Início » Opinião » Tendências e Debates » Um espaço virtual onde tudo é possível
SECOND LIFE

Um espaço virtual onde tudo é possível

Cerca de 8 milhões de pessoas soltam a imaginação, buscando viver o que a realidade não permite no mundo do Second Life

Um espaço virtual onde tudo é possível
O Second Life é um simulador virtual em três dimensões, lançado em 2003 e que tem seus espaços construídos por seus próprios membros (Foto: Divulgação)

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

Uma segunda vida na qual se pode voar e, para estar num lugar diferente da sua casa, basta um clique. Festas, encontros com amigos, lojas em que se pode comprar não só roupas, mas peles para o seu corpo, cabelos magníficos ao seu gosto e até feições, que ajudam a ficar com um visual mais próximo daquele que se almeja. Essas são algumas das características encontradas por quem embarca no mundo do Second Life, onde muita gente – cerca de 8 milhões de pessoas, segundo o site oficial — solta a imaginação, buscando viver o que a realidade não permite.

“Estamos ali pra viver tudo que há de melhor, e é isso que tentamos fazer a cada segundo lá dentro. Eu viajo em mim mesma. Esqueço a hora aqui fora, o tempo passa em um segundo, e parece não ter fim! É muito bom”, relata Auda Raquel, que se chama Audynha Hoorenbeek no SL. Ela tem 20 anos, mora em João Pessoa (PB) e fica conectada no Second Life durante todo o tempo em que está no trabalho. Quando chega em casa, à noite, entra novamente e só desconecta por volta das 3h da manhã.

“Acho que as pessoas usam a SL pra esconder suas verdadeiras vontades”, diz Vinicius Torves, 18 anos, estudante que trabalha com edição de vídeos. No Second Life, ele se chama Slesh Zabelin e tem aproximadamente 25 anos. Vinicius, assim como Auda, não teve problemas em se identificar e revelar o nome que usa no SL. No entanto, citou a profissão de garota de programa, seguida por algumas personagens do SL, como um exemplo para mostrar que, quando se trata de uma “segunda vida”, vontades ocultas podem vir à tona. Para se fazer tudo o que se deseja no SL, assim como na vida real, é preciso conseguir dinheiro. E trabalhar, também como na vida de verdade, é o caminho mais comum para isso. Algumas meninas, no entanto, optam pela profissão da “vida fácil” para juntar Lindens – a moeda do SL — mais rapidamente e assim poderem comprar e fazer o que querem. Mas será que é só isso?

Vinicius real e no SL

Auda conta que soube até mesmo de um casamento que passou a dar errado quando o marido descobriu que a esposa, no SL, era uma prostituta. “Acho que a impressão que o marido teve foi de que ela estava fazendo aquilo no SL porque é o que ela queria fazer na ‘real life’ e não podia, ou que ela era desse ‘tipo’. Ele não deve entender muito do jogo, também”, diz. Uma usuária do site, que não quis revelar nem a sua identidade real, garante que muita gente que se sente reprimida resolve entrar no jogo para fazer o que não tem coragem na vida real.

Jogo? É assim que os membros da “comunidade Second Life” o definem? Segundo Torves, trata-se do “melhor simulador de vidas”, onde “o limite é a imaginação”. “Nem jogo nem RPG, é uma extensão da vida, como um universo paralelo”, diz Nina Parreiras, ou Thereaver Barrymore, seu nome no SL. Em “ambas as vidas”, ela, que mora em São Paulo e costuma passar em média três horas por dia conectada ao SL, tem 27 anos.

Apesar de Torves afirmar que não é muito diferente na vida real e nesse simulador, ele diz que seu avatar, ou personagem, tem alterações físicas – mas justifica afirmando que é só porque ele não conseguiu ainda fazê-lo ficar mais parecido com sua imagem verdadeira. Ao apontar diferenças entre seu avatar e a maneira como ela é na vida real, Nina afirma que a principal mudança é que sua personagem é um pouco mais magra do que ela — mas admite que gostaria de ter uns quilinhos a menos também na vida real. Ela garante que o resto é fiel à realidade. “Não quis fazer algo que não sou, fingir pensar algo que não penso. Estilo, gostos e pensamentos são os mesmos”. Ela alerta que, se não for assim, isso pode até dar problema. “Você começa atuando, e dá para fingir ser algo que não se é até a hora em que começa a conviver com pessoas lá dentro. Eu fiz muitas amizades lá, elas me conhecem bem. Mesmo fingindo ser algo que não se é, caráter não muda, nem personalidade, pensamentos”, garante.

