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Quando a solidão e a depressão se tornam ameaças à saúde do idoso

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), comportamentos suicidas são um grave problema de saúde pública. No Brasil, se por um lado os números são considerados baixos quando comparados aos de outras sociedades contemporâneas, por outro, têm crescido consideravelmente. No Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ), um dos quatro grandes postos de atendimento de urgência psiquiátrica do Rio de Janeiro, o psiquiatra Carlos Eduardo Estellita-Lins, pesquisador e professor do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT), da Fundação Oswaldo Cruz, tem sido testemunha desse crescimento, particularmente em duas faixas etárias: entre jovens e entre idosos. “Estamos impressionados com a magnitude do problema em nossa população”, diz. Mais do que impressionar-se, ele transformou o assunto em objeto de pesquisa. Apoiado pelo edital Prioridade Rio, da FAPERJ, ele pretende não apenas divulgar dados, mas ampliar a discussão e produzir ferramentas para ajudar profissionais da saúde a lidar melhor com o problema e elaborar uma proposta piloto para o Ministério da Saúde a embasar iniciativas na área.

“No Brasil, as estatísticas de mortes por suicídio não são confiáveis e devido a problemas legais e gerenciais geralmente são subnotificadas. Os números do Sistema Único de Saúde (SUS) e do sistema que reúne informações dos vários centros toxicológicos do país são discrepantes. Além disso, por diversos motivos — como a falta de preparo da recepção desses serviços e da dificuldade da própria situação numa emergência — faltam dados nos prontuários dos serviços de atendimento de urgência”, critica Estellita-Lins. “Será preciso reconduzir o risco de suicídio para o foco das atenções em emergência como ocorre na Europa” conclui.

No idoso, a questão se torna ainda mais complexa. O suicídio, nesta fase da vida, está sempre atrelado a questões externas. “A depressão é o principal fator para isso. O alcoolismo também tem aumentado na terceira idade e, como se sabe, o álcool, assim como o abuso de substâncias tranqüilizantes e de certos medicamentos — e o idoso toma regularmente um grande número deles — pode levar à depressão”, explica o psiquiatra. Pessoas na terceira idade são particularmente vulneráveis à depressão, já que vivenciam diversas perdas. Ao aposentar-se, deixam a vida produtiva e têm sua renda reduzida. Provavelmente também já perderam familiares e enfrentam a solidão. Ou precisam morar com um dos filhos e nem sempre têm suas necessidades atendidas ou são bem tratados. Às vezes, podem, inclusive, sofrer abuso dos próprios cuidadores”, continua.

“Além disso, em nossa sociedade, o velho costuma ser menosprezado. Exemplo disso é o mercado de trabalho que só costuma aceitar profissionais até 45 anos. Se juntarmos problemas de saúde e essas perdas, teremos uma mistura explosiva. Some-se a isso, o fato de que o idoso tem acesso cotidiano a medicamentos, o que lhe facilita formas de dar cabo da própria vida – Seja tomando-os em excesso ou, ao contrário, deixando de medicar-se”, acrescenta a pesquisadora Alice Ferry de Moraes, que como Estellita Lins também é da Fiocruz e coordena em conjunto com ele uma das quatro vertentes em que se subdivide o trabalho — o levantamento da produção bibliográfica brasileira sobre suicídio e risco de suicídio nos últimos doze anos, pesquisa que ambiciona construir uma base de dados sobre o assunto. Multidisciplinar, as outras iniciativas do estudo em curso são uma pesquisa qualitativa sobre a experiência de suicídio com usuários de urgência psiquiátrica e o desenvolvimento de produtos tecnológicos de psicoeducação para prevenção ao suicídio, no caso um manual e um vídeo, elaborados a partir dos dados colhidos.

“No levantamento bibliográfico que estamos fazendo, constatamos a escassez de material, especialmente de teses sobre o tema. De um modo geral, o suicídio é pouco estudado entre nós. Ainda existe um certo tabu a respeito e os óbitos terminam sendo atribuídos a outras causas. Cemitérios cristãos e judaicos já se recusaram a enterrar suicidas em sepulturas comuns, o que indica a tradição onde nos situamos”, fala Alice. “Sem contar a falta de preparo dos profissionais da área… Mais um motivo para que a pesquisa pretenda não apenas registrar, mas também elaborar protocolos para os médicos que lidam com o atendimento de urgência e profissionais de saúde em geral. Embora o risco de suicídio esteja frequentemente presente na urgência médica, nem sempre é visto com a devida atenção”, acrescenta Estellita-Lins.

Segundo o psiquiatra, chega a haver preconceito com relação àqueles que tentam se matar. Muitos relatam que são alvo de preconceito das equipes que os atendem nas emergências. “Há um pensamento comum e bastante equivocado compartilhado por esses profissionais – de que poderiam estar salvando outras vidas e não atendendo a quem quis acabar com ela. O que indica que a depressão e o risco de suicídio tendem a ser ignorados enquanto agravos à saúde ou doenças”, explica.
 
Durante a primeira etapa da pesquisa, e para conhecer melhor essa população, Estellita-Lins desenvolveu entrevistas com os usuários, familiares e profissionais do CPRJ, em cuja emergência passam diariamente cerca de cem pacientes. “Também já fizemos algum treinamento hospitalar. Nossa maior ambição seria poder influir na reforma psiquiátrica e que a Fiocruz criasse um protocolo para identificar pacientes de risco e preparar os profissionais para lidar com eles. A ausência de treinamento especializado para a psiquiatria de urgência ainda dificulta o atendimento no serviço público”, afirma Estellita-Lins. Até o fim do ano, o grupo espera que essa fase da pesquisa, o vídeo e o guia estejam finalizados. Articulado a iniciativas de outros centros de pesquisa, esse pode ser o passo inicial para se começar a mudar uma realidade.

Fonte: Vilma Homero / Faperj

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