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Surto de ebola na África gera alarmismo nos EUA

Pânico e medidas alarmistas no Ocidente podem piorar as condições na África Ocidental

Surto de ebola na África gera alarmismo nos EUA
Suspender voos de países mais afetados pelo surto não é uma solução (Reprodução/Internet)

O número de vítimas do ebola na Guiné, Libéria e Serra Leoa, os três países mais afetados da África Ocidental, está em torno de 3.900. Entre os casos diagnosticados fora da África, o total é um só: Thomas Duncan, o liberiano que morreu no Texas em 08 de outubro. No entanto, o medo da doença em países relativamente não afetados ameaça piorar ainda mais a tragédia na África.

Em 03 de outubro Bobby Jindal, o governador republicano do estado americano de Louisiana, pediu a suspensão de todos os voos provenientes de países “acometidos pelo ebola”. Outros políticos republicanos fizeram o mesmo. Muitos países africanos assim como companhias aéreas ocidentais já introduziram proibições próprias de voo.

Especialistas de órgãos públicos que se opõem a este tipo de medida argumentam que ela dificulta a chegada de ajuda humanitária e médicos às áreas atingidas, agravando os focos originais da doença. Muitos viajantes também acabam tomando rotas alternativas que são praticamente impossíveis de policiar. As consequências econômicas são potencialmente graves.

O pesquisador Dirk Brockmann da Universidade Humboldt, em Berlim, usou dados do transporte aéreo para estudar como o ebola pode se espalhar para além das fronteiras africanas. Sua pesquisa calculou a probabilidade de uma pessoa infectada embarcar em um avião nos países mais afetadas da África e desembarcar em cada um de dezenas de outros destinos.

O estudo de Brockmann oferece três grandes mensagens. Em primeiro lugar, os riscos para os países ocidentais são relativamente baixos, mesmo sem alterações em planos de voo. Para cada 100 passageiros infectados que embarcam na Guiné, Libéria e Serra Leoa, 84 normalmente desembarcam em outro aeroporto africano. Três chegariam na Grã-Bretanha e França e apenas um nos EUA. Sistemas de saúde bem financiados e preparados são capazes de lidar com essa ameaça.

‘Pensamento do século 19’

Em segundo lugar, se um país tem realmente a intenção de manter  o ebola fora de suas fronteiras, ele tem que ir mais longe do que proibir voos dos países mais afetados. A única vítima da doença nos EUA pode ter desembarcado em Dallas, mas a primeira etapa de sua viagem de Monróvia, capital da Libéria, foi para Bruxelas. Aeroportos em Londres e Paris desempenham um papel importante na ligação entre Serra Leoa e Guiné e o resto do mundo. A pressão para suspender voos da África Ocidental parece, nas palavras de Brockmann, um “pensamento do século 19”. “Arrogância” seria um termo mais preciso.

É importante monitorar passageiros provenientes de países afetados, mas é preciso saber onde esses viajantes estão fazendo escalas. Essa é a terceira lição do estudo: muitos passageiros irão encontrar rotas menos previsíveis se precisarem. Suspender voos entre Conakry na Guiné e Charles de Gaulle em Paris, por exemplo, aumenta a probabilidade de que as pessoas vão voar para Dubai ou para Abidjan, na Costa do Marfim. Outros irão evitar aeroportos completamente: a viagem de ônibus para chegar ao Quênia é comum entre os africanos ocidentais. Virar as costas para o ebola não é a mesma coisa que conter a doença.

 

Fontes:
Economist - Bridges or walls

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