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Em setembro de 2009, a OMS divulgou um relatório que comprovou o crescimento do número de pessoas com acesso aos remédios anti-retrovirais, responsáveis pelo tratamento da Aids. Segundo a ONU, até o final de 2008 4 milhões de pessoas estavam sob o uso dos medicamentos, um aumento de 38% comparado ao ano anterior. Por outro lado, desde meados dos anos 2000, os alertas da ONU sobre o aumento de casos de Aids no mundo inteiro vêm aumentando. Países como Alemanha, África do Sul e o próprio governo ugandense comprovaram o avanço da doença em seus países. Segundo a ONU, o grupo com maior incidência de HIV positivos são os jovens, principalmente mulheres.
Alguns especialistas atribuem o aumento da doença à eficácia do tratamento, que aumenta a possibilidade de vida do paciente, e às notícias sobre a cura da doença, como a divulgação na mídia em setembro sobre uma vacina que preveniria cerca de 30% das chances de se contrair o vírus. Os pesquisadores do Brookings Institute, especialistas em desenvolvimento na África, Mwangi S. Kimenyi e John Mutenyo acreditam que os anti-retrovirais ajudaram a trazer esperança aos soropositivos e, além disso, cada vez mais pessoas têm acesso a esses medicamentos. “Muitas pessoas se confundem e acham que os anti-retrovirais curam a Aids e que hoje ela já não causa morte. Não é verdade. Infelizmente, o avanço da medicina fez com que as pessoas mudassem seus comportamentos. Nesse caso, para pior”, afirmam Kimenyi e Mutenyo. Já Lucinha Araújo, fundadora e presidente da ONG Viva Cazuza que cuida de crianças e adolescente com HIV, ressalta a importância dos avanços sobre a cura da doença: “Pela primeira vez desde 1996, quando foi anunciado os Inibidores de Protease, que são medicamentos que revolucionaram o tratamento do HIV, não temos uma boa notícia”, mas destaca Lucinha, “a prevenção é fundamental e nada substitui o preservativo”.
O caso de Uganda
Em 1982, o primeiro caso de Aids foi diagnosticado em Uganda, na África. No início da década de 1990, a doença já tinha se tornado uma epidemia no país, atingindo mais de 25% da população urbana de Uganda. O programa de combate à Aids ABC foi criado em 1987 e hoje o índice médio de soropositivos no país é de 6%.
O ABC é calcado em três pilares: na abstinência, na fidelidade e no uso de preservativo. Um dos maiores problemas na época era conscientizar a população rural sobre o perigo dos rituais dos curandeiros tribais. Muitas vezes, um membro da tribo era aconselhado a ter relações sexuais com várias meninas para se curar da Aids e, assim, ajudava a disseminar ainda mais o vírus. Hoje, em Uganda, a lei prevê a punição para os soropositivos que, mesmo sabendo de sua condição, passam o vírus adiante.
Para conseguir atingir toda a população, o programa contou a integração de vários setores da sociedade — instituições religiosas, lideranças políticas e todos os ministérios. Segundo o pesquisador Kimenyi, o presidente Musafeni teve um papel importante na implementação do projeto ABC, indicando um conselheiro especial sobre Aids. Para os pesquisadores do Brookings Institute, o trabalho de conscientização feito nas escolas, a distribuição gratuita de camisinhas e o foco intensivo para a mudança de comportamento na comunicação da campanha foram fundamentais para o sucesso do ABC. “O programa foi apresentado como a única solução para a população ugandense. E era mesmo, porque naquela época não existiam nem mesmo remédios para amenizar o efeito do HIV”, completa John Mutenyo.
Apesar de o caso de Uganda ser conhecido e elogiado mundialmente, alguns analistas criticam a queda de casos de HIV positivos no país. Eles alegam que a diminuição do índice de soropositivos está atribuída ao número de mortes relacionado à Aids e não à campanha do governo ugandense. Para Mutenyo e Kimenyi, trata-se apenas de especulação já que o governo fez uma campanha intensa entre jovens e soropositivos para impedir a propagação do vírus.
Vinte e dois anos após a criação do ABC e de ter conseguido diminuir significativamente os impactos da Aids no país, Uganda volta a ter problemas com o HIV. A doença voltou a crescer, principalmente entre os casados. Mutenyo admite que hoje todos os países africanos devem revisitar as estratégias do ABC e intensificá-las. Para ele, a epidemia do HIV na África mudou as relações políticas, econômicas e sociais do continente nas últimas décadas e é preciso ampliar o diálogo nos países da região para impedir que rituais tribais, como a circuncisão feminina, afetem o combate à Aids.
O programa brasileiro
O Brasil ficou mundialmente conhecido pelo seu programa de combate à Aids principalmente pela questão de distribuição de remédios anti-retrovirais. Hoje, uma das maiores preocupações de pacientes e ativistas é a sustentabilidade do programa. Membro de uma ONG no Rio de Janeiro e soropositivo há mais de dez anos, João* – prefere não ser identificado –, estima que o governo gaste cerca de R$ 1 bilhão por ano para garantir o projeto, principalmente na compra dos medicamentos. O governo garante que o programa nunca será cancelado.
Implementado em 1986, o Programa Nacional de DST e Aids tem como objetivos melhorar a qualidade do serviço público oferecido aos soropositivos, aumentar a cobertura de diagnósticos e de tratamentos à doença; além de tentar diminuir o surgimento de novos casos. Segundo o Ministério da Saúde, foram registrados 474.273 casos de Aids no Brasil entre 1980 e 2007, mas nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste a doença tende à estabilização.
A história de Lucinha Araújo ficou conhecida por todo país depois da morte de seu filho, Cazuza. Desde 1990, ela dirige a ONG Viva Cazuza, direcionada para o tratamento de menores soropositivos. Ela afirma que os avanços do tratamento da doença no Brasil são inegáveis. “O Brasil tem um bom programa de tratamento que é para todos”, diz Lucinha.
O paciente com suspeita de HIV positivo pode realizar o teste em um dos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) não apenas para fazer o exame da Aids como para outras DST’s também. Se o diagnóstico for positivo, o paciente é encaminhado para o Serviço de Assistência Especializada em HIV/Aids, o SAE, onde receberá o atendimento adequado.
O Brasil também ficou conhecido na luta pela quebra de patentes dos remédios anti-retrovirais. Em 2007, o governo quebrou a patente do Efavirenz, um dos medicamentos que ajudam no combate à Aids, e hoje o Programa Nacional já conta com 18 patentes quebradas. Para Lucinha, a questão é importantíssima, pois diminui o custo do tratamento, o que ajuda o governo a oferecer um serviço melhor e mais barato a todos os pacientes. João também divide a mesma opinião: “a quebra das patentes torna o plano nacional de combate à Aids mais barato e, portanto, mais viável, já que a maioria do dinheiro é investida na compra dos remédios”.
* nome fictício