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SAÚDE

Como parar com os antidepressivos?

Em um novo estudo, pesquisadores mostraram que a interrupção gradual do uso de antidepressivos é benéfica para a saúde dos pacientes

Como parar com os antidepressivos?
Existem poucos estudos sobre a interrupção de antidepressivos (Foto: Wikimedia)

Na tentativa de interromper o uso de antidepressivos, milhares de pessoas têm sintomas, às vezes graves, de abstinência como insônia, crises de ansiedade e sensação de zumbido elétrico no cérebro. Essa síndrome de privação pode se prolongar por meses ou anos.

Mas, com frequência, os médicos não dão a devida importância às queixas de seus pacientes, atribuindo-as à recorrência de distúrbios psíquicos.

A divergência entre os relatos dos pacientes e a opinião dos médicos tem sido objeto de discussões acaloradas no Reino Unido, onde no ano passado o presidente do Royal College of Psychiatrists alegou que os medicamentos podiam ser suprimidos em um curto espaço de tempo, sem prejuízo para a saúde dos pacientes.

A declaração pública do presidente do Royal College recebeu apoio de associações de psiquiatras dos Estados Unidos e de outros países. Porém, em um artigo recém-publicado na revista científica Lancet Psychiatry dois psiquiatras britânicos refutaram essa opinião.

Com base em pesquisas bem fundamentadas, Mark Horowitz, médico do National Health Service (NHS), o serviço nacional de saúde do Reino Unido, e professor da University College de Londres, e David Taylor, professor de psicofarmacologia do King’s College de Londres, sugeriram que a eliminação dos antidepressivos deveria ser feita aos poucos, às vezes por períodos de mais de um ano, segundo o estudo de cada caso individual.

“Conheço pessoas que param de repente e não sentem efeitos colaterais”, disse Horowitz. “Outras, no entanto, sofrem muito com a síndrome da abstinência”.

A psiquiatria tem poucos estudos minuciosos referentes à interrupção de antidepressivos, apesar do uso prolongado de medicamentos ter duplicado na última década nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Mais de 15 milhões de americanos tomaram antidepressivos por pelo menos cinco anos, uma taxa que quase triplicou desde 2000, segundo uma análise dos dados do governo federal realizada pelo New York Times.

Pesquisadores que se dedicam ao estudo da interrupção do uso de antidepressivos elogiaram o artigo. De acordo com Dee Mangin, professor da Universidade McMaster, no Canadá, o artigo comprova os relatos dos pacientes sobre seus sintomas de abstinência. “Os pacientes sentem-se extremamente frustrados diante da pouca empatia dos médicos em relação aos seus relatos”, disse Mangin.

Horowitz e Taylor basearam suas pesquisas em experiências pessoais durante o processo de desintoxicação do organismo após o uso prolongado de antidepressivos.

Além da literatura especializada, os dois pesquisadores consultaram fóruns online nos quais pessoas que tomavam antidepressivos trocavam ideias sobre as melhores formas de interromper o tratamento. Nessas discussões prevalecia a recomendação de diminuir aos poucos as dosagens.

Em um estudo realizado em 2010, pesquisadores japoneses mostraram que 78% das pessoas que interromperam o tratamento com o medicamento Paxil em um curto espaço de tempo tiveram sintomas graves de abstinência. Com a diminuição gradual da dosagem ao longo de nove meses e, em alguns casos especiais, durante quatro anos, só 6% sofreram com a síndrome da privação.

Em outro estudo realizado em 2018, pesquisadores holandeses relataram que 70% das pessoas que reduziram aos poucos os medicamentos Paxil e Effexor tiveram uma transição mais suave durante o processo de desintoxicação.

Segundo Horowitz e Taylor, imagens de ressonância magnética mostraram que os medicamentos Paxil, Zoloft e Effexor inibem a receptação da serotonina, um neurotransmissor que atua no cérebro e causa uma sensação de bem-estar. Ao ter esse efeito, os antidepressivos aumentam e prolongam essa sensação.  Por esse motivo, a interrupção brusca desses medicamentos pode ter efeitos colaterais sérios.

Horowitz e Taylor recomendam a seus colegas que façam mais pesquisas, a fim de desenvolver estratégias de interrupção de tratamentos com antidepressivos que atendam às peculiaridades de cada paciente e do tipo de medicamento.

Fontes:
The New York Times-How to Quit Antidepressants: Very Slowly, Doctors Say

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