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Mindfulness, uma meditação diferente

Meditação permite que praticantes apliquem as técnicas em situações cotidianas

Mindfulness, uma meditação diferente
Não é preciso estar em uma posição específica para praticar o Mindfulness, inclusive é possível usá-lo em atividades diárias (Foto: Pixabay)

Ao mesmo tempo em que você lê este texto, provavelmente, está pensando nas tarefas que tem que fazer ao longo do dia. Seu telefone vibra, indicando uma notificação, e você quer largar tudo, porque precisa saber o que é. Durante uma conversa, você não tira os olhos do celular. Você é uma pessoa muito atarefada e pode muito bem fazer duas, três, quatro coisas ao mesmo tempo. Quando reclamam que não está prestando atenção, você se irrita, porque ninguém te entende. De manhã, você pega o carro, liga o som, começa a pensar que hoje é dia de reunião de condomínio e quando vê, já está na porta do trabalho. Seria ótimo, se não estivesse de férias.

Perder o foco e a atenção é um problema comum nos dias de hoje, quando nos propomos a ser multitarefa. Com tanta distração, principalmente, com os diversos tipos de aparelhos eletrônicos, muitas vezes, entramos no modo automático. A prática da meditação Mindfulness, também conhecida como Atenção Plena, vem exatamente para fazer com que o praticante esteja realmente presente no que está fazendo, seja comendo, tomando banho, ou escovando os dentes. “Existem estudos indicando benefícios desde a redução do estresse até programas que foram especialmente desenvolvidos para indivíduos com depressão e dependência de drogas, associados à terapia cognitivo-comportamental”, explica a pesquisadora Elisa Kozasa, do Albert Einstein.

O psicólogo e instrutor de Mindfullness Marcelo Oliveira, de São Paulo, explica que o termo “Mindfulness” pode estar relacionado com várias coisas diferentes como técnicas meditativas, estado de consciência, um programa que dura oito semanas, entre outras coisas. Há centenas de tipos de meditação, o Mindfulness é apenas uma delas. Ele diz que dentro da ciência há muito preconceito em relação à prática. “Até entre colegas, há o preconceito velado, que acha que a gente vai sugerir meditação para pessoa não pensar em nada. E mindfulness não tem nada a ver com isso.”

O programa de Mindfulness não é indicado para quem apresenta transtornos mentais graves nem para quem esteja em fase aguda de alguma doença, como numa depressão, numa crise forte de ansiedade, ou até para aqueles que estão muito medicados.

Palavras de quem pratica

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Ana Carolina Antunes praticando ao ar livre (Foto: arquivo pessoal)

A dermatologista Ana Carolina Antunes, que já praticava outro tipo de meditação, fez o programa de oito semanas em 2014 e disse que a experiência mudou completamente sua prática de meditação, porque ela conseguiu  incorporar mais a técnica em sua rotina diária. “O Mindfulness não te retira da condição de ansiedade ou de estresse, mas ele te ensina a lidar com isso de uma forma mais natural.”

Além disso, dentro da prática não existe julgamento. Logo, se um dia a meditação foi mais traquila e no outro, ela for mais agitada, não tem problema. “Não existe um julgamento, mas uma observação de como você está naquele momento. Não é uma aceitação de acomodação, mas uma constatação que faz você se conhecer melhor e entender como você está naquele momento”, conta.

Esta foi uma lição que Vitória*, de Porto Alegre, aprendeu no primeiro dia do programa de oito semanas. Aos 22 anos, ela, que é formada em Relações Internacionais, recebeu indicação do psiquiatra para complementar a terapia e a medicação com o Mindfulness para controlar a ansiedade. No primeiro dia, a proposta era se concentrar por alguns minutos, pensando somente naquele momento. “Eu não me concentrei nada e pensei: ‘eu estou aqui pagando esse curso e eu sou uma negação nisso’.” Mas quando a instrutora pediu um retorno e ela disse que não tinha ido bem, a instrutora falou exatamente sobre a autogentileza do Mindfulness, de não se cobrar nem se julgar, e que a prática iria melhorar com o tempo. Realmente, melhorou. “Eu me tornei uma pessoa mais tranquila de modo geral”, comenta.

Nós costumamos prezar uma boa alimentação, uma prática regular de atividade física, mas geralmente não pensamos sobre o tempo para a mente. “As pessoas dizem que não têm tempo e não têm tempo mesmo, porque o tempo está mal gerenciado. Cada vez mais as pessoas estão perdendo a qualidade de parar e se autobservar para perceber o que está acontecendo dentro delas”, explica a psicóloga e instrutora de Mindfulness, Daniela Sopezki, que fez um canal no Youtube sobre a prática.