Auda Raquel até se considera parecida, ao menos fisicamente, com a personagem que criou para si no SL. No entanto, admite que sua “second life” é bem melhor que a “real life” que ela leva, como vendedora em uma loja de produtos de informática. No SL, atua como promoter de uma agência chamada “Hyperativa” – segundo ela uma das maiores, senão a maior, organizadora de eventos do espaço virtual –- e se diverte muito. “Na ‘real life’, eu sou casada. Lá estou solteira”, revela, explicando que isso possibilita que ela paquere e “brinque” muito no Second Life. “O SL te dá muitas oportunidades que na vida real você às vezes não tem de fato”.

O avatar criado por Auda é uma mulher de cabelos loiros muito claros e lisos, corpo malhado, e que já teve namorados no SL. Enquanto isso, a verdadeira Auda permanece casada com a mesma pessoa na vida real. O marido (de verdade) sabe disso, mas não dos detalhes. “Ele sabe que eu jogo, sabe como funciona o jogo. E quando eu estava ‘de namorado’ eu também não escondia; claro que na frente dele eu não fazia nada demais, mas tem aquela hora em que você está sozinha e ‘deixa acontecer’”, conta, dizendo que apesar de só ter tido essa experiência uma vez gostaria de repeti-la.

Auda real e no SLAuda conta que acredita ser possível que as diferenças entre a vida real e a imaginária que corre no SL se misturem. “Você se envolve muito naquele mundo”, diz, destacando que o SL “é muito intenso, mexe muito com os sentidos”. Ela, no entanto, garante que não descuida disso. “A ‘real life’ também chama, no meu caso acho que tem aquela hora em que digo ‘Opa! Isso não é assim, eu não sou assim!’ Mas existem casos e casos”. Torves, que costuma ficar conectado ao SL no máximo quatro horas por dia, também acredita na possibilidade de uma confusão entre as “duas vidas”. “O tempo que você fica no SL, e se você não tiver cabeça suficiente, se torna um vício”, diz. “Temos que ter cuidado pra não ficar dependentes e acabar levando isso pro lado real da coisa”, alerta, complementando que se considera “moderado” e que fica “atento para não deixar isso acontecer”.

Segundo a psicóloga Sueli Duék, essa confusão representa um risco importante, a partir do momento em que o Second Life deixa de ser compreendido como apenas mais uma ferramenta tecnológica. “Pessoas entram numa ‘fantasia do milagre’, afastando a realidade objetiva, confundindo vida real com Second Life”, alerta. “O perigo está no grau de afastamento da realidade objetiva. A ‘second life’ passa ser a primeira vida, não a segunda”, define, complementando que o SL pode até ser interessante, servindo para divertir e distrair, mas que não deve ser confundido com uma terapia –- até porque não apresenta o elemento essencial: a figura do terapeuta, do psicólogo. “Sem a percepção dos limites, o comportamento pode acabar sendo um distúrbio. E, se já existir um distúrbio de comportamento, ele pode piorar com o Second Life”.

Uma participante do site, identificada em sua “segunda vida” como Melina LeShelle, acredita que muita gente já esteja usando o SL como, mais que uma terapia, uma fuga da vida real. Ela descreve seus melhores amigos de lá e garante que, se entre os usuários brasileiros tudo acontece de forma mais tranqüila, com os membros internacionais do Second Life não é bem assim. “Um dinamarquês com câncer terminal, uma australiana e uma portuguesa com síndrome do pânico – que nem saem de casa mais –, um alemão recém-separado, totalmente tímido, que no jogo tira a maior onda de ‘garanhão’, e um inglês cinqüentão em crise com o casamento que usa o jogo para praticar sadomasoquismo. Estes são apenas meus cinco melhores ‘amigos’”, analisa, complementando que acaba se transformando numa espécie de “psicóloga virtual” para essas pessoas. “SL é lugar de fugir da vida, viver uma vida perfeita. Na real life, normalmente, as coisas funcionam de uma forma bem diferente”, diz.

