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Entrevista

‘Mitigação de risco é o cerne da agenda climática’, diz cientista do IPCC

Em entrevista ao O&N, o cientista do IPCC Chris Field destaca a importância de políticas domésticas para lidar com eventos extremos

‘Mitigação de risco é o cerne da agenda climática’, diz cientista do IPCC
Chris Field é um dos principais cientistas da atualidade envolvidos em pesquisa climática (Foto: Stanford Woods Institute for the Environment)

O cientista americano Chris Field, diretor do Carnegie Institution for Science e professor da Universidade de Stanford, foi nomeado pelo governo americano, em fevereiro deste ano, para chefiar o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o principal órgão científico que investiga alterações climáticas a nível global. As pesquisas do IPCC servem de base para o desenvolvimento de políticas públicas nos mais diversos países, inclusive no Brasil.

Field conversou com o Opinião e Notícia por telefone sobre o que hoje é consenso na ciência do clima — o futuro do planeta será mais quente — e as implicações disto para as discussões globais sobre mudança climática. Destacou, ainda, os esforços do Brasil na redução de emissões de carbono e o potencial do país para liderar a transição mundial rumo à energia sustentável. A eleição para presidente do IPCC acontece em outubro de 2015.

O que o senhor diria àqueles que questionam a mudança climática?

A coisa mais importante para as pessoas entenderem é que não sabemos tudo sobre o tema das mudanças climáticas, mas sabemos mais do que o suficiente para tomar medidas inteligentes para reduzir os riscos.

Existe evidência concreta de que o nosso futuro será mais quente, independentemente das ações que tomarmos hoje?

Sim. O que sabemos é que o clima já mudou e que nós já vimos uma vasta gama de impactos das mudanças que ocorreram. Nós também sabemos que o futuro vai ser mais quente, independentemente das ações que possam ser tomadas no curto prazo. Mas, quando olhamos décadas à frente, particularmente para a segunda metade do século 21, a quantidade de aquecimento que experimentamos depende, em grande medida, da ambição das ações que serão tomadas para enfrentar a mudança climática nas próximas décadas.

É possível apontar o aquecimento global como a causa de eventos extremos específicos, como crises hídricas, por exemplo?

O que sabemos é que a frequência de alguns tipos de eventos extremos, como chuva forte em algumas áreas e secas severas em outras, mudou recentemente. E há fortes evidências ligando essas alterações às mudanças climáticas. Nós também temos um monte de estudos que nos permite dizer como a mudança climática altera o risco de certos tipos de eventos extremos. Isso não é exatamente o mesmo que concluir que a mudança climática causou uma determinada tempestade ou onda de calor, mas o que sabemos é que, digamos, por exemplo, a onda de calor europeia de 2003, que provocou entre 20 mil e 70 mil mortes, sabemos que as alterações climáticas no mínimo dobraram o risco de um evento como esse acontecer.

O senhor tem alguma recomendação específica para o Brasil no que se refere à mitigação dos riscos das mudanças climáticas?

Compreender, gerir e reduzir riscos é o cerne da agenda climática e há oportunidades em escala global. A coisa mais importante para o Brasil e todos os países é reconhecer que o problema é essencialmente um de gestão de riscos, e a construção de uma abordagem de gestão de risco é a maneira mais eficiente, economicamente e operacionalmente, de fazer progressos.

O Brasil ainda não divulgou suas metas para a próxima grande conferência do clima da ONU, em dezembro, e anunciou que só deve conclui-las em outubro, em cima do prazo. O que isso diz sobre o Brasil?

Eu honestamente não sei. Espero que o atraso seja porque o Brasil está elaborando uma promessa ambiciosa, mas eu não sei.

Para resolver o problema do clima nós todos teremos de trabalhar em conjunto. Há um papel para cada país, e se apenas alguns países participarem das soluções, será difícil e caro para as pessoas alcançarem metas ambiciosas.

O Brasil está no meio de uma crise econômica. Investir em energias renováveis pode ajudar a economia?

Há muita evidência de que a expansão das energias renováveis é uma fonte de empregos, em especial no contexto do desenvolvimento inteligente de fontes renováveis, como mostra a experiência do Brasil no uso de biomassa.

 

 

1 Opinião

  1. Roberto1776 disse:

    Bem equilibradas as palavras do Dr. Chris Field. Resta saber se ele vai aguentar o clima pesado que cerca o IPCC depois de seu ex-presidente indiano ter sido flagrado em diversos “mal-feitos”, tais como falsificar relatórios para provar suas teses malucas e obter mais fundos para viver a sua “boa vida”, fora outras “cositas mas” de ordem pessoal que deveriam deixar Francisco I ruborizado, mas não deixam.

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