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Eduardo Uszacki agora aproveita o seu presente com atividades que sempre quis fazer (Foto: arquivo pessoal)

Eduardo Uszacki, 28 anos, é advogado e também trabalha no Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul. Como estava passando por um momento cheio de atividades profissionais e muito estresse, ele resolveu dar uma chance para o programa. “O contato com a filosofia que inspira o Mindfulness me trouxe profundas reflexões sobre o quanto de fato eu estava presente nos momentos da minha vida e a conclusão foi assustadora: percebi que dos sete dias da semana, cinco eram um cronograma rígido de atividades profissionais, com horário para dormir e me alimentar, e nos outros dois ou estava cansado ou estressado para aproveitar a vida, foi aí que decidi mudar.” Com o tempo, ele começou a buscar coisas que nunca tinha feito por falta de tempo, como surfar. “O Mindfulness transformou minha vida estressada em uma vida que eu realmente quero viver.” Ele, que tem Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), pratica a meditação há seis meses.

O grande desafio do Mindfulness

Quando lidamos com crianças, geralmente aconselhamos que elas não fujam de seus problemas, só que na prática, acabamos por não seguir nosso próprio conselho. “Quando estamos incomodados ou estressados, geralmente, saímos, fazemos outra coisa para sair dali, tudo para não ter que entrar em contato com o problema e ver o tamanho do incômodo”, explica a psicóloga Daniela Sopezki.

Mas ela explica que a meditação Midfulness não tem como objetivo relaxar o praticante, apesar de poder causar essa sensação. “Olhar para o seu momento presente, para o seu aqui e agora, pode parecer bem poético, mas às vezes, o seu aqui e agora, o seu momento presente é bem ruim e você vai olhar para ele. O Mindfulness te convida para olhar para os monstros e para os prazeres da vida, para sua realidade presente”.

Dicas para começar

Para quem quer começar a praticar, o ideal é procurar um bom profissional. “Existe uma popularização, acompanhada de modismo, e pessoas não preparadas adequadamente querendo ensinar Mindfulness simplesmente como um negócio… Por outro lado existem instrutores sérios e habilidosos que podem trazer um importante ganho na qualidade de vida e bem-estar das pessoas”, comenta Elisa Kozasa.

No entanto, tabém há livros sobre o assunto e aplicativos para celular. O aplicativo Headspace é um exemplo bem popular. A ideia é que você tire dez minutos por dia para você. Ao baixar o aplicativo, você tem direito a dez sessões gratuitas, os outros materiais só estão disponíveis na versão paga. Nestas sessões iniciais, você pode ver animações que fazem analogias sobre o funcionamento da mente com situações mais concretas, de como, por exemplo, você não consegue dormir quando quer muito dormir porque sabe que precisa fazer isso. Mas o ponto principal das sessões é um áudio que orienta na hora das práticas da meditação. O aplicativo foi idealizado por Andie Puddicombe, ex-monge budista, e Rich Pierson, que trabalha com marketing digital. Até o fechamento desta matéria, 5 milhões de pessoas haviam se registrado no aplicativo.

Os Estados Unidos e o Reino Unido são dois países que se destacam na aplicação da prática do Mindfulness. “No caso do Reino Unido, especificamente, o país parece realmente querer ser um país Mindfulness”, diz Marcelo Oliveira. Existe um grupo de discussão sobre o assunto dentro do Parlamento que discute como seria possível aplicar a prática em escolas, em hospitais e em outras áreas.

Caro leitor,

Você já conhecia o Mindfulness? Já tentou praticar?

 

* A personagem não quis se identificar na matéria

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3 Opiniões

  1. Flávio Vitor disse:

    Mindfulness na verdade é apenas uma simplificação da meditação Vipassana. Nada além disso.

    Não é nova. Buda já a ensinava.

    Simples assim.

  2. Áureo Ramos de Souza disse:

    E do jeito que se encontra nossa vida com este país desgovernado e nos deixando cheios de problemas com aumento de tudo, como vamos ter condição de meditar com a cabeça confusa e cheia de débitos.

  3. Ludwig Von Drake disse:

    É Mokuso, técnica de meditação zen-budista ensinada em algumas escolas de artes-marciais japonesas que ainda seguem tradição.

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