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The New York Times

O Steve Jobs que conheci

Repórter do 'New York Times' relembra momentos ao lado do falecido criador da Apple. Por Walter S. Mossberg*

O Steve Jobs que conheci
Walt Mossberg e Steve Jobs em entrevista em maio de 2007

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Steve Jobs foi um gênio que influenciou várias indústrias e bilhões de vidas, uma figura histórica da dimensão de Thomas Edison ou Henry Ford, e um modelo para muitos líderes corporativos em muitas indústrias diferentes, contratando e inspirando grandes figuras.

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E ele sabia vender.

Mas havia um lado mais pessoal de Steve Jobs, é claro, e eu tive o privilégio de conhecer parte dele, durante os 14 anos em que ele esteve à frente da Apple. Essas são algumas das histórias que ilustram o homem que eu conheci.

Os telefonemas

Não conheci Steve Jobs em sua primeira passagem pela Apple, mas dias depois de voltar à empresa, em 1997, ele começou a ligar para minha casa por quatro ou cinco fins de semana consecutivos. Como eu era um repórter veterano, deduzi que ele queria me bajular, e conquistar meu apoio para uma empresa cujos produtos eu recomendara no passado, mas que, recentemente, eu aconselhava meus leitores a evitarem.

No entanto, havia mais nas ligações de Steve do que isso. Elas se transformaram em conversas de 90 minutos sobre os mais variados assuntos, que revelaram o seu impressionante conhecimento. Num minuto ele falava sobre ideias incríveis para a revolução digital. No outro, ele explicava porque os atuais produtos da Apple eram horríveis, e porque uma cor, um ângulo ou uma curva eram embaraçosos.

Depois da segunda ligação desse tipo, minha esposa se incomodou com sua intrusão no nosso fim de semana. Eu não.

Mais tarde, ele ligaria reclamando sobre algumas avaliações – embora eu honestamente tenha me sentido absolutamente confortável em recomendar a maioria de seus produtos para o consumidor médio sem grandes preocupações tecnológicas. Eu sabia que ele ligara para reclamar, porque ele iniciava todas as conversas dizendo “Olá, não estou ligando para reclamar, mas tenho alguns comentários sobre a sua coluna, se não for um problema”.

O otimista

Eu não tenho como saber como Steve falava com sua equipe durante o período negro da Apple entre 1997 e 1998, quando a empresa estava à beira do colapso, e se viu forçada a recorrer à arquirrival Microsoft. Ele certamente tinha um lado imprevisível e maldoso, e eu esperava que ele se manifestasse em algum momento, dentro e fora da empresa.

Mas posso honestamente dizer que, nas minhas muitas conversas com ele, o tom dominante foi de otimismo e certeza, tanto para a Apple, quanto para a revolução digital como um todo. Mesmo quando me contava sobre sua luta para fazer com que a indústria musical o deixasse vender canções digitais, ou falava sobre seus rivais de mercado, pelo menos na minha presença, seu discurso era sempre paciente, e com uma visão de longo prazo. Talvez isso tenha sido premeditado, afinal ele sabia que eu era um jornalista, mas de toda forma, era algo impressionante.

Em muitas de nossas conversas, quando eu criticava decisões de gravadoras ou operadoras telefônicas, ele me surpreendia discordando veementemente, explicando como sua visão de mundo funcionava, como seus empregos sofriam com as perturbações digitais, e como eles reagiriam mais adiante.

Essa qualidade foi exibida quando a Apple abriu sua primeira loja, que, por acaso, ficava nos subúrbios de Washington, perto da minha casa. Ele conduziu uma coletiva com jornalistas, orgulhoso de sua loja como um pai ficaria de seu primeiro filho. Eu comentei que certamente haveria algumas outras poucas lojas, e perguntei a ele o que a Apple sabia sobre o ramo do varejo. Ele me olhou como se eu fosse louco, e me disse que a companhia havia passado um ano elaborando cuidadosamente as lojas, e que elas seriam muitas. Eu o provoquei perguntando se ele, pessoalmente, apesar de seus duros deveres como executivo-chefe, tinha aprovado os mínimos detalhes, como a transparência do vidro e a cor da madeira usada na loja. “É claro”, respondeu ele.

