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Saúde do coração

De forte palpitação à morte súbita: o perigo do silêncio da arritmia cardíaca

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Bastava a taquicardia começar que Teresa já sabia: era hora de se deitar em algum lugar para aliviar batidas cardíacas rápidas e repentinas. Teresa da Costa Gonçalves, de 66 anos, conviveu com a arritmia desde a puberdade e, aos 65, descobriu que a cirurgia era inevitável: “Havia chegado ao limite máximo de relutância”. Muitos, no entanto, confundem os sintomas da doença com os atribuídos ao estresse ou mesmo à Síndrome do Pânico. A morte súbita, provocada pela arritmia cardíaca, é a doença que mais mata no mundo.

“O coração faz normalmente uma seqüência de 60 a 100 batimentos por minuto. As alterações nesse ritmo são as chamadas arritmias”, explica o cardiologista Eduardo Saad, especialista em arritmia cardíaca do Instituto Nacional de Cardiologia e membro especialista da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas. Quando o coração bate menos de 60 vezes por minuto, a arritmia é chamada de bradicardia. Quando é mais de 100, taquicardia. As mortes súbitas provocadas por problemas cardíacos são bastante comuns, acontecem a cada cinco minutos em todo o mundo. De acordo com a Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas, 50% das mortes causadas por problemas cardiovasculares ocorrem subitamente.

Atualmente considerada uma epidemia mundial, a fibrilação atrial é um dos tipos mais comuns de arritmia cardíaca, o mais difícil de tratar e o que mais mata. A dificuldade de se comprovar a existência da doença acontece pelo fato de a fibrilação atrial poder ocorrer de maneira silenciosa, sem causar qualquer sintoma. “Frequentemente, os problemas elétricos do coração são ‘ocultos’, só é possível detectá-los no caso de se conseguir registrar um eletrocardiograma no momento em que os sintomas estão presentes. Fora da ‘crise’, todos os exames podem ser normais, não deixando marca”, explica o Dr. Saad, que afirma que a doença pode provocar a formação de coágulos no coração e, consequentemente, embolias, principalmente para o cérebro, o chamado Acidente Vascular Cerebral (AVC).

O caso de Teresa era grave. “A cirurgia era inevitável, pois já com 65 anos percebi que havia chegado ao limite máximo de relutância.” Teresa afirmou que as crises de arritmia eram esporádicas e não se apresentavam por causas definidas. “A taquicardia sempre foi minha parceira. No início os episódios eram totalmente imprevisíveis. Aconteciam quando estava sentada estudando, caminhando na rua, dirigindo, fazendo exercícios. Eles não dependiam de estresse.”

A paciente conta de um episódio em que, após fazer exercício com seu personal trainer, a taquicardia apareceu inexplicavelmente e apenas cedeu com injeção. “Fui para casa e, como de costume, deitei-me, mas ela não passou. Meu filho médico mandou que eu fosse diretamente para o hospital do coração. Ao passar por monitoramento, foram acusados 230 bpm.”

No Brasil, a doença é a quinta maior causa de internação no Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com o SUS, o mal faz anualmente 160 mil vítimas no Brasil. Nos Estados Unidos, a cada ano, 5 milhões de pessoas são atingidas pela fibrilação atrial e 350 mil morrem vítimas da doença. Atualmente, 10% da população norte-americana, acima de 80 anos, têm o mal. Na Europa, ocorrem 500 mil mortes por ano devido à doença. Uma em cada quatro pessoas pode desenvolver a fibrilação atrial a partir dos 40 anos de idade. “Acima dos 40 anos, o mal súbito mata mais do que câncer de mama, de próstata, Aids, assassinatos e acidentes de trânsito juntos.”

Muitas pessoas, no entanto, acabam considerando os sintomas da doença apenas sensações momentâneas. As batidas mais fortes podem surgir em uma conversa com amigos, ou mesmo dormindo. Disparos no coração, falta de ar, dor no peito, tonturas e até mesmo desmaios. Em muitos casos, o indivíduo confunde os efeitos com a Síndrome do Pânico. As batidas podem ser bem rápidas, mas comumente são desproporcionais ao grau de ansiedade ou esforço. Além disso, a sensação que causa é diferente de uma aceleração normal do coração.

Dr. Eduardo Saad analisa que, devido ao fato de a doença ser confundida com outros males, não só os pacientes mas também os próprios médicos minimizam a existência de arritmias.

Quase na totalidade dos casos, a arritmia cardíaca começa em um descompasso elétrico que tira o coração de seu ritmo normal — a chamada fibrilação ventricular. De acordo com Saad, é necessário um atendimento rápido. “A vítima perde 10% de chance de sobreviver a cada minuto sem ajuda.”

Teresa disse que, desde muito nova, via sua mãe, que morreu com 96 anos, deitando-se e pedindo um copo de água com açúcar para minimizar seus batimentos cardíacos, que, “de tão fortes, eram percebidos através da roupa”. Ela afirma que a arritmia não atrapalhou o seu desenvolvimento. “Fui criança, adolescente e adulta com atividades múltiplas, desdobrando-me entre estudos e atividades físicas. Fui nadadora, fiz ballet, dança de salão, participava de competições.” Ela conta, no entanto, que havia um certo constrangimento, por exemplo, ao terminar uma competição de natação e ter que deitar na borda da piscina para esperar normalizar a frequência cardíaca.

Como resolver?

