialmente, o governo Bolsonaro havia apoiado a MP 870 com as mudanças feitas pelo Congresso. Porém, mais tarde, o presidentevoltou a tentar levar a demarcação de terras indígenas para a Agricultura.

A medida, porém, foi barrada pelo ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em seguida, foi a vez do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), ir contra a nova tentativa, apontando a inconstitucionalidade da ação. Já no início de agosto, foi a vez do plenário do STF manter, por unanimidade, a demarcação com a Fundação Nacional do Índio (Funai).

Ademais, outras medidas do governo Bolsonaro em relação ao Meio Ambiente provocaram polêmica com ambientalistas brasileiros. Em meados de abril, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, revelou que estava cogitando unir o Instituto Chico Mentes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama).

Dias depois, foi a vez do presidente Jair Bolsonaro pedir ao presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, que a instituição concedesse juros mais baixos para produtores rurais. O pedido foi feito durante a abertura da Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação (Agrishow). Apesar de ser dada em tom de brincadeira, a afirmação do presidente fez com que as ações do banco caíssem.

Em maio, Salles revelou que um grupo de estudo estava sendo montado para revisar 334 unidades de conservação no Brasil. Segundo o ministro do Meio Ambiente, parte das unidades “foi criada sem nenhum tipo de critério técnico”.

No mesmo mês, oito ex-ministros do Meio Ambiente se reuniram contra as políticas ambientais adotadas pelo governo Bolsonaro. Os ex-chefes da Pasta assinaram um manifesto que, entre outras políticas, criticava o “afrouxamento do licenciamento ambiental travestido de eficiência de gestão”, segundo noticiou o portal Uol.

Agora, já diante da polêmica em relação à Amazônia, Bolsonaro demitiu o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão. O diretor estava sendo criticado desde que confirmou os dados sobre o desmatamento no Brasil, apontado por Bolsonaro como “mentirosos”, segundo a sua “convicção”.

O aumento no desmatamento, estipulado em 82% pelo Inpe, em 2019, em relação ao mesmo período de 2018, fez com que Bolsonaro voltasse seus ataques contra ONGs ambientalistas. De acordo com o presidente, existe a possibilidade de que “ongueiros” estejam por trás das queimadas. Diante das acusações, mais de 100 entidades rebateram as afirmações, apontando que o posicionamento de Bolsonaro era “inconsequente”.

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5 Opiniões

  1. Jorge Cardillo disse:

    Todo ano tem queimadas em vários países e está ocorrendo uma grande na Bolívia. Maa a oposição e a imprensa nacional e internacional quer cruxifixar o Bolsonaro. Algumas queimadas na Amazônia precisam ter sua origem investigada.

  2. Almanakut Brasil disse:

    Temos vários conhecidos lá fora que dizem que há uma preocupação enorme, inclusive entre brasileiros safados, porque a cocaína e a maconha está em falta em muitos lugares.

    O maior medo dos “eco-nóias” é acabar as plantações na América Latrina.

  3. Sueli Souza disse:

    este governo que critica tanto o anterior está cada vez pior nas questões ambientais, Tereza Cristina, Ricardo Salles e esse presidente é que merecem ser queimados.

  4. Coutinho disse:

    Dois presidentes esquerdistas, sendo que num florestas estão se queimando para queimar a própria língua, Portugal outro país que enfrenta incêndios, e tem o desplante de falar do Brasil… A outra, da alemanha, não perde por esperar os problemas que se avolumam… e explodirão…

  5. DINARTE DA COSTA PASSOS disse:

    Depois que a Inglaterra, França e Alemanha se manifestaram o BOZO que vinha até então minimizando os fatos acabou se pronunciando em Rede Nacional. Sentiu na pele que não pode correr o risco de ficar inerte e de repente ver uma força tarefa internacional militarizada avançar pela Guiana Francesa e tomar de assalto a bacia amazônica. Sabemos que nossas forças não tem condições logística, moral e econômica para suportar um combate nem com a Venezuela quanto mais com potências europeias. Calou a boca e tratou de apagar o fogo que ele mesmo causou por irresponsabilidade de um Chefe de Estado.

    O BOZO AINDA VAI ACABAR COLOCANDO O BRASIL EM COMPROMISSO COM NAÇÕES PODEROSA E SERÁ O FIM DO DITADOR BRASILEIRO.

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