Início » Vida » Ciência » Zoólogo desenvolve método para combater superbactérias
Resistência a antibióticos

Zoólogo desenvolve método para combater superbactérias

Medicamento usado no tratamento de cânceres e doenças ósseas, nitrato de gálio parece impedir a evolução de bactérias resistentes a antibióticos

Zoólogo desenvolve método para combater superbactérias
Bactéria Pseudomonas aeruginosa usada na pesquisa do zoólogo Ross-Gilepsie (Foto: Center for Disease Control)

Muito se fala, nos círculos acadêmicos, das virtudes da pesquisa interdisciplinar. Uma perspectiva nova e externa pode fazer maravilhas, mostrando caminhos alternativos para solucionar problemas antigos. Isso parece ter acontecido, recentemente, no campo das pesquisas sobre bactérias resistentes a antibióticos.

Adin Ross-Gillespie, da Universidade de Zurique é zoólogo, não médico. Mas seus estudos sobre a cooperação entre animais, tais como suricatos e ratos-toupeira pelados, levaram-no a pensar sobre o comportamento de outro grupo de animais altamente colaborativos, as bactérias. Ele e seus colegas acabam de apresentar, em uma conferência sobre medicina evolutiva em Zurique, uma maneira de subverter essa colaboração para criar uma nova classe de remédios imune aos processos que fazem resistências evoluírem.

Como surgem as superbactérias

A resistência aos antibióticos acontece porque, quando uma população de bactérias é atacada por uma droga, os poucos organismos que, por acaso, têm uma proteção genética contra os seus efeitos sobrevivem e se multiplicam. Como na maioria dos casos de seleção natural, é a sobrevivência destes, os indivíduos mais aptos, que estimula o processo. Mas o Ross-Gillespie percebeu que, no caso das bactérias, existem circunstâncias em que a sobrevivência do mais forte pode ser evitada.

Um deles está relacionado à maneira como muitas bactérias absorvem um nutriente essencial, o ferro, a partir de seu ambiente. Elas fazem isso através da liberação de moléculas que captam íons de ferro e que, em seguida, são captadas por células bacterianas. Numa colônia de bactérias, a tarefa de produzir e liberar essa molécula, chamada sideróforo, é compartilhada por todos, uma vez que a molécula atua fora dos limites das células individuais. Todos os membros da colônia contribuem e se beneficiam.

Em teoria, isso deveria encorajar bactérias parasitas, ou aquelas que utilizam sideróforos feitos por outras sem contribuir seus próprios. Na prática, talvez porque as bactérias em uma colônia são parentes próximos, isso não parece acontecer. Mas, invertendo a lógica do parasitismo, é possível tornar o sistema vulnerável a ataques, porque não é vantajoso para uma bactéria contribuir mais do que as outras.

Seguindo esta linha de pensamento, Ross-Gillespie se concentrou no gálio, íons que se comportam muito como os de ferro e que são captados pelos sideróforos, embora sejam inúteis para uma bactéria. Na verdade, sideróforos se vinculam de forma mais eficaz ao gálio do que ao ferro. Uma dose criteriosa de nitrato de gálio pode, assim, matar toda uma colônia de bactérias, privando-a do ferro que ela necessita para prosperar.

O ponto crucial é que, na medida em que os sideróforos são compartilhados pelas bactérias, um sideróforo mutado que não se liga preferencialmente ao gálio não será suficiente para beneficiar a bactéria que o produziu, e, portanto, não será selecionado para propagação. Pelo menos, essa era a teoria de Ross-Gillespie.

Para testar esta teoria, ele e seus colegas criaram culturas de uma bactéria infecciosa, Pseudomonas aeruginosa. Em seguida, estas culturas foram expostas ao antibiótico ciprofloxacina, ao antibiótico gentamicina, a ambas as drogas ao mesmo tempo, a uma solução salina de controle, ou ao gálio.

Como se esperava, ambos os antibióticos e o nitrato de gálio reduziram o crescimento das bactérias no início. Como eles também esperavam, a resistência a ambos os antibióticos aumentou de forma constante ao longo dos 12 dias da experiência. Mas nada semelhante aconteceu nas culturas expostas ao nitrato de gálio. Estas continuaram a ser suprimidas. E quando os pesquisadores analisaram o que estava acontecendo, eles descobriram que não só as bactérias em suas amostras de gálio tinham desenvolvido uma deficiência de ferro, mas as bactérias também estavam respondendo à crise gastando toda sua energia para produzir mais e mais sideróforos, acelerando assim a morte da colônia.

O que torna tudo isso mais do que apenas uma curiosidade de laboratório é que o nitrato de gálio já é um medicamento aprovado. Ele tem sido usado de forma segura, e por um longo tempo, no tratamento de certos cânceres e doenças ósseas. Isto sugere (embora mais testes seriam necessários) que o gálio pode ser seguro para combater infecções. A análise evolutiva de Ross-Gillespie sobre como atacar a resistência aos antibióticos pode, portanto, ter feito a descoberta que faltava ao campo.

 

Fontes:
The Economist - Zoology to the Rescue

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *