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Processos terapêuticos

Arteterapia: do isolamento à construção de uma identidade

Emanuelle Bezerra

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Uma punição por discordar dos métodos adotados nas enfermarias e a doutora Nise da Silveira inaugura no Brasil, em 1946, uma das terapias mais crescentes no país: a arteterapia. Ela se recusava a aplicar eletrochoques em seus pacientes e por isso foi transferida para o departamento de terapia ocupacional, o que seria uma punição, pois essa vertente era menosprezada pelos médicos na época. Mas Nise fez disso uma oportunidade de seus pacientes se expressarem e interagirem com o mundo por meio das artes.

No lugar das tradicionais tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, ela criou ateliês de pintura e modelagem e, com isso, revolucionou a Psiquiatria então praticada no país. A intenção da doutora era possibilitar aos doentes um contato com a realidade por meio da criatividade. A produção nestes ateliês foi tão intensa que despertou grande interesse científico e mostrou a utilidade de técnicas artísticas no tratamento psiquiátrico. O legado que a doutora Nise da Silveira deixou para a medicina foi de tamanha importância, que o espaço onde estava instalado o Centro Psquiátrico Pedro II foi transformado no Museu de Imagens do Inconsciente para expor as obras dos pacientes. Inicialmente o museu serviu para, por meio do estudo de imagens e símbolos, acompanhar o quadro clínico dos doentes.

Inspirados no trabalho de Nise da Silveira, inúmeros profissionais passaram a se utilizar destas técnicas no tratamento de transtornos mentais. Mas, ao contrário do que possa parecer, a arterapia não é uma terapia alternativa, como explica a psicóloga e arterapeuta Angela Philippini. “Fora do Brasil este processo já existe há 55 anos, foi criado por Jung e é um campo de conhecimento muito específico”. O trabalho de Nise da Silveira foi contemporâneo aos primeiros pesquisadores dos outros países. Nise foi aluna de Jung.

O psicólogo Sidney Dantas, que também é musicoterapeuta do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro, conta que esses dispositivos no tratamento, seriam inimagináveis nas décadas passadas, antes da Reforma Psiquiátrica, que teve início em 1970. “A partir desta data o que acontecia nos ‘porões’ dos sanatórios começou a vir à tona. Era uma falta de humanidade da própria classe médica, tratamentos violentos, que quando foram expostos, obrigaram as autoridades a reformar o sistema”, conta.

O tratamento dos portadores de transtornos mentais era baseado no isolamento. A rotina não permitia que o paciente tivesse uma vida normal. A lei antimanicomial trouxe um desafio para a classe médica: tirar o paciente deste isolamento e inseri-lo na comunidade. Com a arte, vista inicialmente como um complemento, isso mudou. Segundo Dantas, o isolamento não permitia a melhora no quadro clínico. O psicólogo afirma que este processo artístico atende a esta necessidade. “Desta maneira o paciente pode se expressar, interagir com o mundo, se sentir útil e aceito. Há algo que ele sabe fazer bem. Então escolhe as atividades com as quais tem mais afinidade, descobre e mostra seus talentos”.

Já Angela não pôde empregar as técnicas aprendidas no mestrado em Criatividade na instituição em que trabalhava, então decidiu fundar o Instituto Pomar, em 1982. “A vida das pessoas que são tratadas com arte muda substancialmente. São mudanças muito fortes, muito positivas de auto-imagem, de fortalecimento de identidade, na coragem de se comunicar de maneira mais clara e objetiva. Isso a arte pode fazer pelas pessoas, fazer com que se expressem de um jeito mais diversificado”. Ela diz também que há alguns anos os profissionais de saúde se tornaram mais dispostos a implementar a arte nos processos terapêuticos. “Esta metodologia aqui no Brasil ainda é considerada inovadora”, diz.

Além de transtornos mentias a arteterapia ajuda no controle de problemas neurológicos. “Na realidade a arteterapia tem uma ampla elegibilidade, o que significa que ela pode atender a vários tipos de processos de adoecimento, deste os transtornos mais graves a problemas de ordem neurótica”. Isso significa que as pessoas que sofrem com problemas da vida cotidiana, como stress, podem ser beneficiadas por este processo terapêutico. Em arteterapia existem vários campos de especialização, com a psicopedagogia. Esta vertente trata das dificuldades de aprendizagem, das de ordem pscicomotoras etc.

Além do controle, e, em alguns casos, a cura, a arte traz a inclusão do doente. O trabalho de arteterapia parte do pressuposto de que a criatividade é inerente ao ser humano. “Todas as pessoas podem se expressar através das artes, podem criar, todas as pessoas têm uma potencialidade, uma habilidade, um talento. Esse processo vai despertar essa consciência, o que beneficia várias áreas da vida do indivíduo. Na minha opinião, essa é a revolução da arteterapia. O fortalecimento do indivíduo por meio da sua própria criatividade”, encerra.

Veja abaixo a entrevista com a arteterapeuta Angela Philippini:

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7 Opiniões

  1. Dorival Silva disse:

    A doutora Nise da Silveira foi uma heroína que deveria ser mais homenageada do que foi. Uma grande pioneira da arteterapia.