A boa notícia é que a fibrilação atrial tem cura. Se as medicações existentes são capazes de controlar o problema em até 50%, o procedimento conhecido como ablação expande o controle para entre 85% e 90%. O Dr. Saad conta que o tratamento consiste na utilização de fios — cateteres — colocados dentro do coração para corrigir ritmos anormais, o que elimina os sintomas.

Na ablação, a lesão provocada no tecido cardíaco por meio da cauterização não deve ser excessiva, uma vez que pode furar o coração ou mesmo provocar formação de coágulos. A técnica do eco intracardíaco, uma microcâmera dentro do coração, é um caminho utilizado pelos médicos para minimizar riscos. O mais complexo deste tipo de tratamento é a chamada ablação de FA, que exige um maior número de cauterizações.

O especialista defende a importância de deixar disponíveis desfibriladores em locais de grande movimento. Esses aparelhos fazem um eletrocardiograma imediato e, se necessário, disparam um choque calculado para recuperar o ritmo cardíaco. Eles podem ser manipulados por leigos e, em alguns casos, aumentam em até 70% as chances de sobrevivência.

No caso de Teresa Gonçalves, foi feita uma ablação. “Esta cirurgia em condições habituais leva cerca de 1 hora; a minha durou quatro horas. Havia quase a indicação para colocação de marca passo. Hoje, depois de quase 12 meses, não mais tive episódios de taquicardia e não faço uso de medicamentos”.

O marcapasso é um aparelho que gera impulsos elétricos aplicados diretamente no coração e que estimulam o batimento cardíaco. O implante é indicado quando as bradicardias são sintomáticas e perigosas. Cada vez mais marcapassos são implantados em todo o mundo.

O tratamento para a arritmia vai depender do tipo específico da doença. Em alguns casos, o uso de medicação é suficiente para prevenir a ocorrência de novos episódios arrítmicos.

Então, como saber se alguém tem arritmia cardíaca?

As pessoas devem procurar um cardiologista para detectar os fatores de risco — como hipertensão, diabetes, obesidade, história familiar de morte súbita — e fazer exames preventivos. O primeiro passo é um eletrocardiograma.

Atualmente, as pessoas, após conhecerem os sintomas da doença, devem esperar que eles ocorram novamente e fazer um registro com eletrocardiograma durante a “crise”. É preciso um pouco de sorte de ter os sintomas e conseguir registrar o eletro. Há a disponibilidade do uso de um monitor que grava o eletrocardiograma por sete a 15 dias, esperando que a “crise” venha nesse período. A ação pode ser feita em um serviço de emergência de forma imediata, e o paciente ser examinado enquanto a aceleração está presente.

Existe também o teste provocativo. Se os sintomas justificam, essa avaliação deve ser detalhada. Nesse caso, há uma avaliação específica da parte elétrica do coração através de um cateter que pode dar a resposta definitiva – o chamado Estudo Eletrofisiológico.

“Caso se comprove sua existência, a arritmia pode ser tratada definitivamente por cauterização no local afetado, processo denominado de ablação por cateter. A grande maioria dos casos de arritmias pode ser curada com esse método, sem a necessidade do uso de remédios. Tudo isso por um pequeno furo com agulha em uma veia da virilha, sem pontos ou cortes”, conclui o cardiologista especialista em arritmias.

Quais os maiores alvos da doença?

Apesar de a fibrilação atrial poder ocorrer em qualquer indivíduo, de qualquer idade — há casos de arritmias primárias — as pessoas mais propensas são as que já tiveram um problema cardiovascular, como enfarte, isquemia, insuficiência cardíaca e lesões das válvulas. De acordo com o Dr. Saad, pessoas mais idosas e mulheres jovens são alvos mais comuns.

Os alvos podem estar até mesmo nas academias, quando frequentadores não apresentam os exames médicos necessários antes de começarem os exercícios de musculação.

Conheça o site do Dr. Eduardo Saad.

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Sua Opinião

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  1. Valéria disse:

    Olá! ESPORADICAMENTE TENHO PALPITAÇÃO SÚBITA ISOLADA E ME FALTA O AR, EM REPOUSO OU EM ATIVIDADE. AS VEZES DA DOIS “TRANCOS” QUE SINTO NA GARGANTA E MELHORA, COISA DE SEGUNDOS. sERÁ QUE PODE SER ALGO NO CORAÇÃO? TENHO 34 ANOS E SINTO ISSO HÁ MAIS OU MENOS UNS 5 ANOS, MAS NUNCA DESMAIEI. SINTO MUITA FADIGA, PESO NO PEITO…

  2. Walerson disse:

    Dr. Saad

    Fui diagnosticado com pressão alta a dois meses e o médico me receitou o captopril de 8 em 8 horas … só que a duas semanas tenho percebido o batimento cardíaco alterado, ou seja, mais acelerado. Tenho que me preocupar com isso ?

    Grato

  3. Van disse:

    fiz uso do medicamento Alenia pra asma por uns 3 anos e agora parei por conta própria por estar sentindo esses sintomas batimentos muitos fortes sem faze esforços tem alguma recomendação

  4. lucia disse:

    gostei muito da explicação foi ótimo agradeço muito obrigado

  5. robson disse:

    tenho arritimia constantemente e me causa um grande desconforto tenho 55 anos e agora esta vindo com mais frequencia. mas nunca consigo fazer um eletro cardiograma na hora da crise;
    um especialista me passou AS mas nao tomei porque raleia muito o sangue.
    me oriente que devo fazer.
    Att; Robson