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SAÚDE

Nanopartículas em alimentos: uma ameaça à saúde

Uso de nanopartículas para melhorar a aparência de alimentos pode ter efeito tóxico no organismo e contribuir no desenvolvimento de câncer

Nanopartículas em alimentos: uma ameaça à saúde
Segundo pesquisas, nanopartículas provocaram alterações em tecidos de diferentes órgãos (Foto: Flickr/tommy.chheng)

Em abril, o governo da França anunciou a proibição do uso de dióxido de titânio (Ti02) em alimentos e em embalagens de comida, após a divulgação de uma pesquisa sobre o efeito cancerígeno dessa substância química.

A proibição é o mais recente capítulo de um longo debate sobre os possíveis danos à saúde das nanopartículas adicionadas aos alimentos para melhorar a aparência, textura e sabor da comida. Essas nanopartículas penetram na corrente sanguínea e podem ter efeitos tóxicos nas células do fígado e dos rins, além de causar problemas cardiovasculares e cerebrais.

O progresso tecnológico das últimas duas décadas permitiu o desenvolvimento das nanopartículas ─ partículas cujo tamanho situa-se entre 1 e 100 nanômetros, o equivalente à bilionésima parte de 1 metro ─ e, por suas propriedades especiais, elas têm sido cada vez mais usadas no setor de fabricação e processamento de alimentos.

O TiO2 é usado como pigmento branco na preparação de doces, bolos, tortas ​e leite em pó. Mas essa substância química provocou alterações nos tecidos do fígado, baço, rim e pulmão em experimentos com camundongos.

Em razão da preocupação do possível risco à saúde, alguns cientistas recomendam cautela quanto à ingestão de alimentos que contenham nanopartículas. “Como consumidora, lavo com extremo cuidado meus alimentos”, disse Christine Ogilvie Hendren, diretora executiva do Center for the Environmental Implications of NanoTechnology da Universidade Duke, nos Estados Unidos.

Os danos à saúde causados pela ingestão de Ti02 observados nos testes feitos em laboratórios foram mais acentuados em cobaias jovens. Em teoria, o mesmo aconteceria com crianças expostas ao consumo de balas, chicletes e doces.

“As crianças, com sua pequena massa corporal, são mais vulneráveis aos efeitos dessa substância”, observou Christine K.Payne, professora associada de engenharia mecânica e ciência dos materiais na Universidade Duke.

“As pessoas devem evitar o consumo de alimentos que contenham essa substância química. Não há razão para acrescentar nanopartículas de TiO2 em chicletes consumidos por crianças. Não é o brilho do chiclete que as atrai ”, disse Sowmya Purushothaman, pesquisadora associada no campo da biotecnologia na Universidade da Califórnia, em Merced.

O setor de produção, manipulação e aplicação de nanopartículas de TiO2 afirma que não há riscos para a saúde. “Em mais de 50 anos do uso do dióxido de titânio como pigmento branco em alimentos, não se constatou nenhum caso de dano à saúde em seres humanos. Lamentamos a decisão do governo francês de proibir seu uso”, disse um porta-voz da Titanium Dioxide Manufacturers Association.

Em 2013, Cho Wan-Seob, da Universidade Dong-A, na Coreia do Sul, divulgou os resultados de um experimento realizado com camundongos, no qual mostrou que a maior parte do dióxido de titânio ingerida pelas cobaias havia sido eliminada pelas fezes.

Segundo Payne, os testes de concentração de algumas nanopartículas em níveis dez a 100 vezes menores do que os considerados seguros em testes toxicológicos tradicionais, revelam efeitos moleculares e genéticos que fogem ao padrão convencional.

“É uma nova tecnologia e, por isso, ainda há muito a descobrir”, disse Sonia Trigueros, pesquisadora associada da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e ex-codiretora do Oxford Martin Programme on Nanotechnology.

“Nos próximos anos, os cientistas pretendem desenvolver novos tipos de nanopartículas destinadas a transformar as embalagens em biodegradáveis, a aumentar o prazo de validade dos alimentos e evitar o desperdício de comida”, disse Trigueros.

Em um estudo recente, David Julian McClements, da Universidade de Massachusetts, sugeriu que algumas nanopartículas têm efeitos nocivos para o organismo, como as nanopartículas de prata. “As nanopartículas de prata usadas em embalagens de alimentos por sua ação antimicrobiana podem ter um efeito tóxico nas bactérias do intestino”, observou McClements.

A partir de 2011, a União Europeia (UE) passou a exigir que todas as nanopartículas usadas em alimentos constassem com a descrição de sua composição. Além dessa garantia de segurança para o consumidor, a UE também exige que os novos nanomateriais sejam submetidos à aprovação da Novel Foods Regulation antes de serem utilizados.

Em entrevista ao jornal Guardian, diversos pesquisadores mostraram-se preocupados com os efeitos de longo prazo do uso de nanopartículas.

“Há alguns anos, não sabíamos que o amianto causava câncer e doenças pulmonares graves. Hoje, seu uso é proibido em vários países. Durante anos, tentamos comprovar os riscos à saúde do tabagismo. É possível também que os efeitos tóxicos da aplicação da nanotecnologia só sejam comprovados no futuro “, disse Michelle Lynch, química e diretora da empresa de consultoria Enabled Future Limited, com sede em Londres.

Fontes:
The Guardian-'I wash all my food like crazy': scientists voice concern about nanoparticles

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