Além do Second Life, outras ferramentas de comunicação da Web podem provocar uma “mistura de vidas”, como o Orkut. A personagem Audynha, que Auda criou no Second Life, tem vida própria na internet: possui uma conta no Messenger – programa de mensagens instantâneas – só dela e uma página no Orkut também. Até aí, tudo pode ser uma brincadeira. No entanto, “quando o Second Life ou o Orkut passa a ser a única vida da pessoa, essa ‘second life’ passa a ser a anti-vida”, adverte Suely.

Sobre o Second Life

O Second Life é um simulador virtual em três dimensões, lançado em 2003 e que tem seus espaços construídos por seus próprios membros. Os usuários se cadastram em www.secondlife.com e podem criar personagens para viver situações baseadas na vida real.

Apesar de haver mais de 8 milhões de usuários registrados no site, comenta-se que muitos dos que se cadastram não usam suas contas ou criam mais de um perfil, e que portanto o número real de pessoas que utilizam o Second Life estaria em torno de 30 mil.

O Brasil já é o quarto país no ranking de acessos ao simulador,  desenvolvido pelo físico americano Philip Rosadale e mantido por sua empresa Linden Research.

Apesar de uma moeda própria do SL ser usada por seus membros, gasta-se também dinheiro real para “brincar”, pois certos luxos – ou até necessidades tidas como básicas – exigem esse investimento. “Compro um x por mês pra poder me manter lá – tenho casa, divido uma casa com uma amiga – e comprar roupas”, diz Nina Parreiras. Já Vinicius Torves acredita que só vale a pena investir se houver retorno. “Assim como um bom negócio, por que não investir?”, questiona.

Dê a sua opinião sobre o Second Life.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

26 Opiniões

  1. Evandro Correia disse:

    Essa é uma brincadeira muito louca, uma fuga da realidade para pessoas insatisfeitas com sua vida real. Em vez de investir em melhorar sua realidade, fogem dela. Não dou 6 meses para sabermos do primeiro assassinato originado de relacionamentos aí.

  2. Melina Leshelle disse:

    Não concordo com o Evandro. O Second Life não é só de pessoas malucas insatisfeitas. Há muitas pessoas felizes, com vidas reais interressantes e que apenas jogam por diversão. Uns vêem televisão, outros jogam a pelada no fim de semana…
    O SL é uma porta para o mundo. Você pode conhecer pessoas, culturas e lugares (muito próximos da realidade), que talvez nunca pudesse na real life.
    Diversão pura e simples…

  3. Júlia disse:

    Muita boa reportagem. Ainda não conheço o SL, mas confesso que depois de ler o texto, me interessei em saber um pouco mais a respeito.

  4. Ulisses Magalhães disse:

    Eu acho tudo uma loucura!! Não quero nem ver meus filhos mexendo nisso…

  5. NiGhT Perfferle disse:

    eu jogo e vou logo dizendo, esse jogo é viciante! tem q saber se ponderar.

  6. carla disse:

    não concordo com o Evandro,ainda ñ tive oportunidade de baixar o jogo mais pelas reportagens que li gostei muito dele e não acho que vai ocorrere nenhum assassinato por favor Evandro aí vc exagerou.

  7. André disse:

    A bolha do second life já estourou. Diversas empresas como Sears e IBM já estão retirando suas propriedades do SL, pois os números de usuários reais apresentados pela Linden Labs estão superestimados.

  8. Leo de Abreu disse:

    Achei interessante a idéia do SL, mas acho que poderíamos criar algo mais identificado com o nosso Brasilzão e certamente viveríamos emoções nunca imaginadas. Por que não criar um mundo virtual onde o "player" pudesse experimentar a desgraça de vida de que padecem os pobres e miseráveis deste país? Poderia se chamar "Hard Life" e contemplar curtições do tipo: viver com um salário mínimo (a moeda poderia se chamar Horrivens), utilizar os hospitais públicos quando adoecesse, pegar um "busum" quando saísse do trabalho às seis para chegar em casa às onze – e chegando em casa encontrar os filhos sem ter o que comer ou fazendo algum servicinho para o tráfico… Comprar? Fácil! Era só entrar numa das centenas de quitandas financeiras espalhadas por aí e pegar uma grana a juros de 300% a.a. para poder satisfazer suas vaidades… Bem, teria muita coisa para se criar nesse mundo virtual pobre… Mas o mais bacana de tudo é que a nossa "real life" iria parecer muito melhor do que é após cada sessão de miséria virtual! (acho que me arrependi de divulgar a idéia!…)

    Abraços,

    Leo

  9. Markut disse:

    Era só o que faltava em termos de escapismo e alienação.

