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Medicina neonatal

Os limites da viabilidade da vida de um ser humano

Atualmente, só um entre quatro bebês nascidos com 22 semanas recebe tratamento médico nos Estados Unidos, porque a maioria é considerada 'não viável'

Os limites da viabilidade da vida de um ser humano
Noção de uma linha divisória clara entre um recém-nascido prematuro viável ou não é duvidosa do ponto de vista ético e médico (Foto: Wikipédia)

Uma nova pesquisa sugere que bebês prematuros com apenas 22 semanas de gestação têm, hoje, uma chance maior de sobrevivência. Um estudo recente publicado no New England Journal of Medicine analisou o histórico de cerca de 5 mil bebês extremamente prematuros, e chegou à conclusão que o tratamento médico intensivo pode salvar a vida de um em cada 20 bebês nascidos com 22 semanas de gestação. Essa conclusão suscita questionamentos sobre o “limite da viabilidade” da idade mínima em que um bebê pode sobreviver fora do útero. Atualmente, só um entre quatro bebês nascidos com 22 semanas recebe tratamento médico nos Estados Unidos, porque a maioria é considerada “não viável”. Esse número poderia ser maior? Qual é o critério do limite da viabilidade?

Os bebês que nascem com 37 semanas de gestação são classificados como prematuros. Segundo a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 15 milhões de bebês no mundo inteiro, ou seja, cerca de um em dez, nascem antes do período de gestação completo todos os anos. Nos EUA, onde um em nove bebês é prematuro, o percentual de sobrevivência é de quase 98%. Mas as taxas de sobrevivência variam muito. O tempo de gestação desde a fecundação tem uma grande influência na sobrevida de uma criança prematura. Em bebês nascidos com 32–36 semanas, o percentual de sobrevivência é de aproximadamente 99%; com 28–31 semanas a taxa cai para 96%, e com menos de 28 semanas a probabilidade de os bebês sobreviverem é inferior a 80%. É com este último grupo de bebês extremamente prematuros, que os médicos dedicam mais cuidados. Esses bebês que podem pesar apenas 454 gramas e que cabem na palma da mão, em geral nascem com sequelas cerebrais, insuficiência respiratória causada pela imaturidade dos pulmões e um sistema gastrointestinal também imaturo, por não estarem prontos para viver fora do útero.

Em razão do baixo índice de sobrevida dos bebês com poucas semanas de gestação, os médicos com frequência confrontam-se com a escolha terrível de tratar ou não de um recém-nascido com poucas chances de sobrevivência ou que tenha nascido com problemas graves de saúde. Mas a omissão médica no caso de uma criança com uma probabilidade de sobrevida, mesmo remota, é inaceitável do ponto de vista moral. Essas decisões difíceis e frequentes dependem do tempo de gestação.

Nos Estados Unidos e em muitos outros países desenvolvidos, bebês prematuros com 24 semanas ou mais de gestação quase sempre são considerados “viáveis” e recebem um tratamento médico intensivo e especializado na UTI neonatal dos hospitais, com  entubação, ventilação e o uso de esteroides para fortalecer os pulmões imaturos. Por sua vez, bebês de 22 semanas de gestação são considerados com frequência “não viáveis” e os médicos limitam-se a envolver o recém-nascido em um cobertor para que tenha uma morte pacífica. Os bebês de 23 semanas caem na categoria de “zona cinzenta”. O tratamento desses recém-nascidos em geral fica a critério dos médicos e das famílias.

Embora determinadas diretrizes e regras práticas baseadas no tempo de gestação possam contribuir para o grau de objetividade dessas decisões de vida ou morte, a noção de uma linha divisória clara entre um recém-nascido prematuro viável ou não é duvidosa do ponto de vista ético e médico. Primeiro, a estimativa do tempo de gestação é uma ciência imprecisa. Um médico pode tentar salvar a vida de um bebê de 23 semanas que, na verdade, nasceu com 24 ou 25 semanas. Em segundo lugar, com o aperfeiçoamento da tecnologia médica, o consenso do tempo de viabilidade foi eliminado.

Na década de 1960, as crianças com um peso inferior a 1 kg, o equivalente a cerca de 27 semanas de gestação, eram consideradas não viáveis. Nos anos 1970, a viabilidade foi estimada em 24-28 semanas. Hoje, aproxima-se de 23-24 semanas. Por fim, os critérios de viabilidade podem criar um círculo vicioso. Se os médicos optarem em não reanimar recém-nascidos com 22 semanas, em razão do índice de sobrevida baixíssimo, esses índices continuarão baixos

Fontes:
The Economist - The limits of viability

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