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Uma história de epidemias anunciadas, repetidas e perpetuadas

“Viaje direto para a Argentina, sem passar pelos perigosos focos de epidemias no Brasil”. Isto era o que dizia uma empresa européia de cruzeiros marítimos a potenciais clientes ouriçados com a possibilidade de visitar os mares do sul. O ano em que foi veiculada esta propaganda? O longínquo 1895. Mas não é improvável que algo assim possa ser reeditado nos tempos atuais pelas modernas agências de turismo internacional.

No fim do século XIX ou início do século XXI, o Rio de Janeiro é uma cidade cuja descrição de suas favelas e subúrbios atuais coincide com o que era o estado geral da cidade de outrora: espaço urbano desordenado, saneamento básico deficiente ou totalmente inexistente, condições de higiene precárias e ausência quase completa de esforços por políticas de saúde pública de grande porte — e, neste ponto, equivaler presente e passado talvez seja uma injustiça com o dr. Oswaldo Cruz.

Ou seja, ontem e hoje o Rio é uma cidade que pode ser considerada um verdadeiro foco de epidemias, o que não deixa de ser supreendente quando se leva em conta a importância e a visibilidade de que goza a capital fluminense dentro e fora do país.

O foco atual — com direito a todos os trocadilhos possíveis — é a dengue, mas nunca é demais lembrar que apenas um mês antes de começarem a pipocar os primeiros casos da atual epidemia a cidade esteve alarmada com a proximidade da febre amarela. Bastaram duas dezenas de casos desta doença em todo o Brasil para que a população carioca ficasse à beira do pânico, escaldada que é e castigada ao longo do tempo por doenças perfeitamente evitáveis.

Só na cidade do Rio a procura pela vacina contra a febre amarela aumentou cerca de 1.000% no final de janeiro. Transmissor tanto da febre amarela quanto da dengue, o mosquito Aedes aegypti todo verão é alçado na TV e nos jornais ao posto de inimigo público número um, desbancando o traficante de drogas, que a julgar pelo noticiário parece mais propenso a tiros e julgamentos sumários quando o tempo está mais ameno.

No Rio, assim como na maior parte do país, o incorrigível hábito das autoridades públicas de optar por remediar ao invés de prevenir é tão antigo quanto o longo histórico carioca de epidemias. No verão de 1850, só depois que um surto de febre amarela se instalou e devastou a cidade, o governo do Brasil decidiu criar a Comissão Central de Saúde Pública, convocando membros da Academia Imperial de Medicina e da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, que ficaram responsáveis pela elaboração de um Regulamento Sanitário destinado ao combate à doença em caráter emergencial.

Qualquer semelhança com as manchetes atuais não é mera coincidência. E engana-se quem pensa que a dengue é a única doença a se alastrar hoje de forma epidêmica na cidade do Rio de Janeiro sem que maiores providências sejam tomadas. No final do ano passado a favela da Rocinha registrava a impressionante média de 55 casos mensais de Tuberculose. Neste espaço geográfico miserável, desordenado e insalubre, espalha-se uma das três doenças infecciosas mais mortais da atualidade — ao lado da AIDS e da Malária.

E a Tuberculose avança nesta favela de forma tão brutal que só mesmo o fato de assolar sobretudo a população mais pobre pode explicar sua ausência dos debates públicos. A Organização Mundial de Saúde considera aceitável cinco casos de incidência do Bacilo de Koch, causador da doença, para cada 100 mil habitantes. Na Rocinha, são impressionantes 600 casos para cada 100 mil habitantes.

É uma triste convivência que se perpetua, a dos cariocas com as epidemias. Entra ano, sai ano. Entra século, sai século. Uma dobradinha histórica e trágica, que se reedita impunemente. Trata-se de uma lista extensa: cólera, varíola, gripe espanhola, leptospirose, meningite, Aids, febre amarela e muitas outras — noves fora a própria tuberculose e a dengue de cada verão. Algumas mais graves, outras mais breves e menos mortais, mas todas castigando a cidade com flagelos desconcertantes.

É claro que sofrer com epidemias não é uma exclusividade do Rio de Janeiro, e mesmo dentro do estado, não é uma exclusividade da capital. O vírus H5N1, causador da gripe aviária, está aí para provar que o mundo ainda vive às voltas com temores que remontam à mais devastadora epidemia da história, a da peste bubônica no  século XIV, que dizimou um terço da população mundial da época e ficou “celebrizada” pelo nome de Peste Negra. A humanidade convive com grandes epidemias desde a Peste de Atenas, no ano 428 a.C. Houve mesmo epidemias de peste bubônica no século XX, como a de 1944, na Argélia, que inspirou Albert Camus a escrever o clássico “A Peste”.

Mas a atual epidemia da dengue no Rio desnuda uma profunda carência de políticas de saúde pública de longo prazo, e o alarmismo da população carioca diante de vírus e bactérias não condiz com o status da cidade de metrópole de uma das maiores economias do mundo.

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2 Opiniões

  1. Sandy Fiorenza disse:

    Epidemia de dengue é a síntese do governo Lula, ele sim um grande transmissor de doença que deixa todo mundo se sentindo mal.

  2. Dorival Silva disse:

    Não sabia da tuberculose na Rocinha, não vi nada nos jornais, parece grave.

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