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Uma segunda vida na qual se pode voar e, para estar num lugar diferente da sua casa, basta um clique. Festas, encontros com amigos, lojas em que se pode comprar não só roupas, mas peles para o seu corpo, cabelos magníficos ao seu gosto e até feições, que ajudam a ficar com um visual mais próximo daquele que se almeja. Essas são algumas das características encontradas por quem embarca no mundo do Second Life, onde muita gente – cerca de 8 milhões de pessoas, segundo o site oficial — solta a imaginação, buscando viver o que a realidade não permite.
“Estamos ali pra viver tudo que há de melhor, e é isso que tentamos fazer a cada segundo lá dentro. Eu viajo em mim mesma. Esqueço a hora aqui fora, o tempo passa em um segundo, e parece não ter fim! É muito bom”, relata Auda Raquel, que se chama Audynha Hoorenbeek no SL. Ela tem 20 anos, mora em João Pessoa (PB) e fica conectada no Second Life durante todo o tempo em que está no trabalho. Quando chega em casa, à noite, entra novamente e só desconecta por volta das 3h da manhã.
“Acho que as pessoas usam a SL pra esconder suas verdadeiras vontades”, diz Vinicius Torves, 18 anos, estudante que trabalha com edição de vídeos. No Second Life, ele se chama Slesh Zabelin e tem aproximadamente 25 anos. Vinicius, assim como Auda, não teve problemas em se identificar e revelar o nome que usa no SL. No entanto, citou a profissão de garota de programa, seguida por algumas personagens do SL, como um exemplo para mostrar que, quando se trata de uma “segunda vida”, vontades ocultas podem vir à tona. Para se fazer tudo o que se deseja no SL, assim como na vida real, é preciso conseguir dinheiro. E trabalhar, também como na vida de verdade, é o caminho mais comum para isso. Algumas meninas, no entanto, optam pela profissão da “vida fácil” para juntar Lindens – a moeda do SL — mais rapidamente e assim poderem comprar e fazer o que querem. Mas será que é só isso?

Auda conta que soube até mesmo de um casamento que passou a dar errado quando o marido descobriu que a esposa, no SL, era uma prostituta. “Acho que a impressão que o marido teve foi de que ela estava fazendo aquilo no SL porque é o que ela queria fazer na ‘real life’ e não podia, ou que ela era desse ‘tipo’. Ele não deve entender muito do jogo, também”, diz. Uma usuária do site, que não quis revelar nem a sua identidade real, garante que muita gente que se sente reprimida resolve entrar no jogo para fazer o que não tem coragem na vida real.
Jogo? É assim que os membros da “comunidade Second Life” o definem? Segundo Torves, trata-se do “melhor simulador de vidas”, onde “o limite é a imaginação”. “Nem jogo nem RPG, é uma extensão da vida, como um universo paralelo”, diz Nina Parreiras, ou Thereaver Barrymore, seu nome no SL. Em “ambas as vidas”, ela, que mora em São Paulo e costuma passar em média três horas por dia conectada ao SL, tem 27 anos.
Apesar de Torves afirmar que não é muito diferente na vida real e nesse simulador, ele diz que seu avatar, ou personagem, tem alterações físicas – mas justifica afirmando que é só porque ele não conseguiu ainda fazê-lo ficar mais parecido com sua imagem verdadeira. Ao apontar diferenças entre seu avatar e a maneira como ela é na vida real, Nina afirma que a principal mudança é que sua personagem é um pouco mais magra do que ela — mas admite que gostaria de ter uns quilinhos a menos também na vida real. Ela garante que o resto é fiel à realidade. “Não quis fazer algo que não sou, fingir pensar algo que não penso. Estilo, gostos e pensamentos são os mesmos”. Ela alerta que, se não for assim, isso pode até dar problema. “Você começa atuando, e dá para fingir ser algo que não se é até a hora em que começa a conviver com pessoas lá dentro. Eu fiz muitas amizades lá, elas me conhecem bem. Mesmo fingindo ser algo que não se é, caráter não muda, nem personalidade, pensamentos”, garante.
Auda Raquel até se considera parecida, ao menos fisicamente, com a personagem que criou para si no SL. No entanto, admite que sua “second life” é bem melhor que a “real life” que ela leva, como vendedora em uma loja de produtos de informática. No SL, atua como promoter de uma agência chamada “Hyperativa” – segundo ela uma das maiores, senão a maior, organizadora de eventos do espaço virtual –- e se diverte muito. “Na ‘real life’, eu sou casada. Lá estou solteira”, revela, explicando que isso possibilita que ela paquere e “brinque” muito no Second Life. “O SL te dá muitas oportunidades que na vida real você às vezes não tem de fato”.
