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MEIO AMBIENTE

Um audacioso projeto contra as mudanças climáticas

Iniciativa da União Africana reúne 21 países no projeto de reflorestamento e recuperação dos pastos como combate às mudanças climáticas na África

Um audacioso projeto contra as mudanças climáticas
O projeto Great Green Wall (GGW) conta com um financiamento de US$ 8 bilhões (Foto: Divulgação/GGW)

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Cento e cinquenta mil sementes de acácia, baobá e moringa, árvores resistentes à seca, esperam o plantio em suas sementeiras de plástico preto. É início de agosto e, em menos de uma semana, 399 voluntários de 27 países chegarão ao povoado de Mbar Toubab no norte do Senegal para participar de um dos empreendimentos mais audaciosos do mundo de combate às mudanças climáticas, o reflorestamento de 247 milhões de acres de uma área que se estende de Dacar a Djibouti.

O projeto Great Green Wall (GGW), uma iniciativa da União Africana, que conta com um financiamento de US$ 8 bilhões do Banco Mundial, da União Europeia e das Nações Unidas, foi criado em 2007 para combater a desertificação do Sahel, com o plantio de árvores ao longo de 7.748 quilômetros na área ao sul do deserto de Saara. 

O projeto tem como objetivo diminuir o impacto das mudanças climáticas no Sahel, a faixa semiárida entre o Saara e a savana do Sudão, uma das regiões mais pobres do mundo. A recuperação dos pastos, das árias agrícolas e o reflorestamento visa melhorar as condições de vida de milhões de pessoas que vivem na região.

Segundo previsões, após a conclusão do projeto em 2030, as áreas verdes serão capazes de absorver 250 milhões de toneladas de dióxido de carbono da atmosfera, o equivalente a manter todos os carros da Califórnia nas garagens por três anos.

Durante uma semana, os voluntários irão plantar as mudas de árvores em 494 acres de terra árida. Mas é preciso que chova para que as mudas possam germinar. “Ainda não há sinal das chuvas que costumam cair em junho”, disse El Hadj Goudiaby, que trabalha há nove anos como supervisor do projeto GGW em Mbar Toubab. Por fim, em 19 de agosto, começou a chover em Mbar Toubab a os voluntários plantaram 88 mil mudas de árvores até partirem.

O terreno semiárido do Sahel está diminuindo devido a décadas de pastoreio excessivo, seca causada pelas mudanças climáticas e práticas agrícolas erradas. Os criadores de gado usam as poucas árvores restantes como forragem para os animais, acelerando assim o processo de desertificação.

Será preciso não só plantar árvores, como também conscientizar a população local da importância das plantas na redução do aquecimento global. De acordo com um artigo publicado na revista científica Science, uma área de 2 bilhões de acres cultivada absorveria dois terços das emissões de gases de efeito estufa da atmosfera.

A 40 quilômetros ao sul de Mbar Toubab, perto do vilarejo de Koyli Alpha, Dienaba Aka, uma mulher de 50 anos, empurrou sua carroça para o acostamento da estrada, ao lhe perguntarem o que transportava na carroça. Ela e a família haviam passado o dia cortando capim em um terreno administrado pela agência do projeto GGW no Senegal. Há oito meses, a equipe do projeto cercou o terreno de 1.700 acres para plantar 250 mil mudas de capim. Desde julho, os criadores de gado compram forragem para os animais no local mediante o pagamento de US$ 1,70 por dia.

Aka, assim como outras mulheres dos povoados da região, planta árvores para o projeto GGW desde 2012. Ela ganha US$ 96 por seis semanas de trabalho. “E um bom salário, mas plantamos árvores, porque nos disseram que elas iriam trazer de volta a chuva”, disse Aka.

Com o dinheiro arrecadado na venda de capim, no ano passado as autoridades de Mbar Toubab instalarem painéis solares nas salas de aula da escola local. Este ano, o dinheiro será destinado à construção de um dormitório para alunos que moram muito longe da escola.

As árvores usadas no reflorestamento do Senegal são nativas da região e resistentes à seca. Os espinhos da acácia a protegem dos animais soltos nos pastos. Na estação seca, a acácia perde as folhas para conservar a umidade. O baobá é uma árvore muito resistente à seca e com vida longa. A casca é usada como medicamento e para a fabricação de corda, as folhas são comestíveis e a população local torra os frutos para fazer uma bebida semelhante ao café.

Desde 2008, a agência GGW do Senegal plantou 18 milhões de árvores em uma área de 99 mil acres. Os criadores de gado compram capim nos terrenos administrados pela agência. As gazelas, chacais, tartarugas e pássaros canoros reapareceram.

Goudiaby admite que o plantio de árvores não é a solução mais econômica de combate às mudanças climáticas. Mas nos nove anos em que trabalha na supervisão do projeto GGW em Mbar Toubab, a taxa de sobrevivência das mudas plantadas manteve-se em 70%. Algumas árvores têm entre 4 e 5 metros de altura e a paisagem árida mudou completamente.

Em Burkina Faso, Mali e Níger as equipes do projeto GGW cercaram os pastos para recuperá-los  do excesso de uso. Nas áreas agrícolas, as equipes ensinam técnicas de cultivo modernas aos agricultores. Como resultado dos últimos 30 anos de trabalho, os pastos com capim abundante e as áreas agrícolas cultivadas estendem-se por uma região de 12 milhões de acres no Níger.

“Qualquer abordagem de recuperação das terras é válida”, observou Ibrahim Thiaw, secretário executivo da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (UNCCD). O Great Green Wall reuniu 21 países da África no projeto de combate às mudanças climáticas, com o reflorestamento e a recuperação dos pastos que absorvem CO2 da atmosfera.

Porém, o cronograma do projeto está atrasado. Alguns atrasos são resultado da falta de recursos financeiros. O Senegal gasta US$ 200 milhões por ano no plantio de árvores e na manutenção dos pastos. Mas os países com uma renda per capita menor não têm condições de arcar com esses custos. Apenas metade dos US$ 8 bilhões do financiamento do Banco Mundial, da União Europeia e da ONU foi liberada.

Em longo prazo, disse Thiaw, o impacto das mudanças climáticas em uma das regiões mais pobres do mundo terá uma repercussão mundial. Cerca de 150 milhões de pessoas vivem no Sahel, quase dois terços com menos de 25 anos. Segundo estimativas do Banco Mundial, em razão das condições de vida cada vez mais difíceis, cerca de 85 milhões de africanos da região subsaariana irão migrar para outros países do continente, ou arriscarão a vida para chegar à Europa em busca de um futuro melhor.

Dennis Garrity, embaixador de Drylands na UNCCD compara o Sahel às áreas pobres do Paquistão e Afeganistão, onde o terrorismo encontrou um terreno fértil para se fortalecer há duas décadas. “Grupos extremistas como Boko Haram e o Estado Islâmico estão aumentando sua influência na região”, acrescentou.

Fontes:
Time-Can a 4,815-Mile Wall of Trees Help Curb Climate Change in Africa?

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