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EPIDEMIA

A árdua luta da República Democrática do Congo contra o ebola

País enfrenta resistência à vacinação e violência na luta contra a epidemia da doença

A árdua luta da República Democrática do Congo contra o ebola
Cerca de 135 mil pessoas no país já foram vacinadas contra o ebola (Foto: OMS/RDC/Eugene Kabambi)

Do lado de fora de uma casa de cimento marrom na cidade oriental de Beni, no leste da República Democrática do Congo, uma psicóloga do governo está contando a Merveille Mwenze, de 19 anos, que o teste de seu marido deu positivo para o ebola. Ela está grávida de sete meses e há nove meses casada, dentro da casa não há nem sequer uma cadeira para sentar e digerir as notícias. Mwenze treme, processando a informação, antes de perguntar em voz alta se o bebê também pode ter o vírus.

Mwenze e seu marido de 23 anos, um pastor e líder comunitário, compartilham a casa com outra família, que assiste preocupada um higienista iniciar o processo de descontaminar tudo à vista. “Ele estava se sentindo mal. Eu pensei que fosse malária. Eu sabia sobre o ebola, mas não pensei nisso em relação ao meu marido”, lembra Mwenze.

O pastor sofreu de uma febre durante vários dias no início de junho, antes de ir para o hospital, onde foi imediatamente isolado. Mwenze ainda não tem ideia de como ele contraiu o vírus e ela não passou por testes, embora jure que não se sente mal. O período de incubação do ebola é de 21 dias: ainda há tempo para os sintomas aparecerem.

O marido de Mwenze é o terceiro pastor em Beni, uma cidade de mais de 200 mil habitantes, alvo do ebola nas últimas semanas. Aime Fatal Wabenga, um promotor de saúde pública e higienista da Organização Mundial da Saúde, diz que alguns líderes religiosos têm rejeitado a vacinação contra o ebola como um sinal de fé. “Eles dizem que ‘nós cremos em Jesus, Jesus nos salvará’”, ele diz à revista Time.

Cerca de 135.000 pessoas no país já foram vacinadas contra o ebola, uma medida de prevenção que não estava amplamente disponível durante o surto do vírus na África Ocidental de 2014-2016.

Atualmente, a República Democrática do Congo está enfrentando o segundo maior surto de ebola em sua história, e a resposta tem sido desacelerada pela violência e insegurança. Entre janeiro e meados de maio deste ano, houve 130 ataques a instituições de saúde, de acordo com Comissão Europeia, durante os quais dezenas de médicos e civis ficaram feridos, e alguns foram mortos.

Nas províncias afetadas de Kivu do Norte e Ituri, um grande número de grupos armados está ativo. Desde agosto de 2018, pelo menos 2.087 pessoas contraíram o ebola e 1.359 pessoas morreram – o que significa uma taxa de sobrevivência de cerca de um terço. A doença mortal, anteriormente conhecida como febre hemorrágica do ebola, foi originalmente transmitida aos seres humanos por animais. Causa uma alta temperatura, vômitos, dores de cabeça e dores musculares, e progride para hemorragias internas e externas, desidratação grave e falência de órgãos.

Muitas vítimas na RDC ainda não estão se apresentando em hospitais, com 25% dos casos identificados apenas após a morte. Quase 100 vítimas “prováveis” foram registradas pelo Ministério da Saúde, em grande parte nos casos em que as equipes médicas não puderam realizar exames porque o paciente já estava enterrado.

“O ebola está se espalhando muito rapidamente e nós estamos correndo atrás dele”, diz Gaston Tshapenda, um gerente de incidentes empregado pelo governo, sentado em seu escritório, no centro de coordenação de resposta do ebola para a região de Beni, a cerca de 29 quilômetros a nordeste de Mangina. Soldados armados patrulham fora do complexo, que havia sido um campo de futebol apenas um ano antes.

Tshapenda vê essa segurança como necessária: uma consequência do grande número de ataques a equipes que atuam contra o ebola.

“Há uma conexão direta entre a luta de grupos armados e o ebola. Se perdermos um dia de atividades, o ebola se espalhará mais rapidamente”, diz Tshapenda.

Na linha de frente da resposta ao Ebola estão os trabalhadores congoleses locais com contratos de trabalho temporários. Eles são frequentemente levados a esse trabalho por necessidade econômica, bem como pelo desejo de ajudar.

Belinda Landu, uma mulher alta de 28 anos com cabelo comprido que irradia confiança, estava ganhando a vida como alfaiate na capital Kinshasa antes do surto. Ao visitar sua mãe em Beni, em agosto passado, ela viu um anúncio para trabalhar como assistente de saúde. Hoje, ela é apaixonada por seu trabalho: descontaminar as casas de pacientes com casos confirmados de ebola. “Eu quero parar a propagação da epidemia. Minha família entende que eu trabalho aqui para ajudar as pessoas”, disse ela.

Poucos dias depois de Landu descontaminar a casa de Mwenze, seu contrato de trabalho com a Organização Mundial de Saúde (OMS) chegou ao fim. “Eles dizem que o dinheiro acabou. Eu vou ficar em casa [agora], eu não posso fazer mais nada”, lamenta ela.

As mulheres são particularmente vulneráveis ao surto. Cerca de 56% das vítimas do vírus da ebola são mulheres e meninas, que correm maior risco por causa de suas funções como cuidadoras.

Quando as sobreviventes do sexo feminino são declaradas livres do ebola, Calvira Germaine, uma psicóloga que trabalha com mães infectadas em Beni, as guia através da reintegração nas comunidades, dizendo que muitas precisam de apoio contínuo e tranquilidade. “Nós lhes damos uma orientação sobre como eles vão seguir com a vida. Falamos com os membros da família sobre como aceitar uma mãe que teve ebola quando ela voltar. Nós a tocamos para mostrar aos outros que está tudo bem. Nós garantimos a outras pessoas que não foi culpa dela”, explica Germaine.

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Fontes:
Time-Inside the Battle to Save Congo From the Ebola Crisis

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