O lançamento dos produtos

Às vezes, ele me convidava para ver grandes produtos, antes que eles fossem anunciados para o mundo. Ele deve ter feito o mesmo com outros jornalistas. Nos encontrávamos em uma enorme sala de reuniões, com poucos de seus ajudantes presentes, e ele insistia – mesmo numa cerimônia privada – que as novas criações fossem cobertas com panos, para que ele pudesse revelá-las como um showman, com brilho nos olhos e paixão na voz. Então nos sentávamos para uma longa discussão sobre o passado e o futuro, e fofocar sobre a indústria.

Ainda me lembro do dia em que ele me mostrou o primeiro iPod. Eu fiquei impressionado com a ideia de uma empresa de computadores se aventurando no mundo dos aparelhos musicais, mas ele me explicou que via a Apple como uma empresa de produtos digitais, não como uma fabricante de computadores. Foi o mesmo com o iPhone, a loja de música do iTunes, e o iPad, que ele me pediu para ver em sua casa, pois estava muito doente para ir ao escritório.

Água gelada no inferno

Na quinta edição da All Things Digital, nossa conferência de produtos digitais, Steve e seu rival de longa data, o brilhante Bill Gates, surpreendentemente concordaram em aparecer juntos, em sua primeira entrevista conjunta na história. Mas isso quase não aconteceu.

Mais cedo, naquele mesmo dia, antes que Gates chegasse, fiz uma entrevista com Jobs no palco, e perguntei a ele como era ser um programador de Windows, já que – na época – o iTunes estava sendo instalado em centenas de milhões de PCs ao redor do mundo.

“É como dar um copo de água gelada para alguém que está no inferno”, foi sua resposta.

Quando Bill Gates chegou e soube do comentário, ficou, como era de se esperar, furioso. Em um encontro antes da entrevista, Gates disse a Jobs: “Então, acho que sou o representante do inferno”. Jobs se limitou a lhe dar uma garrafa d’água, quebrando a tensão e fazendo da entrevista um triunfo, com ambos se comportando como se fossem chefes de Estado. No fim, a plateia aplaudiu a dupla de pé com lágrimas nos olhos.

A caminhada

Após seu transplante de fígado, enquanto se recuperava em Palo Alto, Steve me convidou para colocar a conversa em dia. Isso se transformou numa visita de três horas, marcada por uma caminhada até um parque próximo, que ele insistiu em fazer, apesar de meu receio por sua saúde frágil.

Ele me explicou que caminhava todos os dias, e que, a cada dia, escolhia um ponto mais distante como meta, e aquele era o dia de caminhar até o parque. Enquanto caminhávamos e conversávamos, ele subitamente parou, com um aspecto horrível. Eu o implorei para que voltasse para casa, deixando claro que não sabia fazer massagens cardíacas e que podia visualizar as manchetes dizendo: “Repórter incompetente deixa Steve Jobs morrer na calçada”.

Mas ele riu e se recusou, e, após essa pausa, voltou a caminhar na direção do parque, onde nos sentamos em um banco, conversando sobre a vida, nossas famílias e respectivos problemas de saúde (eu sofrera um ataque cardíaco anos antes). Ele me deu um sermão sobre a necessidade de se manter saudável, e nós então caminhamos de volta.

Steve Jobs não morreu naquele dia, para meu alívio. Mas dessa vez ele realmente se foi, ainda tão jovem. E foi o mundo que saiu perdendo.

* Colunista do caderno de tecnologia do New York Times

Fontes:
The New York Times - Mossberg: The Steve Jobs I Knew

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