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Esgoto a céu aberto
Especial meio ambiente

Nem tudo que ameaça é carbono

Enquanto o combate ao aquecimento global está cada vez mais na ordem do dia, os problemas ambientais menos midiáticos vão ficando no esquecimento

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Poucas vezes o mundo esteve tão mobilizado em torno de um objetivo como agora, quando combater as alterações climáticas virou questão de vida ou morte coletiva. Os recorrentes avisos sobre o perigo real e imediato de uma catástrofe ambiental em razão do superaquecimento da Terra parece ter surtido um efeito espantoso, em cadeia, de tão grandes proporções que até se desconfia de tanto esmero e eficiência, ainda mais quando não são poucos os cientistas e políticos garantindo que não há fundamento científico para previsões tão apocalípticas, com muitos deles dizendo mesmo que por estas bandas do universo as coisas andam esfriando, e não esquentando rumo ao Armagedom.

O consenso mundial talvez seja menos sobre uma certeza (do processo de ebulição terrestre) e mais sobre uma prudência (de que é melhor não pagar para ver o sertão virar mar, e o mar virar sertão). Sendo assim, as políticas públicas ecologicamente corretas foram alçadas ao topo das agendas governamentais, os tratados sobre emissões de dióxido de carbono vêm recebendo olhares mais atentos do que os acordos de não-proliferação nuclear, uma massa amorfa de consumidores está se transformando em “ecocidadãos” em busca de produtos orgânicos, e muitos grandes jornais ganham editorias dedicadas a acompanhar todo este processo, terminando por reforçá-lo.

O adjetivo “verde” deixou de denotar uma cor propriamente dita, virando critério de classificação e juízo de valor para coisas tão distintas como carros, geladeiras, pacotes de viagens e até casamentos, desde que os convites sejam feitos com papel reciclado e que a cerimônia seja realizada à claridade do dia, natural, para que não se cometa o ato absolutamente irresponsável, egoísta e ambientalmente hediondo de acender a luz.

Mas as grandes questões ambientais não se resumem ao aquecimento global, e o risco trombeteado de geleiras derretendo sobre a Europa e do mar avançando sobre as metrópoles costeiras pode estar enevoando a consciência sobre questões em torno das quais não se faz tanto alarde, mas que podem ter influência direta na vida humana sobre a Terra. No Brasil, principalmente, não faz muito sentido aderir sem ressalvas à agenda ecológica dos países ricos quando ainda estamos às voltas com problemas há tempos minimizados no mundo desenvolvido, como a falta de saneamento básico.

Olhando para o céu sem olhar para o chão

Atualmente, apenas cerca de 10% do nosso esgoto doméstico é tratado, com os 90% restantes dos dejetos indo parar direto nos cursos d’água, causando um sem-número de doenças. Segundo um relatório da ONU, as regiões costeiras do sul e sudeste do nosso país são as mais poluídas do mundo.

Outro drama é o do lixo, ou o que fazer com ele. No Brasil, de acordo com o IBGE, 75% do lixo é jogado a céu aberto. Grande parte vai parar em rios, praias e redes de esgoto ao cair do primeiro temporal, e o aparato de reciclagem ainda é anedótico. O incômodos “lixões” são empurrados goela abaixo das populações vitimadas pela sua proximidade, e o jogo de empurra dos aterros sanitários é na verdade uma queda-de-braço disputada entre as elites políticas municipais: o processo decisório sobre ter o mau cheiro, ratos e urubus como vizinhos passa ao largo de qualquer participação popular.

Na questão da ocupação desordenada do solo, a pobreza, além de um problema social, vira um problema ambiental. Existe uma relação direta entre as áreas de moradias pobres e as áreas ambientalmente degradadas. Quando o estado de Santa Catarina foi assolado por chuvas torrenciais em novembro do ano passado, poucos lembraram de usar a falta de planejamento urbano para explicar muitos dos deslizamentos subsequentes na região do Vale do Itajaí, mas, nas TVs e nos jornais, não faltaram cientistas para atribuir a culpa pela tragédia em Blumenau e arredores ao enlouquecimento das condições climáticas.

Há ainda a má gestão dos recursos hídricos, com o Brasil desperdiçando cerca da metade da água captada de mananciais para abastecer as capitais do país, e a alta taxa de crescimento populacional. Outros grandes problemas ambientais não são exclusividade dos países em desenvolvimento, como a acelerada extinção de espécies da flora e da fauna nos quatro cantos do planeta.

A maior ameaça, entretanto, é mesmo um modelo global de produção e consumo para lá de insustentável, não apenas por causa da fumaça preta que sai das chaminés para reter calor sobre nossas cabeças, mas também, e talvez principalmente, porque o uso de recursos naturais anda a mais de 40% além da capacidade de reposição da biosfera.

Leia as outras matérias do nosso Especial Meio Ambiente:

Um panorama das mudanças climáticas no mundo, de acordo com Roberto Schaeffer, do IPCC

Ouro Negro – Inércia ambientalista

Lixo é lucro – O valor da reciclagem para a economia

Lixo é lucro – Perguntas e respostas sobre a arte de reciclar

Casamentos “verdes”

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  1. Thiago Monteiro disse:

    Para quem de fora vê parece que nós, brasileiros, ainda estamos convivendo com a memória indígena do passado. Na época dos caciques e dos cocás, para não sujar nosso lar, saíamos da oca para colocar nossos dejetos no mato perto dos rios. Hoje não saimos de nossas ocas, a nossa “avançada engenharia” nos possibilitou fazer nossas necessidades em casa, mas os dejetos, estes ainda jogamos nos rios. Vejo que a diferença entre as épocas está mais na informação que hoje temos sobre como cuidar melhor de nossos recursos naturais, embora eles (índios) tinham maior esmero ecológico. Por isso, brasileiro, não se veja agredido quando lhe chamarem de índio, diga com todo orgulho, se puder: Embora sem atitude, sou um índio informado.

  2. renato vasconcellos disse:

    A MATÉRIA ABORDA UM ASPECTO INTERESSANTE E QUE TENHO MUITO DEBATIDO.
    oUTRO ASPECTO QUE QUASE NÃO VEJO SER MENCIONAO É O CRESCIMENTO POPULACIONAL QUE É IMPORTANTE NA DEGRADAÇÃO AMBIENTAL, POIS O SER HUMANO NECESSITA DE UM ESPAÇO NO PLANETA CADA VEZ MAIOR PARA SUPRIR SUAS NECESSIDADES BÁSICAS(ALIMENTAÇÃO, ÁGUA, ENERGIA ETC…)

  3. Élio J. B. Camargo disse:

    Não há um problema ambiental, mas sim um problema superpopulacional. O animal humano que sempre gostou de controlar o aumento populacional dos outros animais, esquece-se que esta é a causa básica de todos os problemas ambientais. Mesmo com “políticas sustentáveis” e os atuais 6,7 bilhões, o planeta não aguentará a entrada dos pobres à economia de mercado, imaginem com mais 50%.
    Tal qual os chinesses, o mundo precisa limitar a reprodução humana ao filho único.