O avatar criado por Auda é uma mulher de cabelos loiros muito claros e lisos, corpo malhado, e que já teve namorados no SL. Enquanto isso, a verdadeira Auda permanece casada com a mesma pessoa na vida real. O marido (de verdade) sabe disso, mas não dos detalhes. “Ele sabe que eu jogo, sabe como funciona o jogo. E quando eu estava ‘de namorado’ eu também não escondia; claro que na frente dele eu não fazia nada demais, mas tem aquela hora em que você está sozinha e ‘deixa acontecer’”, conta, dizendo que apesar de só ter tido essa experiência uma vez gostaria de repeti-la.
Auda conta que acredita ser possível que as diferenças entre a vida real e a imaginária que corre no SL se misturem. “Você se envolve muito naquele mundo”, diz, destacando que o SL “é muito intenso, mexe muito com os sentidos”. Ela, no entanto, garante que não descuida disso. “A ‘real life’ também chama, no meu caso acho que tem aquela hora em que digo ‘Opa! Isso não é assim, eu não sou assim!’ Mas existem casos e casos”. Torves, que costuma ficar conectado ao SL no máximo quatro horas por dia, também acredita na possibilidade de uma confusão entre as “duas vidas”. “O tempo que você fica no SL, e se você não tiver cabeça suficiente, se torna um vício”, diz. “Temos que ter cuidado pra não ficar dependentes e acabar levando isso pro lado real da coisa”, alerta, complementando que se considera “moderado” e que fica “atento para não deixar isso acontecer”.Segundo a psicóloga Sueli Duék, essa confusão representa um risco importante, a partir do momento em que o Second Life deixa de ser compreendido como apenas mais uma ferramenta tecnológica. “Pessoas entram numa ‘fantasia do milagre’, afastando a realidade objetiva, confundindo vida real com Second Life”, alerta. “O perigo está no grau de afastamento da realidade objetiva. A ‘second life’ passa ser a primeira vida, não a segunda”, define, complementando que o SL pode até ser interessante, servindo para divertir e distrair, mas que não deve ser confundido com uma terapia –- até porque não apresenta o elemento essencial: a figura do terapeuta, do psicólogo. “Sem a percepção dos limites, o comportamento pode acabar sendo um distúrbio. E, se já existir um distúrbio de comportamento, ele pode piorar com o Second Life”.
Uma participante do site, identificada em sua “segunda vida” como Melina LeShelle, acredita que muita gente já esteja usando o SL como, mais que uma terapia, uma fuga da vida real. Ela descreve seus melhores amigos de lá e garante que, se entre os usuários brasileiros tudo acontece de forma mais tranqüila, com os membros internacionais do Second Life não é bem assim. “Um dinamarquês com câncer terminal, uma australiana e uma portuguesa com síndrome do pânico – que nem saem de casa mais –, um alemão recém-separado, totalmente tímido, que no jogo tira a maior onda de ‘garanhão’, e um inglês cinqüentão em crise com o casamento que usa o jogo para praticar sadomasoquismo. Estes são apenas meus cinco melhores ‘amigos’”, analisa, complementando que acaba se transformando numa espécie de “psicóloga virtual” para essas pessoas. “SL é lugar de fugir da vida, viver uma vida perfeita. Na real life, normalmente, as coisas funcionam de uma forma bem diferente”, diz.
Além do Second Life, outras ferramentas de comunicação da Web podem provocar uma “mistura de vidas”, como o Orkut. A personagem Audynha, que Auda criou no Second Life, tem vida própria na internet: possui uma conta no Messenger – programa de mensagens instantâneas – só dela e uma página no Orkut também. Até aí, tudo pode ser uma brincadeira. No entanto, “quando o Second Life ou o Orkut passa a ser a única vida da pessoa, essa ‘second life’ passa a ser a anti-vida”, adverte Suely.
Sobre o Second Life
O Second Life é um simulador virtual em três dimensões, lançado em 2003 e que tem seus espaços construídos por seus próprios membros. Os usuários se cadastram em www.secondlife.com e podem criar personagens para viver situações baseadas na vida real.
Apesar de haver mais de 8 milhões de usuários registrados no site, comenta-se que muitos dos que se cadastram não usam suas contas ou criam mais de um perfil, e que portanto o número real de pessoas que utilizam o Second Life estaria em torno de 30 mil.
O Brasil já é o quarto país no ranking de acessos ao simulador, desenvolvido pelo físico americano Philip Rosadale e mantido por sua empresa Linden Research.
Apesar de uma moeda própria do SL ser usada por seus membros, gasta-se também dinheiro real para “brincar”, pois certos luxos - ou até necessidades tidas como básicas – exigem esse investimento. “Compro um x por mês pra poder me manter lá - tenho casa, divido uma casa com uma amiga - e comprar roupas”, diz Nina Parreiras. Já Vinicius Torves acredita que só vale a pena investir se houver retorno. “Assim como um bom negócio, por que não investir?”, questiona.
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