  2. Carlos Gross Miranda disse:

    ATENCAO!!
    A boa reportagem e aquela que transfere ao leitor as diferencas.
    Psiquiatria e psicologia sao estudos para situacoes completamente diferentes e com tratamentos totalmente diferenciados.
    A reportagem transmite ao leitor erroneamente uma similaridae inexistente.

  3. Markut disse:

    E impressionante a relativa recente mudança dessa percepção, em relação à necessidade de o ser humano precisar, de forma vital, dos meios de comunicação com o seu próximo.
    A exclusão e o vácuo são condições que nenhum ser humano suporta.

  4. Leonardo Valesi Valente disse:

    Simplesmente depreciante uma matéria como esta. Não sei se o descuido foi da fonte, fornecida pelo psicólogo que promoveu a consultoria, ou se da própria jornalista que não soube filtrar. Mas incutiu em diversos erros, dentre eles os mais grotescos:
    – a Drª Nise NUNCA, em tempo algum, nunca inaugurou, nem promoveu arteterapia; muito pelo contrário, ela sempre resgatou as artes e os ofícios dando corpo à uma prática sócio-política contra a Psiquiatria na época, e ao seu turno construiu uma das primeiras experiências de Terapia Ocupacional no país com engajamento e manifestação histórica; aliás, ela dizia que a produção dos pacientes nunca poderia ser chamada de artes. Ao inaugurar o Museu ela deixa isso explícito e renega interpretaçõezinhas de que os objetos produzidos pudessem ocupar valor meramente artístico ou pretensamente estético;
    – Terapia Ocupacional ou terapêutica ocupacional, como chamada à época, nunca foi desprezada por médicos, inclusive a prescrição de atividades como práticas terapêuticas datam da Grécia Antiga, depois ganham em Phillip Pinel um status metodológico-científico, além de outros expoentes de renome na história da Psiquiatria Moderna;
    – desde quando Psicopedagogia é um campo de especialização em Arteterapia?! Além do que Arteterapia é um ramo de ênfase na formação continuada dos profissionais, não é a primeira formação, não é graduação. É um campo de saber reconhecido como próprio da Terapia Ocupacional, conforme Resolução do CONSELHO FEDERAL DE FISIOTERAPIA E TERAPIA OCUPACIONAL, que como prática é compartilhada com outros profissionais que assim quiserem se especializar;
    – por último, a afirmação de que a vida das pessoas muda radicalmente quando são tratadas pela arte é no mínimo questionável, dado que não será todo e qualquer sujeito que se identificará com este tipo de abordagem. É no mínimo infantil e irresponsável tal afirmativa, pois um tratamento tem de no mínimo se atentar para as peculiaridades do sofrimento em questão e não oferecer soluções quase mágicas.
    Com pesar que li e não recomendo o artigo acima.
    Atenciosamente,
    Dr. Leonardo Valesi Valente
    Terapeuta Ocupacional

  5. Simone Maria de Bastos disse:

    Achar que arte e terapeutica é capaz de ser
    entendida e afirmada como recuperadora e curativa capaz de dar conta dos multiaspectos da personalidade é no minimo confundir artesanato pra se vender, sem desmerecer o mesmo com processo cognitivo de cunho biopsicosocial.
    Tive oportunidade e a honra de conversar com a Dra Nise, assim como muitas colegas de turma, e ela jamais em tempo algum admitiu tal equivoco, ela sempre explicava enfaticamente para os “artistas plasticos que elogiavam as atividades que os trabalhos na terapeutica ocupacinoal faziam parte do processo de cura dos pacientes pois era o mergulho ao inconsciente e o retorno como um mergulho para a restauração da psique, foi quando “descobriu a teoria iunguiana e trocou inumeras cartas com o mesmo. As obras de tantas pacientes catalogadas por ela foram objetos de estudos e com tal respeito que se tornaram um elo entre o inconsciente e as vivencias materializadas para assim serem transformadoras e clarificadas para isso.
    Espero que as publicações de materias sejam mais fidedignas com a verdade dos fatos e que possam contribuir para o verdadeiro sentido da ciencia e não em colocações de ambito pessoal.
    Atenciosamente

  6. solange disse:

    Sou testemunha. A Ateterapia foi a única forma de terapia que realmente me fez acessar o meu inconsciente e possibilitar a real expressão dos meus sentimentos, sem culpa, sem racionalizações.
    Acredito totalmente na Arteterapia. Torço para que ela seja cada vez mais utilizada e beneficie muito mais pessoas.

  7. Arthur Fernando disse:

    A matéria é excelente e de um conteúdo valiosíssimo. Pena que profissionais das outras áreas queriam “contestar” para tentar evidenciar a sí mesmos e a seus “egos inflamados”.
    Existem áreas diferenciadas para o trabalho terapêutico? Sim, e os próprios profissionais distintos por essas áreas deveriam ser os principais mediadores da cooperação QUALITATIVA que cada uma delas pode oferecer.
    A arteterapia é a excelência em acesso ao mundo do inconsciente. É a expressividade artística pelo processo criativo do cliente, que torna o auto resgate eficiente e eficaz para o arteterapeuta trabalhar.

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