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SAÚDE

‘NYT’ aponta fracasso do Mais Médicos após saída de cubanos

Reportagem do jornal aponta que, até abril, 3.847 postos em quase 3 mil municípios continuavam abertos, mesmo após várias convocações de médicos brasileiros

‘NYT’ aponta fracasso do Mais Médicos após saída de cubanos
Governo brasileiro ainda não conseguiu ocupar vagas deixadas por cubanos (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Uma reportagem publicada nesta terça-feira, 11, no New York Times, um dos principais jornais dos Estados Unidos, alertou para o fracasso do programa Mais Médico após a saída dos profissionais cubanos. Mudanças no programa faziam parte das promessas de campanha do presidente Jair Bolsonaro.

Segundo o texto, até abril, 3.847 postos médicos em quase 3 mil municípios continuavam abertos, mesmo após várias rodadas de convocações de médicos brasileiros. Inicialmente, foram ofertadas 8.517 vagas. A fragilidade do programa coloca em risco a saúde de 28 milhões de brasileiros.

Na semana passada, uma nova convocação foi feita pelo Ministério da Saúde, com 2.149 vagas em 1.130 cidades do país. De acordo com um comunicado da Pasta, esse já é o 18º ciclo do novo programa, que se iniciou quando os médicos cubanos deixaram o país.

Agora, com o primeiro semestre quase totalmente concluído, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e o presidente, Jair Bolsonaro, ainda não conseguiram preencher todas as vagas deixadas pelos cubanos. O rompimento do programa firmado entre Brasil e Cuba ocorreu no fim do governo Temer, devido a críticas de Bolsonaro.

O NYT relembra um comunicado da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), de 2018, que havia chamado a atenção para as consequências de um possível fracasso do Mais Médicos. Segundo a entidade, a falta de médicos do programa pode levar até 37 mil crianças à morte.

O jornal americano baseou a sua reportagem em uma cidade de São Paulo chamada de Embu-Guaçu. O município paulista, com uma população de 70 mil habitantes, perdeu oito dos 18 médicos que atendiam na cidade. Uma clínica de saúde pública do município, localizada no bairro Jardim Campestre, passou a ter médico apenas às quintas-feiras com a saída dos profissionais.

O médico cubano Santa Cobas era o principal responsável pela saúde na localidade. Estava presente na clínica todos os dias. A saída do profissional deixou desamparada cerca de 4 mil pessoas. A enfermeira-chefe da clínica, Erica Toledo, destacou que todos os pacientes amavam o médico.

Ao NYT, a secretária de Saúde de Embu-Guaçu, a médica Maria Dalva, revelou que alertou as pessoas sobre uma possível ascensão de Bolsonaro à Presidência e o risco que ele oferecia ao Mais Médicos. De acordo com a secretária, o programa reduziu em 10% a mortalidade infantil no município em cinco anos, passando de 17%, em 2013, para 7%, em 2018.

Mesmo com o rompimento do acordo entre Brasil e Cuba, mais de 2 mil médicos cubanos optaram por permanecer no Brasil. Alguns comemoraram a decisão de Bolsonaro de não apoiar a “ditadura cubana”, que ficava com a maior parte do salários dos médicos. A situação, inclusive, era muito criticada por diferentes cubanos. Em 2017, o NYT já havia alertado para a revolta dos profissionais, que se viam atuando em uma “forma de trabalho escravo”.

Esse é o caso do médico Karel Sánchez que, antes do rompimento, atuava no município de Cachoeira do Arari (PA). O profissional celebrou a decisão de Bolsonaro com a expectativa de que o presidente brasileiro iria manter a promessa de fornecer um exame para que os profissionais pudessem revalidar seus diplomas.

“Nossos irmãos cubanos serão libertados. […] As famílias deles poderão migrar para o Brasil. E, se passarem pela revalidação, começarão a receber a quantia inteira que estava sendo roubada pelos ditadores cubanos!”, disse Bolsonaro, conforme relembrou o NYT.

No entanto, mais de cinco meses após assumir o governo, o exame ainda não foi oferecido. Sánchez, então, desistiu. O agora ex-profissional da saúde mudou-se para São Paulo e vende doces caseiros, além de trabalhar com as bagagens em um aeroporto do estado.

O New York Times também chamou a atenção para a atuação do ministro Mandetta. O titular da Saúde havia informado anteriormente que estava trabalhando em um projeto de lei para enviá-lo para o Congresso entre os últimos meses de abril e maio. No entanto, agora, o Ministério da Saúde prevê que o projeto seja enviado até o fim de junho. O projeto teria como objetivo garantir que as metas do Mais Médicos fossem alcançadas.

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