  10. Redação disse:

    Prezado Leitor,

    Informamos que modificamos o envio dos comentários.Criamos um filtro, onde se exige que ao enviar suas mensagens, o leitor digite 4 caracteres, para que com isso possamos filtrar os lixos eletrônicos.

  11. Marcelo disse:

    Eu só acho que muitas vezes esse escape da vida real serve para preencher vazios perante questões como personalidade, objetivos e fraquezas. O jogador acaba por viver uma vida virtual, onde no fundo, o que realmente está por fazer, é sentar numa cadeira e ver o tempo passar. Aí podemos parar e refletir:"o que eu fiz? Qual foi meu papel no mundo? O que eu produzi?"

    Para se manter a harmonia, devemos sempre buscar o equilibrio. Se quiser jogar, tudo bem! Agora, saiba dosar.

  12. Claudius Foden disse:

    O SL é uma segunda vida realmente pra mim. Eu era dono de cassino até que a Linden Labs resolveu da noite para o dia fechá-los. Fiquei com um elefante branco em meu inventário, uma porção de máquinas de cassino pagas por mim e embora a decisão tenha sido deles ninguém recebeu nada de volta, ou seja, eles permitiram a venda de máquinas, acessórios e outras coisas mais e um belo dia resolveram que "achavam" que a atividade poderia ser considerada ilegal pelo FBI. Bem…o jogo é virtual, mas o dinheiro que perdi é real, no total cerca de US$ 500…isso, pasmem! Agora abri um shopping e é minha última cartada, vamos ver no que dá, né?

  13. marcio disse:

    Olá estou fazendo meu trabalhode conclusao de curso sobre o SL. Gostaria de saber se alguem tem algum artigo ou material escrito que fale sobre o SL.
    meu email é psicomarcio@terra.com.br

  14. Danilo disse:

    Quanto ao Second Life concordo com o leitor que afirmou que tudo é uma questão de saber dosar, ela não leva necessariamente a alienação. Nada impede que as pessoas tenham amigos e diversão na vida real, e façam parte também de comunidades como o Orkut,Second Life e outras.Conheço pessoas assim e que nem por isso são alienadas.Em compensação há pessoas que apesar de não participarem destas comunidades e apesar de visualizar as condições das pessoas mais carentes em nosso país, não são capazes de mover uma palha nesse sentido, sendo alienadas.

  15. Edilson Silva disse:

    Esse jogo é bastante perigoso, principalmente para as pessoas que não tem um bom equilíbrio psicológico, que se deixam levar por qualquer coisa.

  16. juliana albuquerque disse:

    ESTOU REALIZANDO UM TRABALHO SOBRE SL, GOSTARIA DE SABER DAS PESSOAS QUE PARTICIPAM SE É POSSÍVEL VIDA ARTIFICIAL (SEGUNDA VIVA)E INTELIGENTE EM UMA SOCIEDADE.

  17. Jana Csak disse:

    bem, eu jogo second life e para mim foi a melhor coisa que puderam inventar. Não tem nada de perigoso como as pessoas vem falando, mas quem nunca jogou pode até falar isso pelo simples desconhecimento!

  18. rubia disse:

    pra q nao tem o q fazer como eu e muito bom.

  19. mari disse:

    que jogo que não da para entender

  20. dario centution larramendia disse:

    bom,desde os tempos em que o homem se deu conta de si como individuo,ele tenta desesperadamente mudar tudo aquilo que nele é imperfeito.esse site é um exemplo disso,as pessoas cansadas de suas vidas reais tentando viver uma outra vida,de acordo com suas preferencias.atitude de covardes!!!!!

  21. Tatiane disse:

    O second life é perfeitooooooooooooooo!!!

  22. kamyla santos disse:

    traí o meu namorado e ele terminou comigo e agora oque que eu faço pra voltar com ele?

  23. sarah disse:

    como jogamos este jogo?

  24. dhamares disse:

    eu quero montar meu avatar

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *