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Aids pode virar doença de mulher

Segundo dados do último Boletim Epidemiológico Aids/DST, um documento anual elaborado pelo ministério da Saúde, a incidência de Aids no Brasil estabilizou-se, ainda que em patamares altos. O maior desafio passa a ser identificar onde estão surgindo os novos casos. Geograficamente, o maior percentual de novas infecções por HIV está na região Sudeste. Em termos de grupos sociais, a realidade brasileira não escapa às mudanças que vêm sendo observadas no cenário global.

As últimas estatísticas da Onu sobre a epidemia global de Aids, apresentadas em novembro do ano passado, confirmaram uma tendência sobre as infecções pelo vírus HIV que já vinha se desenhando nos relatórios anteriores: a Aids está para se tornar uma doença eminentemente feminina. No mundo inteiro, as mulheres já representam 44,7% dos quase 40 milhões de soropositivos. Na África, elas já são maioria.

No Brasil, em 1985, a proporção era de uma mulher infectada para cada 28 homens portadores do HIV. Atualmente a relação vai se aproximando de um para um, e a tendência é que elas os ultrapassem, tendo em vista que as chances de uma mulher contrair a doença em uma relação sexual ortodoxa, por assim dizer, é até quatro vezes maior do que as de um homem, o que se agrava ainda mais quando há infecções genitais, corrimento ou feridas no colo uterino. Os casos de Aids entre as mulheres brasileiras com mais de 50 anos de idade triplicaram desde 1996.

Conter esta tendência é um imperativo que requer esforços de educação sexual, mas é também, e sobretudo, uma questão de combater preconceitos de gênero. Inúmeras pesquisas sobre sexualidade mostram que os comportamentos sexuais nutrem profunda relação com as práticas sociais. Em relação à Aids, isto significa que as mulheres são mais vulneráveis ao HIV não apenas biologicamente, mas também por causa do jugo masculino, exercido em diferentes graus em diferentes partes do mundo.

Por um lado, o da anatomia, a mulher fica mais exposta ao HIV por causa do seu aparelho genital interno. Eventuais lesões na vagina em geral passam despercebidas, constituindo assim portas abertas para a entrada do vírus na corrente sanguínea durante uma relação sexual desprotegida. Além disso, o contato com as secreções sexuais eventualmente infectadas representam riscos diferentes para homens e mulheres. O esperma permanece no aparelho genital feminino após o fim da relação sexual, enquanto o tempo de exposição do homem à secreção vaginal se encerra com o fim do ato.

Por outro lado, o do machismo e da auto-submissão, na maioria das vezes é o homem que decide sobre usar ou não usar preservativos, e frequentemente as mulheres encontram dificuldades na hora de negociar o uso de camisinha com seus parceiros, devido à intransigência e ao autoritarismo. Muitas fazem questão do preservativo durante os primeiros meses de relação, mas abrem mão de se proteger quando consideram que o relacionamento se tornou estável.

Em geral, mulheres casadas não se veem como ameaçadas, mas na verdade correm o risco de serem duplamente castigadas pela infidelidade dos seus maridos, moral e fisicamente, sofrendo com a traição e com a exposição à Aids por homens infiéis e irresponsáveis ao mesmo tempo.

Tudo isto sem contar os lugares onde as mulheres sequer podem se recusar a manter relações sexuais com maridos infectados, ou onde a violência sexual alcança níveis epidêmicos — como as zonas de conflito na África — e onde a miséria não deixa muitas escolhas senão a prostituição. Ao mesmo tempo, os homens heterossexuais sequer são incluídos nos grupos de alto risco.
Na África, onde vivem 67% de todos os portadores do vírus HIV do mundo, a Aids é nada menos do que a principal causa de mortes. A Suazilândia, pequeno e pobre país do sul do continente, vive um drama particular: tem a maior taxa de soropositivos de todo o planeta. Um quarto da sua mão-de-obra está ausente do trabalho por causa da Aids, segundo dados do FMI. Recentemente, uma das estratégias que chegaram a ser cogitadas para combater a epidemia no continente foi a da circuncisão.

Em 2006, dois estudos mostraram que a circuncisão masculina reduzia em cerca de 50% o risco de o homem ser infectado pelo vírus da Aids. Houve muita esperança de que a guerra de 25 anos contra o HIV no continente africano pudesse finalmente ser ganha por meio desta cirurgia simples, rápida, barata e sem maiores riscos. Mas em 2007 o resultado de um novo estudo, financiado pela Fundação Bill e Melinda Gates, foi como um balde de água fria, ao mostrar que a circuncisão não garante qualquer proteção a mais para as mulheres, o que comprometeria significativamente sua eficácia enquanto estratégia de prevenção.

A Coalizão de Primeiras-damas e Mulheres Líderes da América Latina sobre Mulher e Aids vem alertando para o fato de que a doença já atinge mais de meio milhão de latino-americanas. No ano passado, às vésperas da 17ª Conferência Mundial sobre a Aids, realizada na Cidade do México, a fundadora e presidente da coalizão, a primeira-dama de Honduras, Xiomara Castro de Zelaya, culpou o machismo pela crescente feminização do HIV na região.

Em 2007, a ativista argentina Patrícia Pérez, que é soropositiva, foi indicada ao prêmio Nobel da Paz por seu trabalho de alerta sobre esta feminização. Perdeu para Al Gore, mas seu grito permanece urgente.

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8 Opiniões

  1. ruthinha disse:

    Mulheres casadas, usem camisinha alegando o aspecto anticoncepcional. Não ofende o parceiro e garante a saúde. Gostei do artigo

  2. Rafael disse:

    HIV é considerada uma DST. Em relação as DSTs as mulheres são mais susceptíveis à infecções. Mesmo assim não concordo que AIDS é doença de mulher. O maior grupo de risco são os homossexuais.

  3. Genedite Torres disse:

    Na verdade,o grito urgente ainda se ouve,contra esta epidemia do HIV que assola o mundo.Toda raça humana precisa se prevenir,seja homem,mulher,homossexuais,etc…Mulheres,cuidado!estamos mesmo na probabilidade de contágio e vamos nos prevenir e diminuir este triste percentual.AH,não esqueçam também do auto-exame das mamas e da mamografia periódica.E PARABÉNS,HUGO,PELA MATÉRIA.

  4. maria amelia disse:

    Lamentável esta feminização da Aids, ainda mais porque vem se dando por razões não apenas biológicas, mas também sociológicas. Parabéns ao ON por ecoar o grito, que é mais do que urgente. É pra ontem!

  5. sandra rodrigues disse:

    acho que à aids,hpv,hepatite c.e outras doenças transmisiveis sexualmente.deveriam ser mais ,divulgadas e esclarecidas …a maior parte da popilação desconheçe.o tempo que a tv.divulga quem beija quem.poderia divulgar isto…..

  6. Luiz disse:

    Com a indústria pornográfica crescendo, a imoralidade sexual imperando, a mulher provocando e excitando, a mídia apoiando, o governo avacalhando e distribuindo camisinha nas escolas para crianças de dez anos, a pedofilia se alastrando, os jovens se drogando, o abôrto se aproximando, o homossexualismo exaltado como uma virtude,a família sendo difamada como culpada(de quê?) só há uma coisa a fazer: Mulheres, fechem as pernas!!!!!

  7. Neusi Maria Manso disse:

    Adorei o depoimento do Luís. Tb parabenizo o ON. Precisamos divulgar esta triste estatística.Mais uma para sobrar para nós.Que vergonha para nossos parceiros, companheiros. Sempre atrasados,precisando nos prejudicar para se auto afirmarem e se esconderem da própria covardia.

  8. Rejane Oliveira disse:

    maravilhoso! adorei o artigo.Pena que ainda são tão poucas mulheres concientes e que tem acesso a estas informações.Mulheres não deixem de usar o preservativo.Nunca.Amem-se!

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